Chovia no Rio de Janeiro, mas o calor continuava e ela seguia apressadamente.

A passos largos e rápidos, Mariana, com o seu guarda-chuva vermelho, seguia em busca sabe-se lá de quê.

Numa esquina de Copacabana, Galbério, o irrecuperável conquistador, viu a moça, admirou seu andar apressado e o guarda-chuva vermelho, como a paixão. Galbério teve uma vontade imensa de conquistá-la, mas ela andava tão depressa…

Ele não resistiu e também não desistiu. Foi atrás.

Mariana estava com pressa e não queria conversa com estranhos.

Ele insistiu. Ela resistiu.

Agora eram quatro pés a pisarem firme, forte e apressados pelas ruas de Copacabana. O barulho dos passos naõ eram ouvidos, pois o burburinho das ruas não permitia, mas ambos sabiam que seus passos ecoavam no ar. Ambos sabiam que precisavam insistir e resistir.

O guarda-chuva vermelho, do alto de sua posição, via e ouvia tudo e sorria.

Assim seguiram por boa parte da Nossa Senhora de Copacabana. Lado a Lado, mas tão distantes quanto Rio de Janeiro e Nova York.

Como Nova York entra nesta história? Já explico.

Mariana morava em Nova York, viera ao Rio para visitar parentes, não iria ficar muitos dias, então precisava se apressar para dar conta de todos os compromissos, e aquele homem a segui-la, numa hora tão inadequada…

Chegou ao seu destino e Galbério junto.

Ele insistia e ela resistia.

– Posso lhe falar, só um minuto. Galbério não queria deixar escapar esta linda quase presa.

Soltando um suspiro enfadonho, Mariana disse: – Pode falar, mas seja rápido.

– Quero muito conhecer você.

– Não tenho tempo.

-Posso visitá-la em sua residência. Claro não vou entrar, mas posso buscá-la para um jantar. O que acha?

Mariana fechou o guarda-chuva. Olhou fixamente para o homem de cabelos grisalhos, sorriu um sorriso matreiro e disse:

– Tudo bem, podemos jantar sim.

Tirou da bolsa um cartão envolto por um envelope vermelho. Mais uma vez, riu o seu riso zombeteiro e o entregou ao homem. Este disse gentilmente e com muito galanteio: – Às ordens, Galbério. Sua Graça? – Mariana.

Antes que ele abrisse o envelope para conferir o endereço, ela embrenhou-se pelo prédio, tal qual uma presa fugindo de seu predador  e sumiu.

Em Nova York, o guarda-chuva vermelho ficava num canto  em um local apropriado e bem na entrada da sala.

Meses depois, alguém bate a sua porta, o guarda chuva suspira, já sabe quem é.

Era Galbério que viera buscá-la para jantar.

Ele não resistiu e ela também não.

Escrito por

Sônia Moura

SÔNIA MOURA é Doutora em Letras (Literatura Comparada), Mestra em Letras (Literatura Brasileira), Pesquisadora na área da Simbologia, Professora de Língua Portuguesa e de Literatura Brasileira e Produtora Cultural.

No centro de suas atividades, está sua parceira inseparável: a arte, coordenando suas múltiplas vozes e os misteriosos momentos da sua criação.