DUO (Autoria: Sônia Moura)
A realidade e a fantasia
brincavam no jardim,
colhi- as.
Só a fantasia não morreu!
ADO-AADO- CADA UM NO SEU QUADRAD0…
Casal de pingüins gays é ‘expulso’ de zoológico por roubar ovos
Após protestos, zoológico chinês decidiu dar dois ovos ao casal.
Segundo zoológico, ‘pingüins gays mostraram-se os melhores pais’.
(…)
Segundo o mesmo funcionário, “os pingüins gays mostraram-se os melhores pais de todo o zoológico”. “É muito animador. Se isso terminar bem, vamos tentar torná-los verdadeiros pais com inseminação artificial”, acrescentou.http://g1.globo.com/Noticia.html 
A natureza é mestra em nos dar lições, pois sua sabedoria é ilimitada.
Prestemos atenção às mensagens que ela nos manda e, de uma vez por todas, joguemos no lixo, para sempre, os preconceitos e as segregações e passemos a respeitar a natureza de cada um, pois, todos devem ter seus direitos preservados.
Vamos seguir o que diz aquela musiquinha: ado-aado-cada um no seu quadrado…
BOCA VERMELHA E A LUZ DO LUAR
(Autoria: SÔNIA MOURA)
A boca vermelha falava mansinho:
-Te amo, te quero, vem cá meu carinho
Ele, ofegante, chegava mais perto
Ela, faceira, a repetir, repetir…:
-Te amo, te quero, vem cá meu benzinho
Quero te amar
No escuro da noite, a boca vermelha
Era ornamento para o quarto inquieto
Para a cama desfeita
Para o espelho à espreita
Esperando que a boca vermelha
Voltasse a implorar:
-Vem cá, meu benzinho, vem cá!
-Quero te amar
Com olhos atentos
Ele espreitava o vermelho vivo
Da boca carnuda, ali, a implorar:
– Vem cá, meu benzinho, não vou agüentar…
Preciso te amar
O sol se anuncia
Um som se rebela
Uma luz esmaece
O homem estremece
A boca sumiu
O vermelho partiu
Seu sonho de amor
Ficou no lençol
Restos do desejo
Em branco leitoso
Nascido da boca vermelha
E da luz do luar…
(Do livro POEMAS EM TRÂNSITO de SÔNIA MOURA)
FIOS DA MESMA MEADA (Autoria: SÔNIA MOURA)
Sabendo-se que um texto nunca está pronto, concluído, para prosseguir fomentando a geração de outros textos, a efetivação do diálogo entre autor/leitor constitui um modo de diluírem-se as máscaras entre estes e entre a leitura e a escrita, quando tudo pode ser reformulado por meio da interlocução.
O texto escrito ou falado apresenta-se como uma forma de fazer artístico, construído pela língua, este instrumento de arte, que dá destaque ao caráter artístico-estético do texto como forma de ordenação do mundo, por meio da leitura, um dos elementos fundamentais para a construção do contexto sócio-cultural dos povos.
A base de nossa percepção do mundo dá – se pela palavra, oral ou escrita, é através dela que as representações culturais de um povo se perpetuam, se multiplicam, se modificam e não morrem, mas podem modificar-se, cedendo espaço ou lugar a novas formas de contar histórias.
As experiências individuais ou coletivas transmutadas em novas narrativas, reforçam conceitos, ideologias, denúncias, circulam de boca em boca, de texto em texto, consagram mitos e ritos, contaminam, ensinam, registram, agitam, metamorfoseiam – se em arte, uma das mais eloqüentes e inquietantes produções do homem, para transformar homens, idéias e ideais.
Deste modo, através de sua arte, o artista interfere, modifica ou (re)forma o meio em que vive, dá –lhe novos formatos, novas interpretações e significados, este é o principal sentido da obra de arte – sua intervenção no processo histórico social e na própria arte.
Então, é esta interação entre o autor e o leitor que irá permitir a educação para a percepção artística e a percepção de mundo, ao mesmo tempo que estimulará a exploração dos meandros da mente.
Ao ler um texto, manifestamo-nos, expressamo–nos pelos saberes incrustados em pedras culturais, pelas influências que permeiam o nosso ambiente e por normas ditadas em um determinado tempo, porque a arte desperta no indivíduo o seu próprio processo de sentir, de agilizar a mente, de ampliar a imaginação, rompendo limites impostos.
E, deste ato de rebeldia, a proposta do novo, pela conjunção da leitura de um texto e a interpretação que dele se faz, que se vale a criação textual, para fomentar a interação dialética entre literatura e sociedade, e do qual se vale o leitor para transformar ou criar mensagens, quando este faz leituras contextualizando-as com os vários mundos criados pela produção textual.
(Autoria: SÔNIA MOURA)
O ESPETÁCULO DA PALAVRA [Autoria: Sônia Moura]
A palavra texto provém do latim textum que significa tecido, entrelaçamento, portanto qualquer forma textual resulta de um trabalho de juntar partes, tecer, para formar um todo, e, por meio da repetição, da progressão, da não contradição e da relação, uma rede será formada para manter a coesão e a coerência textuais.
A língua (escrita ou falada), seu sistema de signos convencionais e seus elementos tecem nossas mensagens, dão suporte à dinâmica social, às relações diárias e às atividades intelectuais e esta linha construtora de texto é a principal forma de linguagem simbólica usada pelo homem no ato da comunicação.
Ampliando-se o conceito do termo texto, vamos defini-lo como qualquer tipo de comunicação que se manifeste por meio de um sistema de signos,assim: arquitetura, música, pintura, escultura, são textos, por meio dos quais o ser humano manifesta sua capacidade comunicativa.
A representativa comunicacional da linguagem verbal manifesta-se através do discurso e, na rede de relações que promovem a tessitura textual, dois elementos se destacam: a coerência e a coesão textuais.
O discurso é a representação da língua escrita e da língua falada, as quais guardam entre si relações intrínsecas, sem, no entanto, anularem as especificidades de suas características .
A língua falada recorre especialmente a signos acústicos e extralingüísticos e a gestos (voz, expressão, ritmo, som realidade) para marcar o que quer comunicar e a sua informação é permeada de subjetividade e também pode sofrer a influência do interlocutor; já a língua escrita firma-se pela representação da permanência e do registro que faz da história, além de exigir mais correção na elaboração das frases, por meio do uso de letras e sinais de pontuação.
Enquanto a língua falada por sua natureza é a língua do imediato e o tempo deste discurso é igual ao tempo da ação, a língua escrita dá visibilidade à articulação entre os signos lingüísticos, podendo ser reordenada, reescrita ou modificada, antes de chegar a seu destinatário e, até mesmo depois, quando cada leitor, a seu modo, “reescreve” o texto original, pela forma interpretativa que a este o leitor atribui.
Por ser intencional, qualquer forma de discurso aponta um alvo, um objetivo específico, isto é, sempre há intenção no que se fala ou no que se escreve.
Assim, a adequação da língua escrita ou falada deverá apensar-se a fatores tais como a intenção textual e a quem esta se destina, pois, é fundamental que o receptor possa processar claramente a informação recebida.
Neste ponto, a língua falada se privilegia, uma vez que, na maioria das vezes, o interlocutor poderá inquirir o seu parceiro de fala, para que lhe esclareça algum detalhe não decodificado pelo ouvinte/interlocutor.
Desta forma, diferentemente da língua falada, o rigor das normas se fará mais ostensivamente presente no texto escrito, e este deverá apresentar-se com maior precisão do uso das normas gramaticais adequadas, preservando-se a intenção do autor/emissor do texto escrito.
Por tratar-se de um registro da história do homem, contrapondo-se à língua falada e à sua efemeridade, a língua escrita não é uma transcrição da língua falada, que é mais livre, mais solta, por exemplo quando se pode abreviar palavras (está= tá), para abreviar o tempo.
A língua escrita é a que dá maior visibilidade e “concretude” à articulação entre os signos lingüísticos, mas, em qualquer situação, a língua escrita só será apreendida se houver o domínio prévio da língua falada.
Desta forma, ainda que as formas discursivas nos sejam apresentadas por seus modos diversificados de recursos, com a finalidade efetivar a comunicação, o resultado de suas mensagens só se tornarão o mais claro possível, somente se houver troca na comunicação, pois, somente assim o texto terá cumprido o seu papel primordial: comunicar pelo prazer, pela aprendizagem, pelo poder memorialístico que ele vier a apresentar ou pela informação, isto é, quando cada tipo de texto cumprir, de fato, o papel que a ele for destinado, pois o principal valor de um texto está centrado no seu poder de comunicação.
(Trabalho apresentado por Sônia Moura, no Colóquio: O Espetáculo da Comunicação – UFF- 2005)
CORPOS CELESTES (Autoria: Sônia Moura)
Ainda hoje sinto saudade do seu abraço
Ainda ouço sua voz solta na madrugada
A me dizer baixinho:
– Sou louco por ti, pequenina!
Enquanto seus braços, de mansinho,
Qual dois ramos da videira,
Me enlaçavam, me envolviam
Me puxavam para junto do teu corpo
Neste momento, nossos corpos celestes
Se mudavam para um céu aqui na terra
E nos amávamos na madrugada escura
O cheiro do amor se espalhava pelo quarto
Dormíamos imersos numa felicidade pura
Ainda sinto o teu calor a me aquecer
Só não consigo te esquecer
Preciso ver você
Preciso ter você
Mas como te encontrar?
Como?
Peço aos deuses que me honrem com tua presença
Rogo aos anjos que me ajudem a te encontrar
Imploro aos orixás que me permitam, mais uma vez
Te amar, te amar, te amar…
(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)
TE AMO MUITÃO!! (Autoria: Sônia Moura)
Domingo, sol tímido na cidade maravilhosa (aliás, a mais maravilhosa do mundo), num jornal daqui, leio as declarações de amor de dois jovens, filhos do treinador e do atual presidente de um clube carioca que corre um sério risco de ir para a segunda divisão.
Devo confessar que, embora eu torça pelo time opositor e maior rival, sinceramente, não gostaria de ver o time em questão sendo rebaixado, afinal, sou carioca da gema e esta descida será muito ruim para o futebol carioca.
Mas, o que me sensibilizou mesmo foram as formas de carinho e estímulo que estes filhos criaram para seus pais, com a finalidade de incentivá-los, num momento tão difícil.
O menino tatuou, no braço, o “nome” pelo qual o pai-presidente ficou conhecido em seus exuberantes tempos de jogador e ídolo da torcida, para dar “a maior força” ao pai. Emocionante mesmo. Os jovens nos surpreendem.
A menina escreveu uma linda cartinha declarando a sua solidariedade e amor ao queridíssimo pai-treinador, que, outrora também fora um jogador sensacional.
A carta terminava assim: “Confio na sua estrela de vencedor. Você é meu herói! Te amo muitão!!”.
Foi aí, nesta última frase que a emoção se fez mais forte: TE AMO MUITÃO!! Esta forma aumentativa para a palavra muito (muitão) para mim, indica que este amor não tem limites, não tem barreiras, nem fronteiras.
Às vezes, a linguagem criativa dos jovens é tão sábia que a gramática se queda ante esta sapiência e sensibilidade.
I – BRASIL DILACERADO
(…)Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
(…)
Ó pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
(Hino Nacional Brasileiro)
II – BRASIL DESPEDAÇADO
Salve lindo pendão da esperança!
Salve símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.
(…)
Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre sagrada bandeira
Pavilhão da justiça e do amor!
(…)
(Hino à Bandeira Nacional)
O AUTOMÓVEL E OS CAVALOS (Autoria: SÔNIA MOURA)
O termo horsepower foi criado pelo engenheiro escocês James Watt.
O fato é que Watt trabalhava com seus cavalos içando carvão de uma mina e queria transmitir a idéia da potência disponível de um desses animais. Terminou descobrindo que os cavalos da mina eram capazes de executar, em média, 22.000 pés-libra (3.044 quilogramas.metro, ou kg.m) de trabalho em um minuto. Ele deu então um acréscimo de 50% nesse número e determinou que um cavalo-vapor é equivalente a 33.000 pés-libra de trabalho (4.566 kg.m) em um minuto.
[ Adaptação – vide: http://carros.hsw.uol.com.br/cavalo-de-forca.htm]
Tropel – [ETIMOLOGIA] – do espanhol tropel(século XIV), do francês antigo tropel = rebanho; trop – -elemento de composição antepositivo, do francês troup= bando de animais, de pessoas.
Atropelar = a+ tropel + ar = 1- Passar por cima, calcando; 2- Levar a tropel; 3 – Apanhar (alguém com veículo em acidente).
{Dicionário Houaiss}
As informações acima nos mostram que automóvel e cavalo mantêm entre si relações lingüísticas intrínsecas.
Esta mostra serve para percebermos a extraordinária capacidade de recriação do mundo pela palavra, evitando que a monotonia se aposse de tudo e de todos que há nele.
Cada palavra nova ou renovada é o fruto de mesclas e acréscimos, como marca de que a palavra aí está para reproduzir o mundo.
Assim, o mundo se constrói pela fascinante arte da palavra que arma e desarma jogos e promove a circular viagem do homem, dando a ele todas as possibilidades de criação que este material humano –a palavra – lhe garante.
O UNICÓRNIO (Autoria: Sônia Moura)
Branco como a luz do luar, o unicórnio docemente contemplava a flor azul nascida naquela manhã de primavera. O cheiro que ela desprendia era inebriante e ele se encantara com aquele azul que bordava as pétalas da (re)nascida.
Não queria colhê-la , mas também não queria deixá-la sozinha no meio da floresta, não podia afastar-se dali.
E se um descuidado pisasse aquelas pétalas aveludadas, não poderia deixá-la à mercê da própria sorte.
Havia também o perigo iminente de um inseto ou uma fera que, instigados pelo cheiro que a flor exalava, desejassem comê-la, ela era, de fato, uma tentação: cheiro, cor, forma, tudo nela era sinônimo da tentação.
E, se para ele a contemplação bastava, nos outros, poderia despertar desejos canibalescos, então ele não podia afastar-se de junto dela.
A docilidade do unicórnio transbordava pelo olhar lançado à flor.
Anoiteceu.
E, como à noite, os deuses dos sonhos nos permitem viajar, o unicórnio viu a sua flor transformar-se em uma linda jovem, parecia renascer para uma nova vida.
Assim como as pétalas da flor, a pele da virgem era tão aveludada e com um sorriso ela o tornou cativo. Ele não resistiu, aproximou-se dela, sem nenhuma cautela e desejou ardentemente poder abraçá-la com toda força e ternura que lhe fosse permitido, ainda que por alguns minutos.
Ao tocar-lhe a pele, seu corpo estremeceu e ele ficou paralisado, como se tivesse em transe, mas, ainda assim, insistiu e roçou-lhe mansamente o corpo aveludado.
A moça sorriu para ele, depois, tocou-lhe a face, acariciou-lhe o chifre em espiral e, neste momento, ele era, agora, um ser humano. Os jovens lançaram-se um nos braços do outro e aconteceu o beijo ardente, unindo definitivamente os amantes.
O sol vinha chegando de mansinho, enquanto ele despertava com a sensação de que tudo fora real. Demorou para abrir os olhos, queria que aquilo que eles viveram em sonho fosse verdade, não apenas um sonho.
Continuou sonhado com sua flor azul, queria ver este sonho realizado, ah! como queria!
Abriu lentamente os olhos e descobriu o que o sonho e o desejo podem realizar.
(Do livro: Súbitas Presenças de Sônia Moura)