Carta a um amigo

CARTA A UM AMIGO

Amigo

Como já lhe disse – torço por um Brasil melhor.

Creio que cada um tem o direito de gostar deste ou daquele político, desta ou daquela religião, deste ou daquele time, isto é fato, mas, parece-me que continua a velha fórmula, quando não se gosta (pessoa ou coisa) simplesmente desqualifica-se a pessoa ou a coisa em questão.

Assim fizeram, por exemplo, com os negros, aquela gente e aquele tempo precisavam justificar a barbárie, então, simples assim, transfiguraram o negro: porco, sujo, sem alma e por aí vai…

O mesmo se deu com as mulheres que ousaram se libertar do jugo masculino ou do jugo religioso, primeiramente, as bruxas, estas foram queimadas, seviciadas, aviltadas; depois as libertárias dos tempos modernos: eram putas, levianas, desencaminhadoras de lares, e, enquanto isso os homens continuavam a exercer seus “podres poderes”. C’est la vie!

Por trás de discursos contra aqueles que buscam dar atenção especial às classes mais necessitadas, há palavras cheias de ódio. Por meio da desqualificação linguística, os que escrevem tentam apagar a luz de quem busca dá-la a outros. Nestes textos, vejo uma dose imensa de puríssimo preconceito, aliás, preconceito “da [cruzes!] melhor qualidade”.

Enquanto isto… La nave vá… e os cães ladram enquanto a caravana passa altaneira!

Sua sempre amiga
Sônia MouraCARTA

EXÍLIO

EXÍLIO (por SÔNIA MOURA)

Paguei para imprimir o seu retrato, depois peguei um fósforo e me propus a queimar a sua imagem. Risquei o fósforo, o fogo começou a lamber deliciosamente o papel pelas beiradas. Quando as chamas estavam prestes a alcançar a sua imagem, apaguei o fogo com a mesma rapidez das chamas enlouquecidas. Endoideci, desisti e abafei a labareda, ao mesmo tempo que o fogo do amor me devorava.

O fogo insano e a paixão menina alimentavam o desejo sobre-humano, este cavalo bravo no qual só se pode cavalgar, segurando-o pela crina.

Dúvidas, dor e desencanto cavalgavam no prado verde da ilusão. Montada no indomável cavalo chamado Desejo, cavalgava a corajosa esperança, enquanto por estradas vicinais, a desesperança troteava em minha alma.

A foto já estropiada me olhava com a cara apaixonada e eu, iludida, a acreditar que tudo voltaria a ser como antes, num tempo de tanto amor. A um canto, a desilusão zombeteira a me provocar, a me mostrar que aquele amor estava vivo somente na fotografia e que daquele antigo amor nada mais existia.

FTOEMCHAMAS

MÃE!

MÃE!

Outras palavras são incapazes de captar integralmente o que representa este nome: MÃE.

Palavra que nasce do coração, desce pelos braços e se transforma em abraços, voa até os lábios e se materializa em beijos que nos fazem dormir serenamente e sonhar, mesmo estando acordados.

Palavra saída do ventre em forma de vida, imantada por encantos, por sorrisos. Alva espuma nascida das ondas do mar, brilho de cristal a espalhar amor, tesouro em forma de mulher, também conhecida como: MÃE!

 

mae2kb3

As contas de um desencanto

FotoRasgada2Os vendedores já a conheciam. Mais uma vez, comprou um livro no sebo, gostava disso. Livros antigos, já manuseados por outros. O que teriam achado da história? Leram por prazer ou por obrigação? Comprava, lia e passava adiante. Dizia sempre que livro foi feito para trocar de dono e que o autor, após o livro editado, perdeu a primazia da autoria, passara a ser coautor.

Além das histórias narradas, também se encantava com o que encontrava nos livros usados. Uns escreviam lindas declarações de afeto, outros, apenas colocavam seus nomes e, se fossem estudantes, assim ela deduzira, o nome tinha que estar completo, às vezes, com o nome do colégio e da turma.

Já encontrara dentro de livros alguns tesouros, formados por palavras observadoras, que acrescentavam o que o leitor, agora também coautor, pensava. Encontrara flâmulas, flores secas, folhas, penas, fotos, mas só uma chamou-lhe a atenção, e foi sobre ela que a compradora me falou.

Aquela imagem encantou a leitora, e as palavras foram caindo de sua boca, lentamente, como se fossem contas de um colar que se partira.

Era uma foto cortada e nela se via o rosto sorridente de uma bela jovem, a felicidade fora capturada. Embora houvesse sido cortada, ainda dava para ver que a foto era de um casal, pois ainda se via parte de  uma cabeça masculina, encostada na cabeça, cujos lábios sorridentes encantaram a leitora.

Quem seriam eles, o que os separou, como mostrava a foto mutilada? A leitora jamais terá respostas a estas perguntas, mas, uma coisa é certa, quando as dimensões do amor se rompem, o amor acaba. Então não há palavras que traduzam o sofrimento do desamor, o passado enevoado se torna invisível, e, até mesmo um retrato se torna divisível, sem que nada mais reste, além da dor.

 

Sofregamente, minha poesia desabrochou,

Uma trilha bem marcada ela deixou

Mergulhando num  rio sem labirinto

E sem nenhum pudor

Desnudou-se para o nosso amor

 

Muita água vai rolar por esta estrada,

Pressinto

 

(Da obra: Poesia dia a dia, de Sônia Moura)caminhos

AMOR PELA JANELA

AMOR PELA JANELA [Sônia Moura]

 

Sem tirar os olhos dela

Ele na janela vivia

Dia e noite

Noite e dia

 

Sem tirar os olhos dele

Ela de lá não saía

Dia e noite

Noite e dia

 

A lua pelo céu corria

O sol no céu luzia

Dia e noite

Noite e dia

 

A paixão tem seus mistérios…

 

Mas o que ninguém sabia

É que o boneco – soldado

E a boneca – bailarina

Mesmo presos na janela

Dia e noite

Noite e dia

Se amavam a distância

Dia e noite

Noite e dia

 

Que a paixão tem seus mistérios

Disto os dois já sabiam

soldado_bailarina1