POR UM TRIZ

Por um triz,

se encontra alguém para amar e ser amado,

ou se perde alguém que tanto amamos, pois

só o destino resolve quem será o eleito e o desejado

Por um triz,

perde-se o avião ou o bonde da história

e o que seria alegria ou glória

passa a ser tristeza ou melancolia

O quem sabe será uma baita alegria?

Por um triz,

o rumo da vida vai de fio a pavio,

O amor aparece, ou não aparece ou, então, desaparece

deixando você a gritar na proa de um navio

o quanto a vida é boa

ou levará você a caminhar pelo fio da navalha,

a gritar que sem amor, não há nada que valha

Por um triz,

a fera perde a presa que sai saltitante e ilesa,

enquanto a fera de estômago vazio

maldiz a natureza, com certeza

Por um triz,

Em uma festa, em uma rua ou em uma ilha

acontece um olhar furtivo,

O seu o corpo estremece, a face enrubesce

e tudo acontece em um piscar de olhos,

A vida se transforma

O amor tem pressa

Não o deixe escapar

Tudo está por um triz…

 

 

 

 

 

 

 

Manhãs

Nas manhãs cinzentas de um dia sem luz 

Vejo imagens lindas no céu apagado

Sinto a beleza do dia

Sinto as gotas findas do luar

Vejo sol timidamente surgir 

Então o mar vem docemente

Meus pés beijar

Esta na hora de a vida acordar

(por Sônia Moura)

VOZES

VOZES

(A primeira voz)

              I

Nasci para a vida ontem

Eu já nem sei mesmo quanto tempo faz

Caminho por estradas tortuosas

Por vias sinuosas

Mas tenho a certeza de que

Um dia eu chego lá

            II

A natureza me trata com carinho

A poesia me embala o canto

Da escrita roubo um doce beijo

Do canto dos pássaros sorvo a beleza

E vejo em cada flor um novo encanto

             III

Quem dera o doce bem-te-vi

Dissesse a mim onde tu estás

E uma fada surgisse em minha caminhada

Trouxesse a certeza de um novo encontro

E por uma lente de contato azul

Eu visse a tua face em um espelho

Que me falasse de ti…

  

(A segunda voz|)     

                   I

 

Acorda, menina, desta fantasia

Tens a tua frente a realidade luzidia

Janela aberta para todos os mistérios

Tirando-te desta embriaguez

De sonhares e desejares

O que não existe mais

                II

Não vês que teus sonhos

Fazem de teus delírios um chiste?

Acorda, o dia já desperta,

E a vida não deve tardar

Acorda, mude teus planos,

Aceita, pois é hora de recomeçar

 

              III

Tu tens um mundo

A esperar por ti

Cuidado que ele pode se cansar

Mas ainda é tempo

De alcançares novas dimensões do amor

 

 

 

 

IMPROVISO

Caminhava pisando sobre os passos dele.

Anulada

Não deixava suas marcas,

Enquanto lágrimas furtivas

manchavam a máscara da face.

Cansada…

 

Até que um dia,

no mundo do improviso

sem aviso,

de uma só vez,

máscaras, marcas e dores

cansaram-se e

veio a libertação,

foi quando

todo o sofrimento dela se desfez

 

A partir de então,

o sofrimento dele teve a sua vez

 

(Da obra: TEMPO DE ESPERA e MÁSCARAS, de Sônia Moura)

 

ANULAÇÃO

Procurei por você

em todos os cantos da solidão,

cantei cantos falando de saudade,

escrevi poemas exaltando o regressar

mas você não veio…

 

Enrolei-me em lençóis de seda,

soltei um gemido de amor e de saudade

que ecoou, ecoou, ecoou…

mas acho que você não escutou…

 

No meio da noite,

a solidão me acordou,

e em um sonho estranho

me levou até um labirinto azul;

perdi-me na trilha,

não soube voltar,

e, ainda assim, você não voltou…

 

Cultivei palavras com gosto de hortelã,

molhei minha boca com gotas de romã,

enxuguei dos olhos lágrimas e quimeras

malhei o corpo, chorei a alma

me desgastei

e você não chegou…

 

Depois,

morta a esperança,

me recompus

e me impus

um novo viver.

Alijei fantasmas,

queimei lembranças

e me desfiz de você

 

*Da obra: Tempos de Espera e de Máscaras

 

 

FLOR MATREIRA

Eram muitos olhos luzindo,

faróis apreensivos,

todos lançados

a uma só direção.

Todos os clarões

jogavam-se sobre a flor

ali, desmaiada,

a implorar

a chama de todo olhar…

Linda, pálida e com um sorriso a aflorar,

pétalas ao vento a bailar,

era uma pintura e o mundo seu altar.

O jardineiro dela se aproxima

coloca-a nos braços e

lança sobre ela um doce olhar.

Então…

Ela renasce, solta um breve suspirar

Sorri para ele e volta a sonhar…

 

 

 

 

 

DEVANEIO

Na minha memória, incrustado está o seu retrato

Que me sorri como outrora, riso de amor, de cumplicidade…

 

Atarantada, trago esta imagem aqui para fora

Jogo-a nesta tela em branco e nela nasce uma pálida lembrança

Do que já fomos

 

Eu lhe dou cores e vida, então a imagem revive na pintura

A brotar da semente de uma saudade solitária

 

Impossível tocar-lhe a face revivida

Impossível beijar-te a boca

Embora queira muito sentir seus beijos,

Embora queira a sua presença…

 

Digo a mim mesma,

– Acorda, hão de chamar-te louca

É um retrato apenas, nada mais

Beijá-lo o passado não lhe traz

 

Reluto, reflito, acordo da minha fantasia

Sei apenas que faço o que é possível:

 

– Devaneio

LUZES

O sol caminha pelos corpos

indecentemente

libertino,

doura peles,

cria imagens

em olhos invisíveis,

desperta sonhos,

veste fantasias,

faz-se poeta

e escreve um poema,

beija corpos deitados na areia,

brinca com as ondas do mar,

depois, vai-se embora,

porque outra luz está por chegar

 

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO)