SEXO DO BOM

Fazer sexo é fácil,

Se for apenas para a procriação

 

Mas o sexo prazeroso

Aquele que é bem gostoso

Depende de toques e retoques

E nada de não me toques

Só não vale levar

A tristeza a reboque

 

É preciso ter tesão,

É preciso ter paixão,

É preciso entregar alma,

E o corpo, com total devoção,

Pois se não houver nada disto

Não haverá emoção

 

Sexo só é gostoso

Quando o egoísmo

Fica bem longe e

A dor logo se esconde,

Para fazer renascer

Eros abraçado a Tanatos

Deixando quem faz amor

Entre o viver e o morrer

Sendo domado e selvagem

A gritar e a gemer

Somente por puro prazer

Praticar sexo de verdade

É gesto de generosidade

Com uma boa dose

Do que chamam

Libertinagem

 

 

LABIRINTOS

LABIRINTOS (por Sônia Moura)

 

Quando os homens que carregaram meus móveis pesados

Saíram lá de casa

As marcas de seus sapatos enlameados

E de seus passos apressados

Marcaram fortemente o meu chão

Criando labirintos na minha imaginação

 

Quando o homem que eu amei por tanto tempo

Saiu da minha vida

Todas as nossas lembranças foram embalsamadas

E as marcas de todos os nossos risos

Fantasiaram – se de alegrias esperançosas

E ainda hoje formam labirintos na minha imaginação

[Da obra: Coisas de Adão e Eva]

In vino veritas

 

Narrando uma história incerta

Para validar uma certa história

Ou quem sabe, uma história certa,

O poeta reduplica o real

Não separa o bem do mal

Bota tudo no mesmo balaio

Dá destaque à fantasia

Porque a fantasia compensa

O abandono e o tédio

E não há outro remédio

A não ser fantasiar

E deixar a vida passar

Com astúcia e leveza.

Assim, este paralisa o tempo

Funde o objeto e o sujeito

Num verso ou numa estrofe

Eterniza o não vivido

Para que no mesmo poema

Brinquem a leveza dos tempos

E a leveza da festa

Cria imagens misturadas

Pastiches de muitos tempos

Pastiches de muitos eventos

E de sujeitos divididos

Tudo transformado em mito

Convida o sonho e a fantasia

Para alagarem o real

Pois ele sabe muito bem

Que a vida é um grande talvez

E que sem margem não há limites

Por isso, andar por extremos

Pode ser tão perigoso

Ainda assim ele se arrisca

Segue em frente, sai da pista,

Cambaleia, se recompõe,

Cultiva em  seu viveiro

Palavras e desafios

E, para não dar na vista,

Usa muita alegoria

Mistura tristeza e alegria

Faz da poesia

Seu momento de orgia

E, juntamente, com o deus Baco

Propaga aos quatro cantos

Que a palavra é seu encanto

E que este é o seu “barato”

[Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura]

 

 

DÚVIDAS com CERTEZA

O amor me pegou de jeito

Não há como recuar

Atravesso esta ponte

Ou me jogo neste mar?

 

Não sei mesmo o que fazer

Enfrento esta tempestade

Abro cortinas para o sol entrar

Ou deixo a vida me levar?

 

Afasto a nuvem pesada

Afasto o medo de amar

Acordo o silêncio antigo

Ou será melhor me calar?

 

Dinamito a incerteza

E me lanço no vazio

Agarrada a doces lembranças

Ou desafio um rio bravio?

 

Abraço-me com o silêncio

Coloco  lágrimas ao vento

Grito palavras bem raras

Ou entro para um convento?

 

Não sei mesmo o que fazer

Se solto a alma no espaço

E arrisco a me perder ou

Se me escondo na caverna

E me arrisco a não viver

 

Preciso me decidir

 

Já sei o que vou fazer

Vou me espalhar neste amor

Vou fazer um carnaval

Vou me embolar com o prazer

Quero uma ilha deserta

Não para me acovardar

Mas para viver sem “não pode”

Fazer o que der na telha

Entregar o corpo e a alma

Abandonando qualquer dúvida

Adoto toda a certeza

E vou pelo mundo a fora

Praticando o verbo amar

(Da obra: COISAS DE ADÃO & EVA, de SÔNIA MOURA)

 

 

CONVERSA INTERIOR

 

riacho1

-Uai, moço, aqui num tem nada não,

Só esse riozinho,

Esse pomar fresquinho,

Esses lindos passarinhos,

Esses jardins floridos,

Esse céu tão colorido,

Esse sossego de amigo

 

– Uai, moço, acho que este é que é

Aquele lugar tão “bão”,

Pra qualquer um viver

Basta apenas nós querer

E ele assim vai ser

E, então, no seu dizer

-O que é um lugar “bão”?

 

 

AS BRUXAS ESTÃO SOLTAS (por Sônia Moura)

bruxinhasHoje é dia das Bruxas, aquelas mulheres sábias, independentes e fortes. Muitas foram queimadas em fogueiras, outras sobreviveram à barbárie religiosa e machista. Por que tanto medo dessas mulheres “sobreviventes” aquelas que não morriam aos 20 ou, no máximo, aos 30 anos? Porque as mais velhas eram sempre as preferidas dos inquisidores e as mais novas eram acusadas de bruxaria se não aceitassem “a cantada” dos inescrupulosos machistas? Por que tanto receio de que o conhecimento alquímico dessas mulheres pudesse ameaçar os cânones religiosos? Por que torná-las horrendas, desfiguradas, desdentadas, com cabelos arrepiados,imagem cruelmente construída? Por que à palavra bruxa foram atribuídos significados pejorativos, cruéis? Por que, geralmente, as mais velhas, as muito pobres eram as preferidas à condenação por bruxaria? Se bem que, mulher rica que ficasse viúva ou órfã poderia ser acusada de bruxaria e, lógico, alguém ficaria com toda sua fortuna. Por quê?

A resposta é única: é o PODER das mulheres que assustou e assusta a mentes tacanhas, por esta razão, até os dias de hoje, muitos ainda insistem e nos colocar em lugares que não são nossos, por isso, alguns se sentem os donos do mundo e das mulheres também. Até hoje se mata a mulher, não em uma fogueira, mas a tiros, facadas, enforcamentos, apenas porque ela já não quer mais aquele homem ou porque ele acha que está sendo traído ou ainda que esta fosse a verdade, isto não lhe daria direito algum sobre a vida da mulher.

Entendam, homens e mulheres podem e devem ser companheiros, amigos, mas nunca, nunca mesmo, se sentir o dono do outro, não somos mercadoria, queremos sim, uma boa parceria.

Acordem, pois nós, as bruxas, sem cabelo arrepiado ou com ele assim também, com vestidos coloridos ou com um pretinho básico (aliás este detalhe permanece, qual a mulher que não tem um pretinho básico no armário?),  estamos soltas e unidas, assim,  com sabedoria e força lutando contra a ignorância e a favor da igualdade de gêneros, de todos eles.

À FLOR DA PELE

tatooflor

Sobraram raízes

Daquela paixão

Em forma de voz,

Em forma de tom

Do som do seu riso,

Da falta de siso

Nasceram frutos

Com gosto de orvalho

E troncos tão fortes

Mas galhos tão frágeis

Que isolaram a razão,

Violaram a emoção

Criaram espaços sombrios

Invadiram meus poros

Trouxeram arrepio

Deixaram  minh´alma

À flor da pele

Tiraram  minha vida  do sério,

Misturando a verdade  e o mistério

 

Rasguei minha alma,

Entreguei-me a um pranto

Que formou mil rios

E em meu desvario

Vi estrelas cadentes

Como beijos ardentes

Sonhei acordada

Caminhei por uma estrada

Que pensei ser o tudo

Mas que me levou ao nada

Lutei, quis fugir,

E não consegui

Voltei aos seus braços

Chorei e sorri

Fui tola e sábia

Ouvi mil palavras

E um castelo montei

A você coroei

Como único Rei

E a mim proclamei

Sua abelha rainha

O amor recendia

A paixão renascia

E reinava a alegria

 

Mas,  ao certo não sei,

Se vivi ou sonhei

 

 

(Da obra: Coisas de Adão e Eva, de Sônia moura)