SIM & NÃO

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Travaram  meus sentimentos

Trancaram o meu coração

Tiraram o meu passe livre

Trocaram meu sim por não

 

Meus dias vivem em trevas

Machucaram a minha paixão

Mandaram meu sonho embora

Mudaram meu sim pra não

 

Escrevendo estas trovas

Acalmo a desilusão

Retirei travas da alma

Entendi o sim e o não

 

(Da obra: COISAS DE ADÃO E EVA, de Sônia Moura)

 

AMOR PELA JANELA

AMOR PELA JANELA [Sônia Moura]

 

Sem tirar os olhos dela

Ele na janela vivia

Dia e noite

Noite e dia

 

Sem tirar os olhos dele

Ela de lá não saía

Dia e noite

Noite e dia

 

A lua pelo céu corria

O sol no céu luzia

Dia e noite

Noite e dia

 

A paixão tem seus mistérios…

 

Mas o que ninguém sabia

É que o boneco – soldado

E a boneca – bailarina

Mesmo presos na janela

Dia e noite

Noite e dia

Se amavam a distância

Dia e noite

Noite e dia

 

Que a paixão tem seus mistérios

Disto os dois já sabiam

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DITIRAMBO

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DITIRAMBO (por Sônia Moura)

 

Esse canto é pra você, amigo Baco,

Pois você é dos meus,

Menino do balacobaco!

 

Alguns querem lhe condenar

Mas não sabem do seu passado

Sua família era de amargar,

Era tanta confusão

Que nas coxas do papai Zeus,

Você foi parar

E lá, acabou de se criar

 

Mesmo assim seguiu em frente

Rindo do falatório das gentes

Muito vinho, muito riso

Mas nada de muito siso

 

Na Grécia foi Dionísio

E teve outros nomes mais

Sua vida era um folguedo

Coisa séria era brinquedo,

Transas a todo vapor

Com alma de menino viril

Ás vezes, uma menina gentil

Ainda assim

Dizem que você, amigo Baco,

Não tinha nada de fraco

Era espada, era demais!

 

Festas, danças, bebedeiras

Eram muitas bacanais

Nas Dionísias urbanas

Fossem gregas ou romanas

Eram flautas a soar,

Dançarinas de se admirar

Com máscaras a coreografar

A alegria era certa

A orgia era um fato

Dizem, amigo Baco,

Que daí nasceu o teatro

 

Agora, falando sério,

Sério?

Baco está a gargalhar…

 

Levar a vida na boa

Deixar de sofrer à toa

Viver a vida de fato

Com alegria e sem recato

Baco, querido Baco,

Não é mesmo o seu retrato?

 

(Da obra: Coisas de Adão e Eva, de Sonia Moura)

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À  MINHA TERRA, AO MEU LAR

Tu  ouviste, ó Rio de Janeiro,

O meu primeiro chorar

Despontando para o teu sol

Para o teu sal

Para o teu mar

Temperada com o dendê de um pai baiano

E como sobremesa,

um bom doce de uma mãe mineira

No mês do carnaval

Cheguei ao teu colo, meu Rio de Janeiro,

Não podia ser em outro lugar

Se ontem ouviste o meu chorar

Hoje o meu riso é todo teu

E também o meu cantar

 

 

 

BOCAS

 

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Bocas  (Sônia Moura)

Qualquer beijo é bom (menos o beijo falso), mas beijo bom mesmo é o beijo na boca, esse é uma delícia. Se você tem uma boca para beijar, preste atenção:

Para evitar ser pego com a boca na botija e espantar o olho gordo que queira atrapalhar as delícias desse beijo, o melhor é fazer boca de siri ou, então, só comentar à boca pequena, senão o assunto se espalha de boca em boca.   

Prepare-se, sempre vai ter alguém falando à meia boca: -Gostaria de poder beijar assim, então, cala-te boca, nada de botar a boca no mundo, porque, tenha a certeza, se a notícia se espalhar, vai ter um mundo gente de boca aberta e um outro tanto com água na boca.

Portanto, nada de botar a boca no trombone, nada de alardear aos quatro ventos, não banque o boca grande, melhor se resguardar para não cair na boca do povo.

Dirão alguns: – Com certeza, ela caiu na boca do lobo, não ligue, vista a sua calça boca de sino (voltou à moda, sabia?) e não pare na boca do túnel, pois o fantástico é atravessá-lo, nada de ficar indecisa arriscando-se a entrar em um tremendo bate boca, você sabe, há muito boca suja por aí, então para que discutir?

 Pense só nos beijos, pense na língua roçando os lábios, acariciando o céu da boca, torne-se criança e brinque de “bento que bento é o frade, frade, na boca do forno, forno, tirai um bolo, bolo, tudo o que seu mestre mandar, faremos tudo.” Então,  o senhor mestre ordena: – vá conhecer o país das quimeras, não sabe onde é? Pergunte, pois quem tem boca vai a Roma, e se chegar lá na boca da noite, entregue-se às maravilhas de amar e, de novo, aproveite, porque beijo bom mesmo é o beijo na boca.

[Da obra: Coisas de Adão e Eva, de Sônia Moura]

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ORAÇÃO ÀS AVESSAS

 ORAÇÃO ÀS AVESSAS

ORAÇÃO ÀS AVESSAS (por SÔNIA MOURA)

Palavras pesam
E podem ferir um coração
Não quero te deixar
E nem quero ficar
Eis o mistério de amar

De dentro do baú empoeirado
Saem palavras sangradas
Rolam correntes macabras
Correm rios desesperados
Descem lágrimas em aluvião
E eu, perdida, atordoada,
Procuro meu rosto na escuridão

Quero deixar-te ou não?
Interromper nossa aventura
Esquecer as nossas juras
Impossível
Sei que eu juro deixar-te
E te desconjuro por esse gostar
Enquanto tu, cinicamente, juras me amar

Maldigo o dia que te conheci
Bendigo a hora de te encontrar
Regozijo-me dos beijos que te dei
Mas, de uma coisa eu acho que sei:
Tu não és digno
De estar em minha morada
E nem de ter-me como sua amada

Dessa masmorra fria
Na qual doidamente me encerrei
Olho-te através das grades
Dessa prisão horrenda
Não porque me prendas

Prendo-me, arrependo-me e exagero
Simplesmente, porque te quero!

(Da obra: Súbitas Presenças, de Sônia Moura)

ORAÇÃO ÀS AVESSAS

(IR)REAL

(IR)REAL

(IR)REAL (Autoria: Sônia Moura)

Numa estrada deserta, encontrei um mascarado. Assustei-me, não por medo, assustei-me pelo deserto da estrada e pela incompatibilidade da data e da máscara. Era julho e não era carnaval.
Olhando-me por trás de sua máscara dourada como o sol do meio-dia, a voz saiu-lhe calma e doce como o sumo de uma romã madura a escorrer pela boca, a adoçar os lábios, a enternecer a língua.
– Aonde vais? Fica comigo.
Como estávamos só nós dois e o deserto da estrada, claro que o mascarado dirigia-se a mim e prontamente respondi:
– Vou em busca de todos os meus sonhos!
Imediatamente ele retrucou:
– Irás se arriscar em um porto qualquer? Os portos dos sonhos são tão nebulosos ou seriam diáfanos?
– Não sei, disse eu, mas quero ir para o paraíso, é lá que vivem meus sonhos.
– Ah! por que ir para tão longe e me deixar aqui, sozinho a contigo sonhar…
– Quem é você?
– Sou o teu sonho, sou tua estrela, teu amor…
– Tira a máscara, por favor, por favor!
Ele começou a cantar uma canção que falava de beijos trocados num quarto de motel, de luzes e espelhos a multiplicar o par de amantes, das juras de amor a nos segurar, do sexo e dos abraços que burlavam qualquer forma de desencanto.
Terminada a canção, ele me falou:
– É por isto que eu canto.
– Quem é você, de onde vem este seu encanto?
– Dos teus sonhos, ele disse.
– Dos meus sonhos? Mas estou indo ao encontro deles.
– Para quê, se podes embarcar no navio dos sonhos, agora? Disse o mascarado, deixando o sorriso ultrapassar a máscara.
– Que navio? Não estamos no mar.
Mais uma vez, o sorriso pulou daquele rosto oculto, fazendo que pensasse ter visto um rosto sem máscara.
– Sabes que eu te amo muito, muito, muito. Por que não acreditas em mim?
Aturdida e perdida no meio da estrada deserta, no meio do sonho deserto, pela primeira vez, vejo flores ladeando a estrada, flores amarelas, como a máscara e como o sol. Só o sorriso que saltava da máscara era cor da prata, brilhava mais que a luz daquele olhar suplicante.
– Meu Deus, quem é este homem? Por que de mim se esconde? Pensei.
– Tenho tanta saudade de ti, Pequenina.
– Oh! Deus, será que é você, aquele a quem procuro a tanto tempo…
– Podes vir, meu anjo, eu sempre serei teu, só teu, de mais ninguém. Naveguei por tantos mares, conheci portos e muitas mulheres, mas nunca te esqueci. Finalmente te encontro no meio deste nada, logo você que para mim é tudo…
Uma chuva fina começou a molhar nossos rostos, nossos corpos e nossos sonhos. Agora eram a flores que sorriam.
A chuva aumentou, a máscara foi-se diluindo, diluindo e aquele rosto antigo foi-se mostrando lentamente a mim, como uma flor a desabrochar no meio do deserto.
Vi aquele rosto tão saudoso, entreguei-me a seus abraços, esqueci-me da vida e só aí percebi que eu estava a sonhar…
Mas consolei-me porque mesmo sendo apenas um sonho, algo irreal, a súbita presença daquele mascarado, agora tão real para mim, deu-me a certeza de que, em toda a minha vida, nunca mais iria sentir um amor tão real.

(Do livro: Súbitas Presenças de SÔNIA MOURA)

(IR)REAL

INCÓGNITA

 INCÓGNITA

INCÓGNITA (Sônia Moura)

A noite passou correndo por mim
Enquanto eu, aconchegada,
Em braços e carinho
Em meio às dobras quentes
De um lençol em desalinho
Vivi, mais uma vez,
A ambígua ilusão do amor
Menino levado que
Sempre quebra a ordem lógica
De qualquer viver

Foi então que a incógnita do amor,
Absoluta, impávida,
Galhardamente postada a um canto
A entoar seus cantos,
A destilar encantos,
Mais uma vez, zombeteiramente,
Se pôs a se rir de mim

(Da obra: COISAS DE ADÃO E EVA, de Sônia Moura)