A ARCA

A arca

 

A Arca   (Autoria: Sônia Moura)

 

Não tinha coragem de abrir a velha arca chinesa e muito menos abrir o seu coração povoado por velhas lembranças, desde que sua irmã gêmea morreu afogada e ela passou a sentir-se eternamente culpada.

Mas, naquela sexta-feira fria, sozinha em casa, não sabia bem o porquê, sentia-se tentada a abrir aquele cadeado e mergulhar nas águas do passado.

Por um tempo olhou aquela chave antiga, titubeou, brincou com a conta negra que pendia do cordão e seguiu em frente. Abriu as portas do passado.

Mergulhando no meio de tantas lembranças amareladas, Mariana encontrou o passado escondido, tão pálido como o papel que envolvia o álbum de retratos, lá estava seu mundo tão distante. Naquele momento, Mariana viu seu inocente mundo ser reconstituído.

Fotos de uma infância distante vieram à tona, para saudar aquele momento.

A menina da foto sorriu para ela, a mãe lançou-lhe um olhar de saudade.

Disse adeus ao passado, fechou novamente a arca e pensou: – Quem sabe um dia meus filhos coloquem tudo isto no computador?

Finalmente, Mariana libertara-se de sua própria arca.

 

(Da obra CONTOS e CONTAS de Sônia Moura)

 

 A Arca

LABIRINTOS DA IMAGINAÇÃO

 LABIRINTOS DA IMAGINAÇÃO

Labirintos da Imaginação (por Sônia Moura)

 

Para se viver à margem da prisão à qual nos submete a realidade, basta seguirmos pelos labirintos da imaginação, porque, somente lá, se pode entender os verdadeiros significados de todos os nossos sonhos e mais íntimos desejos.

Apenas pelos desvios dos labirintos da imaginação, os enigmas podem ser revelados e, da mesma forma, os mistérios podem ser desvendados, pois seus véus e tapumes são retirados e eles se mostram a quem quiser ver.

Brincando nos labirintos da imaginação, a poesia se enche de razão, nos enche de emoção, levando o mais cético a crer num deus do amor que descerá dos céus para resgatá-lo e a seu amor.  

É perdendo-se dentro dos labirintos da imaginação que se alcança a ilimitada liberdade, quando a palavra se torna serva, irmã, amante e cúmplice, para revelar nosso eu.

Lágrimas e sorrisos se fundem quando se hospedam nos labirintos da imaginação, para fazer com que imagens etéreas dissipem a escuridão, dando mais brilho à luz.

Mas, nem mesmo os labirintos da imaginação dão conta de decifrar, entender o que se passa no coração daquele em que o esplendor do bem querer tentou se aninhar, no entanto, como o bem aventurado deixou suas janelas e suas portas muito bem trancadas,  não permitindo a entrada de Cupido, exatamente porque este ser não tem imaginação e, sem ela, não há labirintos a percorrer.

A mente do louco permite a fantasia, a alegria, as viagens; a mente do sábio permite a criação, a recriação, o aprender e o ensinar; a mente do inocente é tão límpida que tudo nela cabe, porém a mente daquele que não permite a chegada do amor, daquele que não se permite provar este sabor, às vezes doce, às vezes amargo, por medo ou por covardia, é uma mente tão vazia, tão gélida, tão desértica, tão sem imaginação, tão sem sensibilidade e sem qualquer sentimento, que só lhe resta a condenação imposta por ele mesmo, ao encarcerar-se numa prisão sem grades.

Se aparecer alguém que lhe dê um fio como o de Ariadne, que foi ofertado a Teseu, pelo amor que Ariadne nutria por ele, pode-se entrar ou sair de qualquer labirinto, pode-se voltar a ele, sonhar, brincar, se isolar ou partilhar, mas do deserto da mente, da prisão sem grades, ninguém jamais conseguiu ou conseguirá escapar.

 (Da obra COISAS DE MULHER  de Sônia Moura)

LABIRINTOS DA IMAGINAÇÃO

 

SOLIDÃO

 SOLIDÃO

SOLIDÃO (Autoria: Sônia Moura)

Solidão, solidão, solidão
Amargura que destempera a alma
Esmaga as vísceras
Dilacera o coração
E estraçalha a alegria
Incitando a dor
Zombando do amor

Solidão, solidão, solidão
Invasora que se une ao desencanto
Para deixar que a alma vadia
Se perca numa estrada vazia
Caminhando com a dor
Para depois se abandonar
Numa esquina fria

Solidão, solidão, solidão
Deixa seus sonhos sem rumo
Quando rouba do seu céu
A estrela guia
E ao tirar seu sangue
Das veias feridas
Abre espaço
Para a letargia

Solidão, solidão, solidão
Que nos transforma em farrapos
Nos priva dos abraços
E, contra a nossa vontade,
Por pura maldade,
Nos leva para seu covil
Para de nós zombar
E também confirmar
Que de esperança
Nos despiu

Solidão, solidão, solidão
Impõe sua aviltante presença,
Nos leva para sua ilha
Nos põe em desterro
Desonra nossos desejos
Nos levando ao desespero
Fomentando o destempero
Da ilusão

Solidão, solidão, solidão
Que nos faz chorar
Como a mãe que perdeu uma filha
Ou como alguém que se perdeu na trilha
Poeta perdido sem rima, sem rumo, ritmo
Sem mapa, sem afeto, sem laço,
Um corpo sem alma
Um desejo lasso

Solidão, solidão, solidão
Mistura o riso enigmático
Ao sorriso sarcástico
Coração enigmático
A nos atormentar
Só para que fique mais forte
A dor de não mais amar

(Da obra REFLEXOS SERENOS de Sônia Moura)

SOLIDÃO

NO HORIZONTE, A DOR E O SILÊNCIO

No horizonte, a dor e o silêncio

NO HORIZONTE, A DOR E O SILÊNCIO (por Sônia Moura)

 A minha dor mostra o que eu sou e quem eu sou, aponta para o alvo de como me sinto naquele momento e, também, de como a sinto, na verdade ela, por um tempo, é a minha voz sussurrada e, neste tempo, comanda minhas palavras e deixa fluir todos os golpes desferidos pelo que provocou a sua ira.

O meu silêncio fala por mim, não necessito de palavras para falar da minha dor, ela se estampa em outdoors, se espalha pela internet, se exibe nas vitrines das livrarias, passeia pelo shopping em busca de amparo, comove pelas telas dos cinemas e das tevês, se revela na sala de terapia e entope os ouvidos pacientes dos amigos.

 A minha dor associada ao meu silêncio faz a menina que mora em mim se apresentar e reviver o passado, o qual se espraia em meu presente, convidando-me a dar a mão ao meu destino, para que eu possa povoar-me de mim mesma.

O silêncio associado à minha dor revira o meu mundo, para confirmar a brevidade do tempo e a densidade dos nossos sentimentos, porque a minha dor não fala só por mim, ela fala também sobre o(s) outro(s), e ainda pode ser calada pelos atos do(s) outro(s).

 Dou a mão à minha dor, porque sinto que é hora de ela me guiar, enquanto meu olhar baila pelas linhas do horizonte e me faz entender que não posso me limitar à dor da dor, devo deixar este tempo de silêncio e dor viverem em mim, na certeza de que a tristeza, filha da dor, seguirá o seu caminho.

A dor me abraça e o silêncio me acarinha, preciso de um poema para me consolar; o silêncio entrega-me um livro que poeta sobre o amor e sobre o amar, mostrando que a dor tem seu limite, assim como a linha do horizonte, a dor sempre nos deixa entre um céu e um mar de emoções caudalosas.

Então, é preciso fazer do coração um mar aberto e deixar o olhar interior perder-se na vasta planície da calma, para poder sentir e compreender todo o palpitar curvo da dor, a fim de que a culminância do que me corrói a alma, seja visto em sua plenitude, sem escamoteações.

Por trás do horizonte, este ponto de fuga, há outras paisagens, outras paragens, outras gentes, as quais é preciso descobrir, reencontrar ou mesmo contemplar, por isto antes de expulsar a dor do paraíso dela, aplaudo-a freneticamente, lanço-lhe um olhar e um sorriso, ainda que tristonhos, por ter a certeza de que ela irá partir.

Aprendo que esta não será a última dor e nem este será o último silêncio, no entanto, o que importa mesmo é voltar meu olhar para o horizonte e compreender que, ao atravessar os tortuosos caminhos do bosque submerso da dor, aprenderei a renascer.

 (Do livro COISAS DE MULHER de Sônia Moura)

 No horizonte, a dor e o silêncio

“NADA COMO UM DIA APÓS O OUTRO”

 NADA COMO UM DIA APÓS O OUTRO

“NADA COMO UM DIA APÓS O OUTRO” (Autoria: Sônia Moura)

 Todos sabiam que ela era uma “SANTINHA DO PAU OCO” e, por ser “SEM EIRA NEM BEIRA”, colocou na cabeça que só iria se entregar a um homem endieirado, todos desacreditavam que ela conseguisse, afinal, ela não era lá “ESSA COCADA TODA”.

A santinha retrucava dizendo: “CADA COISA A SEU TEMPO”, ela era daquelas que seguia fielmente o que diz o ditado: “ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA TANTO BATE ATÉ QUE FURA”.

Assim, a moçoila prosseguia em sua busca do príncipe endieirado e, claro, encantado também. O tempo passava e todos riam dela e ela jurava se vingar de todos, o povo do local gritava: “CÃO QUE LADRA NÃO MORDE!”. Ela só dizia: – me aguardem!me aguardem! E continuava a sua busca, pois sabia que “ÁGUAS PARADAS NÃO MOVEM MOINHO”.

 Um belo dia, (em todo Conto de Fadas sempre tem: Um belo dia..), bom, mas como eu ia dizendo: um belo dia,  um grande navio aportou na cidade e como “QUEM VAI AO MAR AVIA-SE EM TERRA”, um belo jovem aviou-se e foi conhecer a cidade e, claro, procurar uma namoradinha afinal, tanto tempo no mar…

Foi aí que a fada madrinha deu lá a sua mãozinha e colocou o lindão e a não tão linda Amélia frente a frente e como “A OCASIÃO FAZ O LADRÃO”, a santinha vendo aquele bonitão dando sopa, aproximou- se dele e descobriu que o rapaz não era um “sem posses”, tinha lastro (ele e o navio), então, ela tratou de atracar-se a ele.

Não é que a estratégia deu certo?

E como os antigos diziam que “SE PESCA PEIXE DE OLHO NO GATO”, Amelinha cuidou de se precaver e não largou o seu peixão nem por um minuto.

O rapaz que se julgava muito esperto, pensou que iria desfrutar do que ela pudesse lhe oferecer e depois era só “METER SEBOS NAS CANELAS”.

Como em toda história de amor também tem sempre um apaixonado não correspondido, Jonas vivia suspirando por Amelinha que não queria saber, porque ele era pobre. Coitado, como não teria a menor chance com a moça, Jonas mudou-se para outra cidade, melhor dizendo, para capital e, por muito tempo, pouco se soube sobre ele..

O tempo continuava passando…

Dizem que “DEUS ESCREVE CERTO POR LINHAS TORTAS”, acho que isto é mesmo verdade, pois, o gostosão do Benito apaixonou-se e subiu ao altar com a “interesseira” Amelinha, não teve como escapar.

Tempos depois…  lá estava Amelinha lavando, passando e cozinhando para o falso rico… Coitada! A moça, literalmente, “CAIU DO CAVALO”, mas o lindo bebê que ela segurava nos braços ajudou-a a conformar-se pensando: “VÃO-SE OS ANÉIS E FICAM OS DEDOS”.

 E o tempo assistia a tudo e ria, ria…

Um belo dia (eu não disse?), Jonas chega à cidade natal, todo lindo, num carrão de fazer inveja a artista famoso, casadíssimo como uma linda mulher. (Geralmente, homem rico se casa com uma linda mulher, e Jonas não fugiu à regra).

Segurando o seu rio de lágrimas, da janela lateral do quarto de dormir, Amélia viu Jonas passar altaneiro em seu carrão, tentou recompor-se, mas, cá pra nós, ela preferia não ter visto aquela cena, pois, todos sabem que “OS OLHOS NÃO VEEM O CORAÇÃO NÃO SENTE”.

Enquanto isto, Jonas, fingindo que não via a mulher que sempre o desdenhou, pensava com os seus botões e um grande sorriso matreiro: “QUEM RI POR ÚLTIMO RI MELHOR”.

 (Do livro: Brincadeira de Criança de Sônia Moura)

NADA COMO UM DIA APÓS O OUTRO

 

TRÊS MOCINHAS ELEGANTES

 TRÊS MOCINHAS ELEGANTES

TRÊS MOCINHAS ELEGANTES  (Autoria: Sônia Moura)

  

Quero escrever um poema

Em que sorriam minhas parceiras

As três mocinhas elegantes

Fanopeia

Melopeia

Logopeia

Meninas estonteantes

Para alegrar a plateia

Com versos que explodem

No poema brindando

Paulo Leminsk

 

Para que eu possa beber

Dos sabores da poesia

Tragam-me uma taça

Feita de palavras malabaristas

Fantasiadas de artista

Misturando luxo e lixo

Num louco carnaval

Fazendo prosopopeia

Salve, Fanopeia!

 

 Quero versos musicais

Que brindem meus ouvidos

Com cânticos de tempos idos

Vindos do fundo da lua

Da boca dos enamorados

Da boca dos revoltados

Da boca dos renegados

Quero a melodia- poesia

Com gosto de minha terra

Gosto de café com pão

Saboreado num trenzinho

Transformado em poesia

Cheia de muitas ideias

No mais lindo visual

Salve, Melopeia!

 

Quero versos em que as ideias

Brinquem na roda do poema

E façam o mundo girar

 

E que no campo da ilusão

Os versos serpenteiem

E as metáforas se espalhem

Fazendo deles

Algo sem comparação

Sem nenhuma limitação

Que significados e significações

Deem o troco

E saiam da toca

Como misses vitoriosas

Com beijos e muitos acenos

E suas lágrimas virando riso

Com cabelos de Medeia

Salve, Logopeia!

 

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

 TRÊS MOCINHAS ELEGANTES

ESTAMPAS

 estampas

ESTAMPAS   (Autoria: Sônia Moura)

 

 Que importava o mundo lá fora, os medos, as dúvidas?

Que importava o perigo, a hora ou a despedida?

Estávamos plenos, livres e cativos

Todas as maravilhas do mundo eram nada

E uma coisa nova, diferente e intensamente milenar

Aconteceu ali na tarde–noite fria à beira mar

 

Os carinhos do homem batizaram o corpo da amada

Os carinhos da mulher sagraram o corpo do amado

Te convidei pra dançar a dança de acasalar

 

Sinto, ainda, o cheiro do macho ensandecido

Penetrando a fêmea com nome de mulher (Bom demais!)

Agora, neste momento em que escrevo,

Meu corpo estremece ao pensar no seu,

Recordo meus olhos felizes passeando

Sobre o seu corpo, sobre os seus olhos, sobre o seu sexo

Você fica tão lindo na hora do prazer

Misto de criança, homem, fera e desejo

 

Foi um poema escrito por dois corpos suados

Foram estampas pintadas por dois corpos melados

Seu corpo que bem me fez…

 

Lembro seu corpo quase a implorar

Nosso prazer, nossa alegria, nossa fantasia…

Lembro meu corpo buscando o seu e a desejar

Sua ternura, seus beijos e a sua fúria…

 

Cedemos o lugar ao prazer,

Expulsamos para longe nossos medos

E nos amamos até à exaustão

Depois do nosso gozo, no silêncio do quarto,

Nosso riso era uma canção, batia forte nosso coração…

 

Que importava o mundo àquela hora

Se éramos apenas homem e mulher?

 

    (Maio. Lembranças de um grande amor.)

(Da obra: ENTRE BEIJOS E VINHOS de SÔNIA MOURA)

estampas

COISAS DA VIDA

 Coisas da vida

COISAS DA VIDA  (Autoria: Sônia Moura)

A vida é doce

Mas pode ser salgada

Ou ainda pode ser dura

Igual à rapadura

 

O fogo é ardente

Mas pode ser frio

Quando esconde

Um amor vazio

 

O ar é tão leve

Mas pode pesar

Se o negócio for

O medo de amar

 

A terra é mãe boa

Mas pode ser má

Quando maltratamos a vida

Que ela nos dá

 

A água é mole

Mas também pode ser dura

Quando se torna o gelo

De quem bebe o vinho

De uma vida insegura

 

O dinheiro é bom

Mas pode ser um azar

Sempre que com ele

Se pensa o incomprável comprar

 

Vencer é muito legal

Mas também pode fazer mal

É só o vencedor

Se achar o maioral

 

A bebida celebra a alegria

Mas pode trazer a tristeza

Quando quem bebe exagera

Esquece a sutileza

E causa a si e ao mundo

Um barril de muita dor

 

Enfim…

 

A vida é mesmo uma beleza

Mas também é uma dureza

O bom é tirar dela o melhor

E viver intensamente

Com a alma, o corpo e a mente

O resto?

Deixa pra lá!

  

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

  COISAS DA VIDA

 

AMOR NA MADRUGADA

 AMOR NA MADRUGADA

AMOR NA MADRUGADA  (Autoria: Sônia Moura)

 

A madrugada vai alta e clara.

Em frente ao hotel, o mar toca sua música para a lua se deleitar; no quarto, o casal dorme o sono dos amantes, aquele em que ambos sonham o mesmo sonho.

Enlaçados, enredados e adoçados pelo amor, os dois sorriam durante o sonho e carícias aconteciam, porque ambos se reconheciam no abraço, no afago e no beijo.

Havia tanto amor naquele quarto e naquela cama que se sentia o transbordamento da paixão pelas ruas daquela pequena cidade, o mar não livrava o lugar de sofrer uma enchente, assim o doce do sumo do amor misturava-se ao salgado das águas do mar, enquanto o cheiro do desejo penetrava pelas frestas das janelas e despertava amores adormecidos ou aquecia aqueles que ainda estavam acordados.

A presença do eu e do tu, transformados em nós, dava aos amantes a aura de deuses invencíveis, intocáveis e irreprimíveis. Eles tudo podem, nada lhes é negado, nada lhes é tirado, nada lhes é proibido.

A madrugada era realmente mágica, impossível não acreditar em milagres, o que acontecia naquele quarto era a prova cabal de que algo muito mais forte existia, era o enigma da vida que ali se manifestava, eram os desvios das palavras não ditas que ali se apresentavam.

Quase ao fim da madrugada, o colar de contas azuis que a moça trazia ao pescoço, foi ao chão, reprisando vozes de poetas a derramar arte, quando o amado enlaça mais e mais a sua amada e sussurra vagarosamente: – SOU LOUCO POR TI, PEQUENINA.

Esta declaração de puro amor leva a lua da madrugada a gemer baixinho e crava no peito e nos ouvidos da moça um punhal de rosas que lhe marca a alma e as lembranças, para sempre!

 

(Do livro: CONTOS e CONTAS de SÔNIA MOURA)

 AMOR NA MADRUGADA

A BELEZA VOOU COM O VENTO

 SABER e PODER – I

A BELEZA VOOU COM O VENTO  (Autoria: Sônia Moura)

 

Eram todas lindas, muito lindas

Sentadas na roda gigante

Com seus cabelos ao vento

Espetáculo mirabolante!

 

A roda começou a girar

Lentamente, mansamente

E as lindas moças sentadas

Olhavam um sol sorridente

O giro foi aumentando

Os cabelos arrepiando

E o sol pálido ficando

Tudo estava mudando

 

– Alguém pare esta roda,

Gritou a primeira voz

– Isto mesmo, gritaram todas

Tenham pena de nós!

 

Rolando sua engrenagem

A roda feroz prosseguia

Fazendo um barulho danado

Enquanto ria, ria, ria…

 

Assustadas, descabeladas

Com as faces desbotadas

As lindas feias estavam

Perderam a maquilagem

Perderam toda coragem

Perderam o brilho e o fulgor

Seus rostos outrora lindos

Agora eram só pavor

E, de repente,

Uma delas foi ao chão

Um tombo feio que só,

E a bela descabelada

Chorava que dava dó

 

Mas qual!

Tudo não passou de um sonho

Daquela que achava que ser bela

Era a maior das virtudes

E a melhor coisa do mundo

Mas, aquele sonho mostrou a ela

Que a beleza como o vento

Se desfaz em um segundo.           

 

  (Do livro: Brincadeira de Rimar de Sônia Moura)