Tecendo o amor

Li essa afirmativa em algum lugar: A quantidade de fios num tecido é determinada pela soma dos fios no sentido vertical (urdume) e horizontal (trama), quanto maior a quantidade de fios num tecido, mais delicado e suave ao toque ele será, pois os fios serão mais finos e delicados.

E não será assim o amor, os fios precisam se cruzar em harmonia, suavidade, delicadeza. Simplesmente, assim: o urdume do amor com a trama da vontade converte-se em alegria e felicidade.

A FACE OCULTA

 

Na roda da vida, há linhas e estradas, estas são forças que se apresentam a nós e nos convidam a seguir por elas.

Embora aparentemente embaralhadas, há nelas uma ordem e movimentos misteriosos que permitem a ida e, na maioria das vezes, o regresso do indivíduo.

Esta ordem louca dentro da desordem, este labirinto invisível, trânsito entre muitos planos, converte-se em espaços expressivos fabulosos, os quais compõem as histórias de nossas vidas.

Luzes anônimas apontam caminhos, por vezes, seu brilho é tão intenso que quase nos cega, no entanto, insistimos em segui-las, este é o jogo do destino a brincar com nossa ilusão, aproximando-nos e nos afastando realidades ou de fantasias, fazendo-nos crer que o dominamos.

Ao trafegarmos por estes caminhos, vozes misteriosas nos conduzem (ou nos induzem) a passagens secretas ou a palcos com cortinas escancaradas e, de repente, dependendo do trilha seguida, nos vemos em total solidão ou somos postos ante uma plateia a exigir de nós luzes, cores, sombras, falas e representações, papéis que nem sempre estamos preparados para desempenhar, mas é simples assim: ainda que pensemos que somos nós os condutores do nosso veículo terreno, nosso destino é conduzido à revelia de nossos desejos, pois, no trajeto da vida, nossa vontade será posta em total nudez.

Palavras, imagens, verdades e mentiras se juntam para confundir ainda mais os nossos pensamentos, é como se fosse um jogo de espelhos por meio do qual nossa vida se revela em dimensões diversas, a fim de que façamos reconhecimentos ou descobertas, diante das quais nos atrapalhamos, e assim, ficamos presos na armadilha do destino e desta não há como fugir.

A bem da verdade, estamos sempre a renascer em múltiplas metamorfoses reveladas lentamente ao longo da vida, e, ainda que tudo esteja fora do lugar, ainda que as ambiguidades do destino tracem caminhos paralelos, indubitavelmente, chegaremos ao ponto final.

Assim sendo, desde sempre, somos entregues nas mãos das Moiras que manipulam a Roda da Fortuna, tecendo nossos destinos, fazendo reaparecer no palco da vida sempre novos espetáculos com a mesmas feições, refletindo apenas a imagem fundamental da vida: a face oculta da solidão do ser.

 

ACALANTO

ACALANTO

Sossega teu sonho em meu regaço

Que ainda há tempo para o amor

– É tarde, dizes assim

Meio sonolento,

Peito cheio de dor,

Alma ao relento…

Deixa nascer em ti

Um novo rebento

Acorda teu dia

Enrosca tua esperança

E teu cansaço

Em minha alma ardente

Esquece o mundo lá fora

Ele mente…

O amor e os amantes

Não são almas carentes

Volta a sonhar

Pendura teu desânimo

Nas asas do vento

Deixa renascer tua alma

O mundo é voraz

Mas a vida pede calma

Ama, nada mais terno

Para revigorar a esperança

Vive que viver em amor

Não cansa

SIM & NÃO

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Travaram  meus sentimentos

Trancaram o meu coração

Tiraram o meu passe livre

Trocaram meu sim por não

 

Meus dias vivem em trevas

Machucaram a minha paixão

Mandaram meu sonho embora

Mudaram meu sim pra não

 

Escrevendo estas trovas

Acalmo a desilusão

Retirei travas da alma

Entendi o sim e o não

 

(Da obra: COISAS DE ADÃO E EVA, de Sônia Moura)

 

AMOR PELA JANELA

AMOR PELA JANELA [Sônia Moura]

 

Sem tirar os olhos dela

Ele na janela vivia

Dia e noite

Noite e dia

 

Sem tirar os olhos dele

Ela de lá não saía

Dia e noite

Noite e dia

 

A lua pelo céu corria

O sol no céu luzia

Dia e noite

Noite e dia

 

A paixão tem seus mistérios…

 

Mas o que ninguém sabia

É que o boneco – soldado

E a boneca – bailarina

Mesmo presos na janela

Dia e noite

Noite e dia

Se amavam a distância

Dia e noite

Noite e dia

 

Que a paixão tem seus mistérios

Disto os dois já sabiam

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DITIRAMBO

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DITIRAMBO (por Sônia Moura)

 

Esse canto é pra você, amigo Baco,

Pois você é dos meus,

Menino do balacobaco!

 

Alguns querem lhe condenar

Mas não sabem do seu passado

Sua família era de amargar,

Era tanta confusão

Que nas coxas do papai Zeus,

Você foi parar

E lá, acabou de se criar

 

Mesmo assim seguiu em frente

Rindo do falatório das gentes

Muito vinho, muito riso

Mas nada de muito siso

 

Na Grécia foi Dionísio

E teve outros nomes mais

Sua vida era um folguedo

Coisa séria era brinquedo,

Transas a todo vapor

Com alma de menino viril

Ás vezes, uma menina gentil

Ainda assim

Dizem que você, amigo Baco,

Não tinha nada de fraco

Era espada, era demais!

 

Festas, danças, bebedeiras

Eram muitas bacanais

Nas Dionísias urbanas

Fossem gregas ou romanas

Eram flautas a soar,

Dançarinas de se admirar

Com máscaras a coreografar

A alegria era certa

A orgia era um fato

Dizem, amigo Baco,

Que daí nasceu o teatro

 

Agora, falando sério,

Sério?

Baco está a gargalhar…

 

Levar a vida na boa

Deixar de sofrer à toa

Viver a vida de fato

Com alegria e sem recato

Baco, querido Baco,

Não é mesmo o seu retrato?

 

(Da obra: Coisas de Adão e Eva, de Sonia Moura)

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À  MINHA TERRA, AO MEU LAR

Tu  ouviste, ó Rio de Janeiro,

O meu primeiro chorar

Despontando para o teu sol

Para o teu sal

Para o teu mar

Temperada com o dendê de um pai baiano

E como sobremesa,

um bom doce de uma mãe mineira

No mês do carnaval

Cheguei ao teu colo, meu Rio de Janeiro,

Não podia ser em outro lugar

Se ontem ouviste o meu chorar

Hoje o meu riso é todo teu

E também o meu cantar

 

 

 

BOCAS

 

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Bocas  (Sônia Moura)

Qualquer beijo é bom (menos o beijo falso), mas beijo bom mesmo é o beijo na boca, esse é uma delícia. Se você tem uma boca para beijar, preste atenção:

Para evitar ser pego com a boca na botija e espantar o olho gordo que queira atrapalhar as delícias desse beijo, o melhor é fazer boca de siri ou, então, só comentar à boca pequena, senão o assunto se espalha de boca em boca.   

Prepare-se, sempre vai ter alguém falando à meia boca: -Gostaria de poder beijar assim, então, cala-te boca, nada de botar a boca no mundo, porque, tenha a certeza, se a notícia se espalhar, vai ter um mundo gente de boca aberta e um outro tanto com água na boca.

Portanto, nada de botar a boca no trombone, nada de alardear aos quatro ventos, não banque o boca grande, melhor se resguardar para não cair na boca do povo.

Dirão alguns: – Com certeza, ela caiu na boca do lobo, não ligue, vista a sua calça boca de sino (voltou à moda, sabia?) e não pare na boca do túnel, pois o fantástico é atravessá-lo, nada de ficar indecisa arriscando-se a entrar em um tremendo bate boca, você sabe, há muito boca suja por aí, então para que discutir?

 Pense só nos beijos, pense na língua roçando os lábios, acariciando o céu da boca, torne-se criança e brinque de “bento que bento é o frade, frade, na boca do forno, forno, tirai um bolo, bolo, tudo o que seu mestre mandar, faremos tudo.” Então,  o senhor mestre ordena: – vá conhecer o país das quimeras, não sabe onde é? Pergunte, pois quem tem boca vai a Roma, e se chegar lá na boca da noite, entregue-se às maravilhas de amar e, de novo, aproveite, porque beijo bom mesmo é o beijo na boca.

[Da obra: Coisas de Adão e Eva, de Sônia Moura]

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