O TRÂNSITO DA FELICIDADE

 O trânsito da felicidade

O TRÂNSITO DA FELICIDADE  (Autoria: SÔNIA MOURA)

Julieta gostava de cantar, de dançar e de representar, alegrava-se e alegrava os outros. Um dia chegaram umas pessoas estranhas em sua aldeia, Julieta deu entrevistas, cantou e dançou.
Resolveram que ela deveria gravar um CD, era boa demais para ficar perdida naquele fim de mundo. Julieta daria um bom dinheiro.
Vestiram-lhe roupa nova; calçaram- lhe sapatos. Julieta viajou de avião, foi a lugares que o pessoal da aldeia nem poderia sonhar. Comeu umas comidas diferentes, apareceu na televisão, agora era global.
O mercado tecia a sua renda e prendia Julieta neste novo mundo. Ela gostava de cantar e dançar, gostava de alegrar.
Cada vez exigiam mais e mais dela, que já não tinha vida própria, era dirigida, manipulada, sua alegria precisava dar lucro.
A moça cantava sem parar, sorria sem parar. Os pontos da renda do mercado iam ficando mais fechados, iam envolvendo a nova Julieta tão distante de sua aldeia, de sua gente e da alegria que fazia transitar entre eles.
Chegou um tempo em que renda tornou-se tão densa, tão fechada que Julieta não conseguia soltar-se dela. A moça perdera a graça, a renda era tão grande, tão forte e tão fechada que não mais permitia o trânsito da felicidade.

(Do livro: Minimente Crônicas de Sônia Moura)

O trânsito da felicidade

BAILES E BALÉS

BAILES E BALÉS (Autoria: Sônia Moura)

Será um sonho ou são apenas visões
Sentir tua presença em mim
Convidando-me com doçura a
Seguirmos juntos, de mãos dadas
Feito pássaros libertos
A vagar por aí…?

Seria um sonho ou seriam desejos
Estarmos, como crianças perdidas
No silêncio da noite enluarada
Sentindo a brisa a dançar em mim
Sem querer partir…?

Seria um sonho ou seriam verdades
Que eu acabara de descobrir
Que meu canto te guardou a um canto
Ao longo da estrada que só construí
E só agora apareces no horizonte
E me convidas a andar por aí….?

Será mágica, mistério ou brincadeira de Cupido
Encontrar-te num baile da vida
E, a partir daí, bailar nas mãos da ilusão amiga
Colocando-me em tuas mãos, meu coração,
No bailar dos sonhos me encontrar em ti
A me achar por aí…
A me perder em ti…?

(Do livro POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura

bailes e balés

O AZARADO

 

 azarado

 

O Azarado  (Autoria: SÔNIA MOURA)

 

Ela era linda, toda linda. Que olhos verdes! que corpo! que boca! Diziam que era capaz de parar o trânsito. Mas a antipatia e a arrogância sepultavam sua beleza.
Ele era feio, muito feio, corpulento, massudo, um tanto vesgo. Mas sua simpatia e alegria, conquistavam a todos e faziam do feio, belo.
Nascera-lhes um único rebento. Deram-lhe um cordão com uma conta dourada, precisavam enfeitá-lo, herdara a feiúra do pai e, logo todos perceberam que herdara também a antipatia da mãe.
Coitado!

 

(Do livro: CONTOS e CONTAS de Sônia Moura)

 

 

                                                                    azarado

BATALHAS

BATALHAS (Autoria: Sônia Moura)

Se tivermos que ir às vias de fato
E travarmos uma batalha
Que seja uma batalha de confete

Se tivermos que lutar com espadas
Que as espadas sejam as de São Jorge

Se tivermos que brigar puxando os cabelos
Que seja saboreando cabelinhos de anjo

Se tivermos que nos bater à tapa
Que seja com um tapa-olho de pirata
Das histórias infantis

Se tivermos que nos atracar
Que seja num porto seguro

Se tivermos que nos enfrentarmos à bala
Que seja com balas de festim
Ou com balas coloridas de aniversário

Se tivermos que nos bater num duelo
Que seja com “as armas e os barões assinalados”

Se tivermos que disputar uma queda de braços
Que seja passeando nas cataratas das Sete Quedas

Se tivermos que nos enfrentar em uma luta de boxe
Que seja no boxe do banheiro
Debaixo do chuveiro

Se tivermos que lutar uma luta livre
Que seja apenas o abraço de um amigo

Só estas batalhas valem a pena…

(Do livro: Poemas em Trânsito de Sônia Moura)

Batalhas

ENCONTROS

 ENCONTROS (Autoria Sônia Moura)

Será um sonho ou é esta emoção
Que me faz sentir
Tua presença em mim
Convidando-me a
Seguirmos juntos, de mãos dadas
Como pássaros libertos a voar por aí

Será um sonho ou é o meu desejo
Que, no silêncio da noite enluarada,
Mostra-me que sou criança perdida,
A brincar no meio da roda da alegria
Enquanto você ri da brisa do amor
Que está a morar em mim
Sem querer partir

Será um sonho ou é minha verdade
Que acaba por se descobrir
E entoa o meu canto
Que estava guardado num canto
Á espera do amor que está por vir
O amor que eu espalhei ao longo da estrada
Que sozinha eu construí

Será um sonho ou são minhas visões
Que fazem aparecer em múltiplas janelas
Um mar banhando mil mistérios
E a despejar teu eco sobre mim

Enquanto isto, ao me encontrar em ti
Jogo fora todos os meus receios de amar,
E me esbaldo na liberdade deste mar

Pesco o amor no meio do oceano
E, a partir daí,
Desvio-me todo e qualquer perigo
Depois, faço numa fenda do mar o meu abrigo
Na sanidade dos amantes loucos busco o teu retrato,
Mas o que vejo é o reflexo de minh`alma no espelho d`água

Neste instante, calam-se as vozes dos sete mares
E eu entoo uma canção antiga
Então, teu corpo vem pra junto ao meu
E eu, finalmente, me encontro comigo

Do Livro POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

aMOR, AMOR, AMOR

ESPAÇO AÉREO

 ESPAÇO AÉREO

ESPAÇO AÉREO
(Autoria: Sônia Moura)

Estava distraída
Quando alguém invadiu
O meu espaço aéreo

Imediatamente
Ativei meus caça-fantasmas
Que voaram em defesa dos meus limites
Num momento em que eu estava tão aérea

Tarde demais
O espaço já fora invadido

Não havia mais limites
Eu já havia sido invadida
Não havia mais jeito

O sujeito, abusado, ousado e
Descarado como ele só,
Penetrara sofregamente em meu espaço aéreo

Eu disse a ele: me respeite, sujeito,
E se dê o respeito
Mas não adiantou

O sujeito arteiro
Leu meus pensamentos
Dominou meu coração
Sonegou minha alma flutuante

Tentei bloquear esta invasão
Tentei afastar o invasor
Não houve jeito
Ele já tinha entrado em mim
E tinha me feito sua amante

Meus caças tinham ordens de fazer a escolta
E levar o invasor de volta
Eu não queria deixá-lo ficar
Ordenei, sapateei, mandei-o voltar

Tudo inútil
Havia nele um sei lá o quê

Chegou de repente e
Com aquela voz de manteiga cheirosa
Com aquelas palavras melosas
Com aquela ousadia sem par
Aquele insolente
Dominou o meu espaço
Conseguiu me assujeitar
Penetrou em meus desejos
E, sem parcimônia,
Instalou-se em meu espaço
Que vagava tão aéreo

E, instalado, tomou-me em seus braços
Aninhou-se em meus abraços
Beijou-me a boca
Deixou-me tonta
Louca

Eta! Sujeito,
Que afronta!

Agora não tem mais jeito
Me embrenhei neste sujeito

(Do livro POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

                                                                  caças

CACOS DE LEMBRANÇAS

 CACOS

CACOS DE LEMBRANÇAS
(Autoria: Sônia Moura)

Dos porões das minhas saudades
Recolho tempos
São cacos de lembranças
Nada mais

Mas como valem estes cacos
Que, às vezes, jogamos fora
Expulsando esperanças
Matando nosso eu -criança
Que deveria viver

Os cacos de nossas lembranças
Servem para lavar a alma
E perfumar o dia-a-dia
Naquele tempo ensolarado
Eu não sabia
Que, hoje, neste tempo tão nublado
Eu os recolheria
E os guardaria

Não, eu não sabia

Como plumas minhas aventuras
Agora em cacos, voam ao vento
Como folhas são jogadas ao chão
Mas, por poucos momentos
Colho-as, preciso delas
São minhas lembranças

Hoje, já não sou criança
E, ainda assim, preciso delas
Para adoçar qualquer pranto
Que ouse me invadir
Preciso delas
Para não deixar morrer o canto

Cacos, preciosos cacos feitos de lembranças

Vou juntá-los um a um
Para montar o quebra-cabeça
Para que eu jamais me esqueça
Dos portos em que ancorei
Dos afagos com os quais me deliciei
Dos passeios em que me diverti
Das alegrias que aprendi e
Das mágicas artimanhas
Que outrora vivi

Não, não quero as lágrimas salgadas do passado
Não quero a tristeza, não quero a dor
Das lembranças, quero só a beleza
Todo o resto está morto
Deposto

Quero recompor a vida
Catando os cacos das minhas lembranças

Quero o picadeiro dos dias de domingo
Quero de volta o palhaço que ainda mora em mim
Quero o elefante, o tigre, o leão, sem o domador,  por favor
Quero o homem gigante que engole fogo
(Hoje, já aprendi também a engolir,
Não fogo, mas sapos
A vida é assim)

Quero o circo de outrora
Não o de agora
Quero o circo mambembe
Encravado em minhas memórias
Quero o circo da vida
Quero a minha história

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

CONDESSA DE BARRAL e PEDRO II

 

 

                                      Pedro II

 

Condessa de  Barral  e Pedro II [por: SÔNIA MOURA]

 

 

Acabei de ler o belíssimo livro: Condessa de Barral de Mary Del Priore.

Leitura gostosa. Uma história enigmática e fascinante.

 

D.Pedro e Luisa se viam como almas gêmeas, ainda que a forma de entenderem o amor, em alguns pontos, se distanciasse da visão que se faz do amor até os dias de hoje, esta é sem dúvida uma história da História, mas, fundamentalmente. uma encantadora história do/de amor.

 

Aos que gostam de uma bela história, eu recomendo.

 

                                                AMORES

MUTANTES

Mutantes (Autoria: Sônia Moura)        menino-passarinho

MUTANTES (Autoria: Sônia Moura)

Din-don acordou bem cedo
E foi ver o sol nascer
Subiu na duna mais alta
E começou a cantar
Precisava deste canto
Pra o destino mudar

A manhã se espreguiçou
E a lua foi dormir
O sol mostrou o seu rosto
Ainda com cara de sono
De quem dormiu e sonhou

Din-don se pôs a sorrir
Olhou o horizonte
E ali ficou quietinho
Vendo o dia aparecer
Surgindo atrás do monte

Seu canto foi cantar longe
Para um neném adormecer
E acordar quem precisa
Bem cedo ir trabalhar
Para depois descansar

Din-don era um canarinho
Que uma bruxa muito doida
Há muito tempo encantou
E quem era menino
Em passarinho tornou

Mas Din-don gostou desta história
De viver só a cantar
E agora dizem as más línguas
Que ele não quer mais trocar

Ser um passarinho é tão bom
Mas era preciso voltar
E Din-don arranjou um jeito
De seu destino mudar

Din-don pensou, pensou
E foi com a bruxa falar
Então ficou acertado
Din-don em dois mundos estaria
E lá e cá viveria

Nos dias pares, seria um menino
Correndo pelas campinas
Viveria para brincar
Nos dias ímpares, passarinho
A voar, voar, voar
A cantar, cantar, cantar

E como aquele dia
Era dia de número par
Din-don virou um menino
E depois de muito brincar
Correu até sua casa
E foi ver televisão
Até o dia acabar

No dia seguinte, então,
Tão ímpar como o dia
Dind-don era um passarinho
Que voando sempre ao léu
Foi bem  pertinho do céu
Cantando sem parar
Até o dia acabar

A bruxa, doida demais,
Também gostou da idéia
E passou a viver assim
Um dia ela era bruxa
Que sabia remédios fazer
E no outro era uma fada
Que iria encantar
Mas, o fato é que bruxa ou fada
Iria surpreender

O mundo também é assim
Ninguém é sempre um só
Hoje filha, amanhã, mãe
Hoje neta, amanhã avó
A gente se multiplica
Menino, homem, filho e pai
Menina, mulher, filha e mãe
Ninguém jamais é um só

Não somos como as estátuas
Temos alma e coração
E como o mundo giramos
Somos todos uns mutantes
Vivemos para renovar
Assim como fez Din-don!

(Do livro: Brincadeira de Rimar, de Sônia Moura)