IMPROVISO

Caminhava pisando sobre os passos dele.

Anulada

Não deixava suas marcas,

Enquanto lágrimas furtivas

manchavam a máscara da face.

Cansada…

 

Até que um dia,

no mundo do improviso

sem aviso,

de uma só vez,

máscaras, marcas e dores

cansaram-se e

veio a libertação,

foi quando

todo o sofrimento dela se desfez

 

A partir de então,

o sofrimento dele teve a sua vez

 

(Da obra: TEMPO DE ESPERA e MÁSCARAS, de Sônia Moura)

 

ANULAÇÃO

Procurei por você

em todos os cantos da solidão,

cantei cantos falando de saudade,

escrevi poemas exaltando o regressar

mas você não veio…

 

Enrolei-me em lençóis de seda,

soltei um gemido de amor e de saudade

que ecoou, ecoou, ecoou…

mas acho que você não escutou…

 

No meio da noite,

a solidão me acordou,

e em um sonho estranho

me levou até um labirinto azul;

perdi-me na trilha,

não soube voltar,

e, ainda assim, você não voltou…

 

Cultivei palavras com gosto de hortelã,

molhei minha boca com gotas de romã,

enxuguei dos olhos lágrimas e quimeras

malhei o corpo, chorei a alma

me desgastei

e você não chegou…

 

Depois,

morta a esperança,

me recompus

e me impus

um novo viver.

Alijei fantasmas,

queimei lembranças

e me desfiz de você

 

*Da obra: Tempos de Espera e de Máscaras

 

 

FLOR MATREIRA

Eram muitos olhos luzindo,

faróis apreensivos,

todos lançados

a uma só direção.

Todos os clarões

jogavam-se sobre a flor

ali, desmaiada,

a implorar

a chama de todo olhar…

Linda, pálida e com um sorriso a aflorar,

pétalas ao vento a bailar,

era uma pintura e o mundo seu altar.

O jardineiro dela se aproxima

coloca-a nos braços e

lança sobre ela um doce olhar.

Então…

Ela renasce, solta um breve suspirar

Sorri para ele e volta a sonhar…

 

 

 

 

 

DEVANEIO

Na minha memória, incrustado está o seu retrato

Que me sorri como outrora, riso de amor, de cumplicidade…

 

Atarantada, trago esta imagem aqui para fora

Jogo-a nesta tela em branco e nela nasce uma pálida lembrança

Do que já fomos

 

Eu lhe dou cores e vida, então a imagem revive na pintura

A brotar da semente de uma saudade solitária

 

Impossível tocar-lhe a face revivida

Impossível beijar-te a boca

Embora queira muito sentir seus beijos,

Embora queira a sua presença…

 

Digo a mim mesma,

– Acorda, hão de chamar-te louca

É um retrato apenas, nada mais

Beijá-lo o passado não lhe traz

 

Reluto, reflito, acordo da minha fantasia

Sei apenas que faço o que é possível:

 

– Devaneio

LUZES

O sol caminha pelos corpos

indecentemente

libertino,

doura peles,

cria imagens

em olhos invisíveis,

desperta sonhos,

veste fantasias,

faz-se poeta

e escreve um poema,

beija corpos deitados na areia,

brinca com as ondas do mar,

depois, vai-se embora,

porque outra luz está por chegar

 

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO)

 

 

 

A moça e o guarda-chuva vermelho

 

Chovia no Rio de Janeiro, mas o calor continuava e ela seguia apressadamente.

A passos largos e rápidos, Mariana, com o seu guarda-chuva vermelho, seguia em busca sabe-se lá de quê.

Numa esquina de Copacabana, Galbério, o irrecuperável conquistador, viu a moça, admirou seu andar apressado e o guarda-chuva vermelho, como a paixão. Galbério teve uma vontade imensa de conquistá-la, mas ela andava tão depressa…

Ele não resistiu e também não desistiu. Foi atrás.

Mariana estava com pressa e não queria conversa com estranhos.

Ele insistiu. Ela resistiu.

Agora eram quatro pés a pisarem firme, forte e apressados pelas ruas de Copacabana. O barulho dos passos naõ eram ouvidos, pois o burburinho das ruas não permitia, mas ambos sabiam que seus passos ecoavam no ar. Ambos sabiam que precisavam insistir e resistir.

O guarda-chuva vermelho, do alto de sua posição, via e ouvia tudo e sorria.

Assim seguiram por boa parte da Nossa Senhora de Copacabana. Lado a Lado, mas tão distantes quanto Rio de Janeiro e Nova York.

Como Nova York entra nesta história? Já explico.

Mariana morava em Nova York, viera ao Rio para visitar parentes, não iria ficar muitos dias, então precisava se apressar para dar conta de todos os compromissos, e aquele homem a segui-la, numa hora tão inadequada…

Chegou ao seu destino e Galbério junto.

Ele insistia e ela resistia.

– Posso lhe falar, só um minuto. Galbério não queria deixar escapar esta linda quase presa.

Soltando um suspiro enfadonho, Mariana disse: – Pode falar, mas seja rápido.

– Quero muito conhecer você.

– Não tenho tempo.

-Posso visitá-la em sua residência. Claro não vou entrar, mas posso buscá-la para um jantar. O que acha?

Mariana fechou o guarda-chuva. Olhou fixamente para o homem de cabelos grisalhos, sorriu um sorriso matreiro e disse:

– Tudo bem, podemos jantar sim.

Tirou da bolsa um cartão envolto por um envelope vermelho. Mais uma vez, riu o seu riso zombeteiro e o entregou ao homem. Este disse gentilmente e com muito galanteio: – Às ordens, Galbério. Sua Graça? – Mariana.

Antes que ele abrisse o envelope para conferir o endereço, ela embrenhou-se pelo prédio, tal qual uma presa fugindo de seu predador  e sumiu.

Em Nova York, o guarda-chuva vermelho ficava num canto  em um local apropriado e bem na entrada da sala.

Meses depois, alguém bate a sua porta, o guarda chuva suspira, já sabe quem é.

Era Galbério que viera buscá-la para jantar.

Ele não resistiu e ela também não.

Tecendo o amor

Li essa afirmativa em algum lugar: A quantidade de fios num tecido é determinada pela soma dos fios no sentido vertical (urdume) e horizontal (trama), quanto maior a quantidade de fios num tecido, mais delicado e suave ao toque ele será, pois os fios serão mais finos e delicados.

E não será assim o amor, os fios precisam se cruzar em harmonia, suavidade, delicadeza. Simplesmente, assim: o urdume do amor com a trama da vontade converte-se em alegria e felicidade.

A FACE OCULTA

 

Na roda da vida, há linhas e estradas, estas são forças que se apresentam a nós e nos convidam a seguir por elas.

Embora aparentemente embaralhadas, há nelas uma ordem e movimentos misteriosos que permitem a ida e, na maioria das vezes, o regresso do indivíduo.

Esta ordem louca dentro da desordem, este labirinto invisível, trânsito entre muitos planos, converte-se em espaços expressivos fabulosos, os quais compõem as histórias de nossas vidas.

Luzes anônimas apontam caminhos, por vezes, seu brilho é tão intenso que quase nos cega, no entanto, insistimos em segui-las, este é o jogo do destino a brincar com nossa ilusão, aproximando-nos e nos afastando realidades ou de fantasias, fazendo-nos crer que o dominamos.

Ao trafegarmos por estes caminhos, vozes misteriosas nos conduzem (ou nos induzem) a passagens secretas ou a palcos com cortinas escancaradas e, de repente, dependendo do trilha seguida, nos vemos em total solidão ou somos postos ante uma plateia a exigir de nós luzes, cores, sombras, falas e representações, papéis que nem sempre estamos preparados para desempenhar, mas é simples assim: ainda que pensemos que somos nós os condutores do nosso veículo terreno, nosso destino é conduzido à revelia de nossos desejos, pois, no trajeto da vida, nossa vontade será posta em total nudez.

Palavras, imagens, verdades e mentiras se juntam para confundir ainda mais os nossos pensamentos, é como se fosse um jogo de espelhos por meio do qual nossa vida se revela em dimensões diversas, a fim de que façamos reconhecimentos ou descobertas, diante das quais nos atrapalhamos, e assim, ficamos presos na armadilha do destino e desta não há como fugir.

A bem da verdade, estamos sempre a renascer em múltiplas metamorfoses reveladas lentamente ao longo da vida, e, ainda que tudo esteja fora do lugar, ainda que as ambiguidades do destino tracem caminhos paralelos, indubitavelmente, chegaremos ao ponto final.

Assim sendo, desde sempre, somos entregues nas mãos das Moiras que manipulam a Roda da Fortuna, tecendo nossos destinos, fazendo reaparecer no palco da vida sempre novos espetáculos com a mesmas feições, refletindo apenas a imagem fundamental da vida: a face oculta da solidão do ser.