VOZES

VOZES

(A primeira voz)

              I

Nasci para a vida ontem

Eu já nem sei mesmo quanto tempo faz

Caminho por estradas tortuosas

Por vias sinuosas

Mas tenho a certeza de que

Um dia eu chego lá

            II

A natureza me trata com carinho

A poesia me embala o canto

Da escrita roubo um doce beijo

Do canto dos pássaros sorvo a beleza

E vejo em cada flor um novo encanto

             III

Quem dera o doce bem-te-vi

Dissesse a mim onde tu estás

E uma fada surgisse em minha caminhada

Trouxesse a certeza de um novo encontro

E por uma lente de contato azul

Eu visse a tua face em um espelho

Que me falasse de ti…

  

(A segunda voz|)     

                   I

 

Acorda, menina, desta fantasia

Tens a tua frente a realidade luzidia

Janela aberta para todos os mistérios

Tirando-te desta embriaguez

De sonhares e desejares

O que não existe mais

                II

Não vês que teus sonhos

Fazem de teus delírios um chiste?

Acorda, o dia já desperta,

E a vida não deve tardar

Acorda, mude teus planos,

Aceita, pois é hora de recomeçar

 

              III

Tu tens um mundo

A esperar por ti

Cuidado que ele pode se cansar

Mas ainda é tempo

De alcançares novas dimensões do amor

 

 

 

 

VOZES

(A primeira voz)

              I

Nasci para a vida ontem

Eu já nem sei mesmo quanto tempo faz

Caminho por estradas tortuosas

Por vias sinuosas

Mas tenho a certeza de que

Um dia eu chego lá

            II

A natureza me trata com carinho

A poesia me embala o canto

Da escrita roubo um doce beijo

Do canto dos pássaros sorvo a beleza

E vejo em cada flor um novo encanto

             III

Quem dera o doce bem-te-vi

Dissesse a mim onde tu estás

E uma fada surgisse em minha caminhada

Trouxesse a certeza de um novo encontro

E por uma lente de contato azul

Eu visse a tua face em um espelho

Que me falasse de ti…

  (A segunda voz) 

                I    

  Acorda, menina, desta fantasia

Tens a tua frente a realidade luzidia

Janela aberta para todos os mistérios

Tirando-te desta embriaguez

De sonhares e desejares

O que não existe mais

                II

Não vês que teus sonhos

Fazem de teus delírios um chiste?

Acorda, o dia já desperta,

E a vida não deve tardar

Acorda, mude teus planos,

Aceita, pois é hora de recomeçar

              III

Tu tens um mundo

A esperar por ti

Cuidado que ele pode se cansarSonhe, mas sem da vida real

Muito se afastar

Entenda que a realidade e a fantasia

Balançam mais que as ondas do mar

E nem sempre conseguem se encontrar

 

IMPROVISO

Caminhava pisando sobre os passos dele.

Anulada

Não deixava suas marcas,

Enquanto lágrimas furtivas

manchavam a máscara da face.

Cansada…

 

Até que um dia,

no mundo do improviso

sem aviso,

de uma só vez,

máscaras, marcas e dores

cansaram-se e

veio a libertação,

foi quando

todo o sofrimento dela se desfez

 

A partir de então,

o sofrimento dele teve a sua vez

 

(Da obra: TEMPO DE ESPERA e MÁSCARAS, de Sônia Moura)

 

ANULAÇÃO

Procurei por você

em todos os cantos da solidão,

cantei cantos falando de saudade,

escrevi poemas exaltando o regressar

mas você não veio…

 

Enrolei-me em lençóis de seda,

soltei um gemido de amor e de saudade

que ecoou, ecoou, ecoou…

mas acho que você não escutou…

 

No meio da noite,

a solidão me acordou,

e em um sonho estranho

me levou até um labirinto azul;

perdi-me na trilha,

não soube voltar,

e, ainda assim, você não voltou…

 

Cultivei palavras com gosto de hortelã,

molhei minha boca com gotas de romã,

enxuguei dos olhos lágrimas e quimeras

malhei o corpo, chorei a alma

me desgastei

e você não chegou…

 

Depois,

morta a esperança,

me recompus

e me impus

um novo viver.

Alijei fantasmas,

queimei lembranças

e me desfiz de você

 

*Da obra: Tempos de Espera e de Máscaras

 

 

FLOR MATREIRA

Eram muitos olhos luzindo,

faróis apreensivos,

todos lançados

a uma só direção.

Todos os clarões

jogavam-se sobre a flor

ali, desmaiada,

a implorar

a chama de todo olhar…

Linda, pálida e com um sorriso a aflorar,

pétalas ao vento a bailar,

era uma pintura e o mundo seu altar.

O jardineiro dela se aproxima

coloca-a nos braços e

lança sobre ela um doce olhar.

Então…

Ela renasce, solta um breve suspirar

Sorri para ele e volta a sonhar…

 

 

 

 

 

DEVANEIO

Na minha memória, incrustado está o seu retrato

Que me sorri como outrora, riso de amor, de cumplicidade…

 

Atarantada, trago esta imagem aqui para fora

Jogo-a nesta tela em branco e nela nasce uma pálida lembrança

Do que já fomos

 

Eu lhe dou cores e vida, então a imagem revive na pintura

A brotar da semente de uma saudade solitária

 

Impossível tocar-lhe a face revivida

Impossível beijar-te a boca

Embora queira muito sentir seus beijos,

Embora queira a sua presença…

 

Digo a mim mesma,

– Acorda, hão de chamar-te louca

É um retrato apenas, nada mais

Beijá-lo o passado não lhe traz

 

Reluto, reflito, acordo da minha fantasia

Sei apenas que faço o que é possível:

 

– Devaneio

LUZES

O sol caminha pelos corpos

indecentemente

libertino,

doura peles,

cria imagens

em olhos invisíveis,

desperta sonhos,

veste fantasias,

faz-se poeta

e escreve um poema,

beija corpos deitados na areia,

brinca com as ondas do mar,

depois, vai-se embora,

porque outra luz está por chegar

 

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO)

 

 

 

A moça e o guarda-chuva vermelho

 

Chovia no Rio de Janeiro, mas o calor continuava e ela seguia apressadamente.

A passos largos e rápidos, Mariana, com o seu guarda-chuva vermelho, seguia em busca sabe-se lá de quê.

Numa esquina de Copacabana, Galbério, o irrecuperável conquistador, viu a moça, admirou seu andar apressado e o guarda-chuva vermelho, como a paixão. Galbério teve uma vontade imensa de conquistá-la, mas ela andava tão depressa…

Ele não resistiu e também não desistiu. Foi atrás.

Mariana estava com pressa e não queria conversa com estranhos.

Ele insistiu. Ela resistiu.

Agora eram quatro pés a pisarem firme, forte e apressados pelas ruas de Copacabana. O barulho dos passos naõ eram ouvidos, pois o burburinho das ruas não permitia, mas ambos sabiam que seus passos ecoavam no ar. Ambos sabiam que precisavam insistir e resistir.

O guarda-chuva vermelho, do alto de sua posição, via e ouvia tudo e sorria.

Assim seguiram por boa parte da Nossa Senhora de Copacabana. Lado a Lado, mas tão distantes quanto Rio de Janeiro e Nova York.

Como Nova York entra nesta história? Já explico.

Mariana morava em Nova York, viera ao Rio para visitar parentes, não iria ficar muitos dias, então precisava se apressar para dar conta de todos os compromissos, e aquele homem a segui-la, numa hora tão inadequada…

Chegou ao seu destino e Galbério junto.

Ele insistia e ela resistia.

– Posso lhe falar, só um minuto. Galbério não queria deixar escapar esta linda quase presa.

Soltando um suspiro enfadonho, Mariana disse: – Pode falar, mas seja rápido.

– Quero muito conhecer você.

– Não tenho tempo.

-Posso visitá-la em sua residência. Claro não vou entrar, mas posso buscá-la para um jantar. O que acha?

Mariana fechou o guarda-chuva. Olhou fixamente para o homem de cabelos grisalhos, sorriu um sorriso matreiro e disse:

– Tudo bem, podemos jantar sim.

Tirou da bolsa um cartão envolto por um envelope vermelho. Mais uma vez, riu o seu riso zombeteiro e o entregou ao homem. Este disse gentilmente e com muito galanteio: – Às ordens, Galbério. Sua Graça? – Mariana.

Antes que ele abrisse o envelope para conferir o endereço, ela embrenhou-se pelo prédio, tal qual uma presa fugindo de seu predador  e sumiu.

Em Nova York, o guarda-chuva vermelho ficava num canto  em um local apropriado e bem na entrada da sala.

Meses depois, alguém bate a sua porta, o guarda chuva suspira, já sabe quem é.

Era Galbério que viera buscá-la para jantar.

Ele não resistiu e ela também não.