PAIXÃO NA MADRUGADA

 PAIXÃO NA MADRUGADA

PAIXÃO NA MADRUGADA  (Autoria: Sônia Moura)

 

É madrugada e o sono resolveu fazer forfait e como a vida é também uma jornada e não aponta apenas para um destino, mas para infinitas possibilidades, eis que caio nos braços de Lupicínio, afastando-me cada vez mais dos braços de Morfeu.

Dizem que as pessoas certas aparecem quando precisamos delas e que todo mundo tem sua magia, assim foi comigo e com Lupicínio, a quem já conhecia há muito, mas que naquela noite veio para mim, induzindo-me a mudar todos os planos.

Uma tempestade de emoções tomou conta de todos os meus sentidos e eu que adoro tempestades, deixei-me levar pelos raios e trovões que se formavam na minha noite mágica.

Eu precisava me entregar a Lupicínio, precisava dar-me a ele integralmente, porque às vezes é preciso acreditar, é preciso arriscar, deixar o mistério fluir, pois o mistério sempre desperta o interesse.

Nesta madrugada percebi que eu estava fugindo de mim há tanto tempo, que desaprendi a parar, mas hoje não, hoje vou agir com sabedoria, pensei, porque é só relaxar que a natureza dá um jeito em tudo.

Entreguei-me ao prazer total. Deixei-me emprenhar pelos ouvidos, aquelas letras, aquelas melodias fazendo ciranda em meu coração no meio da madrugada… De onde viria tamanha inspiração?

 

É madrugada, perdi o sono e encontrei Lupicínio. Meu Deus, como é fácil se apaixonar por ele!

                                 PAIXÃO NA MADRUGADA

PROTEGER, MAS, SEM EXAGERO!

PROTEGER, MAS, SEM EXAGERO! 

PROTEGER, MAS, SEM EXAGERO! (por SÔNIA MOURA)

 Pais, professores, cuidadores de menores em geral podem ficar proibidos de beliscar, empurrar ou mesmo dar “palmadas pedagógicas” em menores de idade. (…) A medida visa garantir o direito de uma criança ou jovem de ser educado sem o uso de castigos corporais ou “tratamento cruel e degradante”. Atualmente, a Lei 8.069, que institui o ECA, condena maus-tratos contra a criança e o adolescente, mas não define se os maus-tratos seriam físicos ou morais. Com o projeto, o artigo 18 passa a definir “castigo corporal” como “ação de natureza disciplinar ou punitiva com o uso da força física que resulte em dor ou lesão à criança ou adolescente”. Para os infratores, as penas são advertência, encaminhamento a programas de proteção à família e orientação psicológica.”

 http://educacao.uol.com.br/ultnot/2010/07/13

 

 É claro que toda medida que se possa tomar para a proteção das crianças será sempre válida, além de  ser necessário defendermos nossos pequeninos, o que aliás já o faz o Código Penal e o Código Civil, no entanto, a notícia amplamente divulgada pela imprensa sobre a atualização do ECA – a “proibição da palmada” –  leva-nos a pensar e questionar se falta à maioria dos pais bom senso, sensibilidade e intuição para educar seus filhos? Cremos que não.

Até aqui, a história nos mostra que a maioria dos pais, errando e/ou acertando, procura fazer o melhor por e para seus filhos, assim, todo cuidado é pouco, uma vez que podemos observar que com tantos “não pode”, os pais contemporâneos andam “pisando em ovos”, não sabem que caminho seguir, sentem-se encurralados e constrangidos para desempenhar a tarefa de educarem seus filhos, estas dúvidas, incertezas e inseguranças só provam o quanto a maioria dos pais quer o melhor para os seus filhos.

Claro que bater sistematicamente em uma criança, ainda que esta forma de castigo sejam as palmadas, não é aceitável. E, é óbvio, que maus tratos, sejam eles físicos, como espancar uma criança ou depreciá-las por meio de palavras inconvenientes ou degradantes é algo abominável, portanto, cabe ao poder público e social proteger a criança contra qualquer situação que a coloque em risco no presente, além de prejudicar o cidadão na idade adulta, pondo em risco o seu futuro, por conta de traumas adquiridos na infância, por esta ter sido desassistida e/ou maltratada.

No entanto, devemos tomar cuidado para não exagerarmos na dose destes cuidados, pois, certamente, o resultado também poderá ser traumático para a sociedade.

Criança precisa de limite, aliás, ela quer limite, é bom para ela e para a sociedade, não vamos nos iludir, excesso de proteção pode formar adultos que não conseguirão lidar com a realidade deste nosso mundinho cheio de armadilhas e dificuldades; sucessos e fracassos; tristezas e alegrias.

Educar é, foi e sempre será uma tarefa difícil, muito difícil, todos que têm a missão de formar um cidadão para o mundo, sabem o quanto é árdua esta tarefa, logo, como pais ou como representantes da sociedade tenhamos bom senso para darmos educação e amor em doses mais próximas possíveis do nível desejado.

PROTEGER, MAS, SEM EXAGERO!

 

 

DISCURSO SOLTO NA RUA

 DISCURSO SOLTO NA RUA

DISCURSO SOLTO NA RUA (Sônia Moura)

 

      O discurso do artista de rua como um lugar de interação, onde os enunciados provocam novas modalidades de interlocução, o sujeito falante (artista/ator/autor/produtor/emissor) produz um enunciado capaz de fazer o outro sujeito (público/receptor) penetrar no universo do fazer artístico, através do portal do discurso construído por um eu, que multiplica a sua  fala sedutora para  todos.           

    Portanto, mesmo que seja em condições absolutamente adversas, o efeito nascido deste tipo de discurso ultrapassa as expectativas de qualquer modelo comunicacional, sendo esta mais uma constatação de que os signos lingüísticos, quando estrategicamente operados pelo emissor, conseguem surpreender, contaminando, até mesmo um passante distraído ou desinteressado.

Para Aristóteles: “O homem se compraz com a imitação”, cabe, pois, ao emissor, através do seu diálogo com o espectador, apagar as marcas visíveis da imitação, inserindo-lhe, pela sua fala, o ineditismo, fazendo-o crer ser verdadeiro o que, por vezes, é apenas verossímil.

Uma vez que o homem só tem acesso ao “real” através da linguagem, a palavra (protagonista), junto com outras formas de linguagem:  risos, olhares, convites gestuais,  no espaço público – barulhento, borbulhante, desordenado, febril, o discurso do artista de rua  une   subjetividades e  objetividades e estas unem o público num mesmo espaço  em torno de manifestações artísticas populares, assim sendo, cabe ao artista, que ocupa este espaço, seduzir o passante, possuindo-o com suas palavras, em forma de um convite direto, imediato, convencendo cada  transeunte de que ele é o eleito, o privilegiado, o escolhido a participar daquela festa.

A partir da conquista e da cumplicidade que é estabelecida pela força discursiva,  de uma forma ou de outra, todos passam a participar das apresentações artísticas, uma vez que todos – artista, público participante ou público assistente – riem, brincam, se espantam, se encantam, duvidam, e neste instante, o artista constrói, através do seu discurso (que também faz parte do seu fazer artístico) e de sua arte, similaridades comportamentais, quando coloca no centro da roda,   por meio de sua imagem – presença, a imagem de uma arte “feita naquele instante”, “saída agorinha do forno” para a degustação do seu público, que está dividindo interesses comuns e partilhando sentimentos, no meio de uma multidão que, em geral, sequer se conhece.

Para Charaudeau (p. 28), O sentido do discurso depende das circunstâncias da enunciação e dos destinatários aos quais o discurso é dirigido”, deste modo, o enunciado que circula pelo espaço público apresenta traços diferenciados e é  dirigido a um público totalmente heterogêneo, o qual ouve uma voz que se volta para  a ampliação do apelo e da sedução e esta voz obtém como resposta a participação de uma assistência relaxada, envolvida, persuadida a ficar, neste instante, porque o público espectador foi apanhado pela rede do discurso competente do emissor, um discurso que apresenta duas faces: a face conotativo (significado ideológico:  “a venda de um produto”) e a face denotativa (literaridade aparente do discurso artístico) .

 

(UFF – 2009)

 discurso solto na rua

ROSA ALGEMADA

ROSA ALGEMADA

ROSA ALGEMADA  (Autoria: Sônia Moura)

 Não era mais uma linda Rosa juvenil, mas ainda tinha seu charme, sua graça e muita sensualidade, apenas não as via mais. 

Um dia, saiu a passear e encontrou um desvio.

Pelas mãos inusitadas do destino, aquela flor desconsolada foi tomada por uma alegria febril, ao deslumbrar a bela tarde que se abria em leque numa espécie de magia lírica, feita pelas mãos da natureza, as quais trançaram uma rede sobre o tempo, abolindo os toques de artificialidade, que quisessem neste tempo se instalar.

Também qualquer incerteza que tentasse invadir aquele momento, certamente seria expulsa, porque a poesia já pousara sua mão direita sobre a algema que prendia Rosa, decretando que esta iria se romper brevemente.

Naquele instante Rosa percebeu que a poesia pode nascer de nós mesmos, pela luz de nosso olhar, pela alegria de uma alma bailarina ou pela beleza de um momento de ternura.

Rosa viu ainda que o tempo da linda Rosa juvenil passara e fora intensamente belo, mas há sempre novas alegrias a serem descobertas, há sempre o que se reinventar e se dar luz plena  a cada tempo que colore a flor, ainda que os espinhos do tempo venham em nós pousar.

 A Rosa menina em botão e a linda Rosa juvenil foram os retratos da vida que  vieram à mente de Rosa. Então a Rosa de agora, plena, linda, iluminada mostrou a sua nudez a Eros.

Com ferro em brasa, Rosa marcou o tempo, deu brilho ao espelho, onde pôde ver seu verdadeiro rosto e prendeu o fio da vida à sua alma aquecida pelo orgulho de ser ela mesma, em qualquer tempo e não mais procurou no espelho outro rosto, aquele que ficará docemente guardado em sua memória.

Enquanto a  bela Rosa rechaçava o terrror ao passar do tempo, a imagem da nova-velha mulher invadiu o jardim de todas as delícias para o novo alvorecer. 

Não ser mais a linda Rosa juvenil, não mais será sinônimo de tristeza ou ansiedade, ela agora sabe que o tempo tem que desempenhar o seu papel, assim, o tempo segue e, enquanto estivermos de mãos dadas com ele, seremos deuses e deusas a brincar de eternidade.

Neste tempo de agora, a linda Rosa ergue a taça e bebe calmamente o vinho que guarda todos os seus encantos de todos os tempos.

Enquanto o que estava fragmentado ia se recompondo, Rosa voltava a ser ela mesma, agora  não precisava mais de arreios, de grades ou de algemas.

 

(Do livro: COISAS DE MULHER de Sônia Moura)

 ROSA ALGEMADA

O POETA INACABADO

 O POETA INACABADO

O POETA INACABADO (Autoria: SÔNIA MOURA)

 

Entre o corpo e a alma, o que é igual? O que é diferente? Esta era a segunda questão da prova de religião, a primeira era mesmo para que ninguém tirasse zero, estava tão fácil. Resolveu a primeira rapidamente, pois quem tivesse lido, mesmo que de  modo superficial, o capítulo nove, saberia a resposta. Para a segunda questão,  pensou em responder:  – sei lá!, mas desistiu. Tudo estava tão legal, melhor não abusar da sorte. Desligou-se do mundo, pensou em Alfredo, como pôde morrer tão cedo?

É chamada de volta pela voz forte da Irmã Santanna: – Há muitas maneiras de responder a questão número dois, vocês podem escrever uma dissertação, uma narração, uma descrição, uma carta ou um poema. Só não deixem de responder, deixem a imaginação fluir.

Começou a escrever uma dissertação “No mundo existem duas naturezas: a espiritual e a humana… percebemos as diferenças e ….”. Desisto, não dá, não vou conseguir, estou sem inspiração, apesar de que a Irmã sempre disse que para criar  era preciso mais transpiração que inspiração.

Tentou uma carta, mas a quem endereçar? Ao Papa, ao Capelão da escola, ao Bispo, à Irmã Santanna [não, vai parecer que estou puxando o saco dela],  à minha tia Matilda, tão beata, já sei para mim mesma. Desistiu da carta.

O tempo corria e… nada. Tinha que fazer alguma coisa. Começou a escrever, e não conseguia mais parar, estava gestando um poema, e como fluía bem, a caneta bailava sobre o papel. Chegou a sentir a presença do primo, a quem o avô chamava  “o  poeta inacabado”. Por que esta lembrança a rondar seus pensamentos, se, quando ele morreu, ela era uma menina? De onde surgiu esta imagem do poeta da família?

Terminou o poema assim: “Enquanto o poema guardar lembranças de corpo e alma  / mesmo que seja de um poeta inacabado/ o  ritmo da vida nunca será descompassado”.

Tirou a nota máxima. 

 

(Do livro:MINIMAMENTE CRÔNICAS  de Sônia Moura)