“AMANHÃ É OUTRO DIA!”

 “AMANHÃ É OUTRO DIA!”

 

“AMANHÃ É OUTRO DIA!”  (Autoria: Sônia Moura)

 

Quando desenhas poesias

Sussurradas ao vento

Unicamente para o meu encantamento

Jogas no ar tua semente

Fecundas meu ventre

E abraças minh`alma

Com palavras raras

Que regam as minhas raízes

Quedo-me ante teu olhar pidão

 

E, bem longe dos anos que já se foram,

Nova adolescente a desabrochar

Fingindo negar

Ofereço-te minha flor

Sinto teu falo rijo como a rocha

Solto meus cabelos, libero a fita

Enquanto você me fita com desejo

E eu, feito menina ingênua, faço fita

À espera do macho viril a me penetrar

O corpo e também a alma

Primeiro, tu me excitas

Depois, tu me acalmas

 

Nesta hora,

Enquanto sugo o mel

Do amor mais puro

Ponho-me alheia

A toda confusão

Que este caso encerra

 

E no momento que tua clava

Em mim enterras

Entre as águas do gozo e do prazer

Apenas te peço

Não te ausentes de mim, meu presente,

Por ti, renego o passado

Elimino o futuro

Dou-te minha boca

Para  alegrar nosso presente

 

Entreguemos nosso destino ao tempo,

Vamos viver da melhor forma este momento

Sem limite, sem prazo de validade, sem temor

Pois, como sabiamente Scarlett já dizia

Amanhã é outro dia! 

 

(Da obra: Coisas de Mulher e Sônia Moura)

 

“AMANHÃ É OUTRO DIA!”

 

 

 

 

 

 

 

ROSA ALGEMADA

ROSA ALGEMADA

ROSA ALGEMADA  (Autoria: Sônia Moura)

 Não era mais uma linda Rosa juvenil, mas ainda tinha seu charme, sua graça e muita sensualidade, apenas não as via mais. 

Um dia, saiu a passear e encontrou um desvio.

Pelas mãos inusitadas do destino, aquela flor desconsolada foi tomada por uma alegria febril, ao deslumbrar a bela tarde que se abria em leque numa espécie de magia lírica, feita pelas mãos da natureza, as quais trançaram uma rede sobre o tempo, abolindo os toques de artificialidade, que quisessem neste tempo se instalar.

Também qualquer incerteza que tentasse invadir aquele momento, certamente seria expulsa, porque a poesia já pousara sua mão direita sobre a algema que prendia Rosa, decretando que esta iria se romper brevemente.

Naquele instante Rosa percebeu que a poesia pode nascer de nós mesmos, pela luz de nosso olhar, pela alegria de uma alma bailarina ou pela beleza de um momento de ternura.

Rosa viu ainda que o tempo da linda Rosa juvenil passara e fora intensamente belo, mas há sempre novas alegrias a serem descobertas, há sempre o que se reinventar e se dar luz plena  a cada tempo que colore a flor, ainda que os espinhos do tempo venham em nós pousar.

 A Rosa menina em botão e a linda Rosa juvenil foram os retratos da vida que  vieram à mente de Rosa. Então a Rosa de agora, plena, linda, iluminada mostrou a sua nudez a Eros.

Com ferro em brasa, Rosa marcou o tempo, deu brilho ao espelho, onde pôde ver seu verdadeiro rosto e prendeu o fio da vida à sua alma aquecida pelo orgulho de ser ela mesma, em qualquer tempo e não mais procurou no espelho outro rosto, aquele que ficará docemente guardado em sua memória.

Enquanto a  bela Rosa rechaçava o terrror ao passar do tempo, a imagem da nova-velha mulher invadiu o jardim de todas as delícias para o novo alvorecer. 

Não ser mais a linda Rosa juvenil, não mais será sinônimo de tristeza ou ansiedade, ela agora sabe que o tempo tem que desempenhar o seu papel, assim, o tempo segue e, enquanto estivermos de mãos dadas com ele, seremos deuses e deusas a brincar de eternidade.

Neste tempo de agora, a linda Rosa ergue a taça e bebe calmamente o vinho que guarda todos os seus encantos de todos os tempos.

Enquanto o que estava fragmentado ia se recompondo, Rosa voltava a ser ela mesma, agora  não precisava mais de arreios, de grades ou de algemas.

 

(Do livro: COISAS DE MULHER de Sônia Moura)

 ROSA ALGEMADA

O POETA INACABADO

 O POETA INACABADO

O POETA INACABADO (Autoria: SÔNIA MOURA)

 

Entre o corpo e a alma, o que é igual? O que é diferente? Esta era a segunda questão da prova de religião, a primeira era mesmo para que ninguém tirasse zero, estava tão fácil. Resolveu a primeira rapidamente, pois quem tivesse lido, mesmo que de  modo superficial, o capítulo nove, saberia a resposta. Para a segunda questão,  pensou em responder:  – sei lá!, mas desistiu. Tudo estava tão legal, melhor não abusar da sorte. Desligou-se do mundo, pensou em Alfredo, como pôde morrer tão cedo?

É chamada de volta pela voz forte da Irmã Santanna: – Há muitas maneiras de responder a questão número dois, vocês podem escrever uma dissertação, uma narração, uma descrição, uma carta ou um poema. Só não deixem de responder, deixem a imaginação fluir.

Começou a escrever uma dissertação “No mundo existem duas naturezas: a espiritual e a humana… percebemos as diferenças e ….”. Desisto, não dá, não vou conseguir, estou sem inspiração, apesar de que a Irmã sempre disse que para criar  era preciso mais transpiração que inspiração.

Tentou uma carta, mas a quem endereçar? Ao Papa, ao Capelão da escola, ao Bispo, à Irmã Santanna [não, vai parecer que estou puxando o saco dela],  à minha tia Matilda, tão beata, já sei para mim mesma. Desistiu da carta.

O tempo corria e… nada. Tinha que fazer alguma coisa. Começou a escrever, e não conseguia mais parar, estava gestando um poema, e como fluía bem, a caneta bailava sobre o papel. Chegou a sentir a presença do primo, a quem o avô chamava  “o  poeta inacabado”. Por que esta lembrança a rondar seus pensamentos, se, quando ele morreu, ela era uma menina? De onde surgiu esta imagem do poeta da família?

Terminou o poema assim: “Enquanto o poema guardar lembranças de corpo e alma  / mesmo que seja de um poeta inacabado/ o  ritmo da vida nunca será descompassado”.

Tirou a nota máxima. 

 

(Do livro:MINIMAMENTE CRÔNICAS  de Sônia Moura)

Perfil de Uma Realidade

perfil de uma realidade

PERFIL DE UMA REALIDADE (Autoria: Sônia Moura)

 

Vi minha alma caída no chão

E ao lado dela havia um imenso dragão

Pondo lenha na fogueira da minha dor

Queimando o rastro do meu amor

 

E pelos olhos de minh´alma abatida

Sentia a ilusão esvair-se em horror

Porque não havia outro jeito

Tua partida já brilhava ao longe

Cambaleante, saindo de cena

Agora tu irias desempenhar outro papel

 

E no meio disto tudo

Dando lugar a um cruel real

Um anjo mal bebia aos goles a minha dor

Enquanto temperava a minha angústia rota

Com um veneno fatal, gota a gota

 

E num outro canto do cenário

Aves de mau agouro

Com suas garras apontavam

Todo o sofrimento vindouro

Piando seu canto de morte

E tu te afastavas mais e mais

Estavas entregues às asas gulosas

De aves de rapinas poderosas

Disfarçadas de ninfas-meninas

A te devorar a alma e os pensamentos

Afogando-te em carinhos caprichosos

Enquanto apagavam nosso amor

De tua mente confusa, obtusa,

Sangravam o teu insensato coração

E tu te deixavas levar pela mão da vaidade

E  pelo sorriso maroto da esbórnia

 

Num outro cenário

Meu coração multiplicava a saudade

E minha alma triste, cansada,

Se desfazia em lágrimas e silêncios

Jogando no ar seu grito de terror

Sem nexo, sem lógica, sem cor

Sem real, sem fantasia, sem nada…

E tu, perdido no meio da ilusão,

Não tinhas direção

Não tinhas ação

Não tinhas coração

Apenas seguias a maldade,

Fantasiada de amor e de alegria

 

E minha alma, despedaçada, no chão,

Vivia o inferno de todos aqueles

Que se perdem em mares bravios

Vivia o inferno de todos aqueles

Que contraem os piores males

Vivia o inferno de todos aqueles

Que se perdem em mesas de bares

 

No momento exato da tua partida

Formou-se uma louca tempestade

E lavou da minh´alma a desilusão

Limpou meus olhos da escuridão

Tirando meus sonhos do fundo do porão

 

Depois um sol intenso se mostrou

E secou minhas lágrimas

Secou minhas dores

E em solo fértil

Replantou novos amores

 

Nesta hora,

Tu te fostes para nunca mais voltar,

Teu navio se perdeu na imensão

De um mar, enterrado na podridão

Minh´alma feliz voltou à vida

Desejando nunca mais te encontrar…

 

(Do livro: Coisas de Mulher de Sônia Moura)

perfil dde uma realidade

 

A Hora da Partida

 

A hora da partida

A Hora da Partida (Autoria: Sônia Moura)

       

        Arrumou as malas, arrumou os cabelos, arrumou a casa, arrumou a conta vermelha que enfeitava o brinco. Saiu batendo a porta. Ninguém estava ali para despedir-se dela.

Arrumou as lágrimas, arrumou um sorriso, arrumou o vestido. O avião levantou voo. Arrumou-se na poltrona, adormeceu. Na verdade, esta era a hora da partida. Só assim ela arrumou a vida.

 

(Do livro: Contos e Contas de Sônia Moura)

 

A hora da partida

AZUL, TUDO AZUL

 AZUL, TUDO AZUL

AZUL, TUDO AZUL (Autoria: Sônia Moura)

Um azul cruelmente belo surgiu na escuridão e transformou aquele momento em um instante sereno, mesmo que se pensasse ser inconciliável aquela tristeza e o azul profundo, era o que estava acontecendo ali.

O que estava em jogo era uma velha e repetitiva história, tão comum e tão rara, mas Andressa, a maga, sabia que a roda do destino iria dar solução àquela velha e, paradoxalmente, inusitada história.

 Mexendo uma infusão de flores, raizes e folhas, Andressa procurava afastar a sombra do passado, tentando apagar antigas imagens que teimavam em reaparecer, refletidas no azul que o espelho reprisava.

Os laços de amor entre Rui Calvera e Flora Molina foram desfeitos dias antes do casamento por causa de uma coruja, que aparecera na porta da mansão dos Calvera. Bem, era o que todos diziam.

Supersticiosos ao extremo, os Molina acreditavam que esta aparição era um sinal de mau agouro, este casamento estaria fadado ao fracasso. E, pensando assim, resolveram que era melhor prevenir que remediar.

Excessivamente dominado por seus pais, Rui seguiu as determinações destes, embora sofresse horrores, uma vez que adorava sua Flora e a noiva parecia que ia morrer, tamanha a tristeza que se apossou do seu amargurado coração.

A superstição popular diz que as corujas adivinham a morte com o seu piar e esvoaçar, mas, por outro lado, a coruja também é considerada o símbolo da inteligência, da vigilância, da meditação e da capacidade de enxergar nas trevas. Eis o enigma da simbologia.

Assim, tal qual uma coruja, a maga Andressa, que enxergava no meio a trevas da ignorância e podia avaliar muito bem o sofrimento causado pela perda de um amor, resolveu dar uma mãozinha aos amantes.

Foi à casa do rapaz e ofereceu-lhe uma xícara de um saboroso chá e um poema, com uns versos que diziam assim: “Meu coração não quer libertar-se do seu amor/ Meus olhos jamais dirão adeus ao seus/Pois nossos destinos foram traçados pelos céus/E jamais conseguiremos nos dizer adeus!”

Para a moça, a maga levou um ramo de flores muito aromáticas e uma imagem de Cupido, com a seguinte inscrição: “A vida será mais bela, se meu prêmio for o seu coração.”

Depois desta visita…

Foi-se embora o sofrer, os amantes resolveram abrir seus corações e suas mentes, deram vez ao amor, despacharam a dor, isolaram as superstições e as dúvidas, romperam com o mundo da escuridão ao consumarem o seu amor.

Foi assim que um azul intenso apagou de suas vidas o fatídico dia, em que a aparição de uma coruja quase tomou o lugar da magia da felicidade.

Até hoje todos dizem que tudo foi obra da magia de Andressa, porém ela nega tudo. Sorri e diz faceira: obra de minha magia? Qual nada, isto foi obra da poesia e do Amor.

 

(Do livro: Coisas de Mulher, de Sônia Moura)

 

 AZUL, TUDO AZUL

 

 

 

 

 

 

Fogo Cruzado

 Fogo Cruzado

Fogo Cruzado

(Autoria: Sônia Moura)

 

 

 Pintou os cabelos, começou a fazer ginástica, comprou roupas novas. Pendurou uma conta dourada no pescoço.

A mulher pensou: Será que ele tem outra?

Mal sabia ela que toda esta mudança era porque ele achava que ela tinha outro.

 

 

(Do livro: Contos e Contas de Sônia Moura)

 

Fogo Cruzado

 

SONHOS DE UMA NOITE

 SONHOS DE UMA NOITE

SONHOS DE UMA NOITE  (Autoria: SÔNIA MOURA)

 

Minha alma está suspensa

 

Hoje eu só quero sonhar

Não me acordem, pois.

 

Deixem meu pranto guardado

Em algum lugar

Pois hoje eu só quero sonhar.

 

Tragam-me flores,

Deixem minha cama acesa

E quem nela comigo estiver

Que faça eu me sentir sua presa.

 

Vasculhem os mares

E tragam-me o colorido de um coral

Enfeitem com ele a minha cabeça

Façam-me deusa

Ainda que eu não mereça.

 

Unjam meus lábios com o mais puro mel

Para que eu só possa dizer palavras doces

Tragam-me um manto orvalhado

E bordado com raios do sol

Não quero ficar só

Tragam o meu rei, que venha o meu amado.

 

 

Quero serafins aos meus pés ajoelhados

Quero dos querubins cânticos encantados

Sou anjo aqui na terra destinado

A ser feliz, a amar e ser amado

A colher deste jardim terreno

Flores do bem, belezas serenas

E a participar de todas as orgias terrenas

 

Não me condenem

Porque os céus já me sentenciaram

Ao prazer eterno, livrando-me da dor

Rasgando qualquer lei que me aprisione

Arrebentando qualquer tipo de corrente

Fui criada assim, sou livre

Para viver intensamente

O que há de melhor no amor

 

Em meu sonho delirante

Estou em cima de um carro alegórico

Brilho fortemente na avenida da vida

Escrevo o meu próprio enredo

Vivo esta vida esplendorosa, sem medo

Meu rosto sorrindo está estampado

Em todos os jornais e tem mais

Proponho-me à exposição desenfreada

Neste mundo louco, sem me importar com nada

 

 

Ao final da festa, só quero alegria de uma criança

Sonho o meu sonho, vestida com a cor da esperança

Amando a vida com o coração aberto

Quero ver Tristão e Isolda para sempre enlaçados

Ordeno outra sorte para Romeu e Julieta

Meninos eternamente apaixonados

E que Marias, Joões, Belas e Feras

Sirvam ao amor, sendo eternamente enamorados

Para que todos vivam a aventura do amor irreversível

E que sejam felizes para sempre, isto é possível!

 

(Do livro: COISAS DE MULHER de Sônia Moura)

  SONHOS DE UMA NOITE 

 

A PÉROLA E O AMOR

 A PÉROLA E O AMOR

A PÉROLA E O AMOR  (Autoria: Sônia Moura)

 

Nas águas da ilusão

Nadando na contramão

Mergulhei num mundo mágico

Cheio de corais e flores

Procurava pela verdade

Aquela que esconde

Todo o mistério do amor

 

Fingindo estar bem à tona

Mas, muito bem escondida

Nas dobras do coração,

E nas nuvens da sedução,

A verdade do amor

Assistia à minha aventura

E a minha loucura, aplaudia

 

Ao buscar do amor a verdade

Tive que ir bem fundo

Até o fim da cavidade

Vasculhei águas do mundo

Levantando muitos véus

Numa procura ao léu

 

Depois de muito procurar

Pelas entranhas do mar

Mergulhei mais fundo ainda

E não encontrei a verdade

Descobri que a verdade do amor

Espreitando-me por um fresta

Do dique que iria arrebentar

Antes mesmo de a festa começar

Confabulava com a saudade

Dizendo que a mim

Logo iria se mostrar

Foi quando uma pérola perfeita

Sobre meus pés se acomodou

E uma voz no mar se ouviu

E dizia: – Aqui estou!

 

E eu, tola e muito crente,

Sorria pra toda gente

Dizendo: – Achei, achei!

Então mostrei

O que eu julgara que fosse

A verdade do amor

A todos que encontrei

Era uma pérola tão linda

E tão dura quanto uma pedra

Nascida do sofrimento

De uma ostra apaixonada

 

Mas, que nada!

Eu estava enganada

Pois a verdade do amor

Mudara-se pela manhã

Para um colorido coral

– Onde estás, gritava eu,

Mas ela não respondia

E cada vez mais se escondia

Deixando-me a ver navios

Mostrando-me um desafio

Difícil de enfrentar

Então

Desisti de esta verdade decifrar

Porque a verdade do amor

Não deseja se revelar

Para encontrá-la

O melhor que se faz é amar

 

 Assim, jogando o sal ao vento

Seguindo  o meu destino

Deixei o fundo do mar

E fui fundo no doce do amar

Deixei a verdade exilada,

Presa nas profundezas do mar

Quem quiser que vá buscá-la

Agora eu só quero amar…

 

(Do livro: Coisas de Mulher de Sônia Moura)

 A PÉROLA E O AMOR

O IMPONDERÁVEL

O IMPONDERÁVEL

O IMPONDERÁVEL  (Autoria: Sônia Moura)

 

Era mais ou menos como estar isolado em uma ilha, Alice estava só em seu mundo, em sua ilha, presa ao imponderável.

Imersa em seus pensamentos, imaginava Ramiro nos braços da outra, não haveria testemunhas, havia somente a solidão a brincar, libertina, com os sentimentos alheios, enquanto o olhar de Alice vagava pela fantasiosa ilha dos amores, de todos os amores pintada em sua memória, em seus mais belos sonhos.

Embora quisesse seguir o seu caminho, Alice sempre se afastava dele, pois em sua linha da vida só a figura de Ramiro parecia desenhar o seu destino, ainda assim, algumas vezes e sem muita convicção, a mulher tentara livrar-se da tatuagem incrustada em suas lembranças, mas estas foram tentativas vãs, ainda que tentasse, a moça não conseguia apagar as profundas marcas do passado, não conseguia libertar-se da prisão sem grades onde se metera e de onde não conseguira mais sair.

O mundo rodava tão devagar, pensava Alice, enquanto sua cabeça rodava muito depressa, mas para ela nada saira do lugar,desde que o seu amor partiu, sem dizer adeus. Em seus pés, uma imensa bola de ferro, também invisível, a imobilizava mais ainda, evidenciando aquele surreal prisão concedida e negada.

Era preciso fugir daquela clausura em que se metera, mas como se ela ainda sentia que aquela dor era essencial para que pudesse continuar sentindo-se viva? Mas como se aquela estranha sensação confundia-se com a evidente verdade: ela precisava voltar à vida, de fato, mas não queria livrar-se da presença de Ramiro?

Em seus pensamentos, setas apontavam para várias direções, bastava que ela escolhesse uma delas para fugir dali, Ariadne tinha deixado seu fio, portanto Alice deveria seguir por ele e encontrar a saída do labirinto.

Mas a amargura e dor plantadas em seu coração dificultavam a escolha de um caminho e, assim, na obscuridade total, Alice inundava seu silêncio com palavras rudes, com as quais desejava manchar a imagem daquela que a deixara, mas, sem permitir que ele sumisse de sua vida, sem deixá-lo partir para sempre.

A cada tentativa, uma nova recaída, e lá ia Alice refugiar-se no seu fantasmagórico país das maravilhas, escondido no oco de sua mente. Isolara-se do mundo real e criara um mundo de angústia e fantasia, no qual um lindo castelo lhe servia de abrigo e reforçava a sua solidão.

Encerrada em si mesmo, Alice só conversava com os seres imaginários do seu país das maravilhas e só transportando-se para este mundo ela podia sonhar, lá ela podia fazer uma condensação expressiva dos melhores dias de sua vida de outrora e revivê-los a hora que ela bem entendesse .

O tempo foi passando e Alice não viu que a erva daninha crescia ao redor de seus sonhos e os sufocava lentamente, e, junto com a morte de seus sonhos, o castelo construído por sua solidão ia desmoronando aos poucos e, no final desta história, o seu mundo tornou-se totalmente escuro, ninguém mais habitava o seu país da fantasia e Alice acabou seus dias sozinha.

 

Do livro: COISAS DE MULHER de Sônia Moura)

 

 O IMPONDERÁVEL