(ÍMÃ)GENS

 (ÍMÃ)GENS

(ÍMÃ)GENS (Autoria: Sônia Moura)

Imagens mudas surgiram na noite a me atormentar
Imagens falantes nasceram de dia a me consolar
Imagens tão puras vararam à tarde para me afagar
Imagens lascívias brotaram na madrugada para me amar
Imagens alegres surgiram de dia para me envolver
Imagens dissimuladas nasceram à tarde a me maldizer
Imagens mascaradas vararam a noite para me comover
Imagens de pássaros voaram na madrugada a me embevecer
Imagens feiticeiras ilustraram meu sonho a me seduzir
Imagens matreiras criaram uma estrada para me conduzir
Imagens sem face surgiram na lembrança a me confundir
Imagens sem alma nasceram das sombras só para me ferir

Imagens esculpidas em noites, tardes ou manhãs
Imagens renascidas em sonhos ou por lembranças vãs
São espectros de retratos presos na memória
Por poderosos ímãs a magnetizar nossa história

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

(ÍMÃ)GENS


APENAS PALAVRAS

 APENAS PALAVRAS

Apenas Palavras  (Sônia Moura)

Chove bastante lá fora e em meu coração também, comprova Maíra. Tudo nublado, triste, sombrio, apenas as gotas que escorrem pela vidraça, exibem um toque de beleza e alegria, quando a luz artificial bate sobre elas e as transforma em contas multicores. Enfim, o que traz beleza à cena é nascido do artifício, assim como é totalmente artificial o amor que ela vive neste momento. Ela fecha seu diário e se põe a devanear sobre o poder das palavras.
Se eu pudesse, transformaria minhas palavras em aves com seus bicos pontudos, e pediria para que elas puxassem os sete véus que escondem as artimanhas do amor, só então eu poderia ver em que caminho o verdadeiro amor se esconde.
Se eu pudesse, mandaria minhas aves – palavras, com seus olhos argutos, voarem por aí, para encontrarem as ternuras perdidas e trazê-las de volta, ao invés de as deixarem soltas no meio deste furacão, onde sentimentos são desmantelados e jogados ao léu.
Se eu pudesse, daria asas às minhas palavras, para que elas sobrevoassem os oceanos, até encontrarem um porto seguro para eu aportar e lá ficar a contemplar mansamente o infinito.
Se eu pudesse pediria que minhas palavras me levassem em suas grandes asas para visitar estrelas e outros céus, até eu encontrar um lugar, onde me fosse permitido sonhar.
Maíra apaga a luz, as gotas perdem o brilho, enquanto ela vai dormir, desejando que aquele amor artificial também se apague de sua vida.
No fundo, ela sabia que este desejo era forjado apenas por palavras sem asas.

(Da obra: CONTOS & CONTAS de Sônia Moura)

APENAS PALAVRAS

ALMAS ABANDONADAS

 ALMAS ABANDONADAS

ALMAS ABANDONADAS (Autoria Sônia Moura)

É tempo de dias nublados, decadentes
Quando o cinza arrasta suas grossas correntes
Pelos desvios de manhãs pálidas e vazias
E pelos becos zanzam madrugadas sombrias
Que matam os sentidos de palavras desertas
Jogando seus restos por fendas abertas
Em desertos onde a areia fria
Mostra o silencio de uma noite arredia
Na qual pássaros, em suas árvores nuas,
Entoam cânticos tentando alcançar a lua
Que se esconde por trás de uma nuvem escura
Deixando homens e pássaros a sua procura
Enquanto a virgem da manhã dourada
Adormecida ao pé da madrugada
Sorri para o poeta que canta em versos
Seu louco e destemido amor transverso
E em socorro das rotas almas abandonadas
Deuses descem dos céus em revoada
Para alegrar-lhes com uma nova alvorada

(Da obra: POEMAS em TRÂNSITO de Sônia Moura)

ALMAS ABANDONADAS

O LEQUE ABERTO

 O LEQUE ABERTO

O LEQUE ABERTO  (Sônia Moura)
Bruto que só, sempre que podia, Antônio dava um jeitinho de desmerecer sua mulher. Ela, baixava a cabeça e ia chorar no canto. Nazaré dependia dele, para tudo.
Namoradas? Antônio tinha-as aos montes, usava-as e depois as descartava, assim como fazia com a mulher, que só servia para servir-lhe, nada mais. Nazaré não reclamava de nada, nem das namoradas, nem dos maus tratos, nem do abandono. Não reclamava de nada, apenas abanava-se, tentando espantar a dor.
Refugiada em sua tristeza, criava o mundo sonhado, nele, ela era rainha e princesa, era amada e amante, era dama e cortesã, e, quase sempre, era uma maravilhosa gueixa. E Antônio? Este nem existia, não era sequer sombra, não era nada.
A mulher vestia suas fantasias, vivia um grande amor romântico, achava o seu Romeu, o seu príncipe encantado.
De todas as personagens por ela criados, a de que Nazaré mais gostava era a gueixa Chinuá, uma linda japonesinha, que, com o seu leque e seu olhar sedutor, arrebatava corações.
Antônio nunca notara que Nazaré tinha uma infinidade de leques, cada um mais belo que o outro, na verdade, Antônio não percebia nada ou ninguém naquela casa.
Entre muitos leques de sua coleção, um era o preferido, o vermelho, com flores branquinhas, tendo como miolos pequenas contas amarelas. Este leque tinha lugar especial no aposento do casal e nos sonhos de Nazaré.
Um dia, Nazaré vestiu seu quimono de gueixa, abriu seu lindo leque vermelho, sentiu-se forte, sentiu-se livre e, naquele momento mágico, saiu porta a fora, sem olhar para trás e nunca mais voltou. Saiu pelo mundo a abanar-se com o leque florido e a espantar qualquer sombra de Antônio que ousasse se aproximar dela.

(Da obra: CONTOS & CONTAS de Sônia Moura)

RAINHA

 rainha

Rainha  (Autoria: Sônia Moura)

Cansada da vida de rainha, resolveu fazer uma viagem mágica, embarcou em uma concha madrepérola, conduzida por uma andorinha azul e saiu pelo mundo a sobrevoar mares e a se embrenhar nas florestas dos ares.
Passou pela cidade onde só moravam fadas, ganhou de presente favos de mel, colhidos em colmeias das abelhas que adoravam o deus sol e, foi segurando nas raízes do sol, que a rainha seguiu viagem.
E, num fim de tarde, numa caixa rodeada por cortinas transparentes, chegou a seu destino, desembarcou na estação do tempo eterno e foi coroada com flores e contas com as cores da poesia.
Só assim Natércia sentiu-se, de fato, rainha.

(Da obra: CONTOS & CONTAS de Sônia Moura)

rainha

SALVO PELO GONGO

  salvo pelo gongo

Salvo pelo Gongo  (Autoria: Sônia Moura)

Naquele dia, Elias, um pacato cidadão, saiu mais cedo do trabalho, precisava resolver uns assuntos lá pelos lados da zona sul. Depois de tudo solucionado, decidiu não voltar para a empresa, iria aproveitar para passear um pouco, olhar o mar, olhar as lindas lojas daquela região. Há tanto tempo não desfrutava destes simples prazeres…
Passeando pelo bairro nobre, os olhos sensatos de Elias se encantaram com um colar de contas âmbar e, deste aquele instante, não pensava mais em outra coisa. Aquela joia virou uma ideia fixa, mas ele não tinha condições para comprá-la, então, começou a pensar num modo de adquiri-la e concluiu que só havia um jeito de ter aquela preciosidade, iria roubá-la.
Tirou férias no trabalho. Observou horários, funcionários, câmeras e seguranças da loja e planejou tudo tim-tim por tim-tim. Precisava agir sozinho.
Chegou o dia D, Elias estava confiante, mas, na hora H, uma dor de barriga, dessas de incapacitar qualquer um, frustrou os planos perfeitos de Elias, assim ele desistiu da ideia.
Elias voltou a olhar a vida com os mesmos olhos sensatos de antes do enfeitiçamento, a diarréia  salvara o pacato cidadão de se tornar bandido.
Ele foi salvo pelo gongo.

(Da obra: CONTOS & CONTAS , de Sônia Moura)

salvo pelo gongo

MISTÉRIOS

 MISTÉRIOS

MISTÉRIOS (por Sônia Moura)
-Tem gente que é feita de sonhos! Disse Maria, olhando para o céu estrelado, que cobria a ilha dourada. Ri de suas palavras, mas sabia que ela estava certa, eu mesma era feita de sonhos.
Tudo para mim, naquela noite, tinha a face do mistério. De onde a conhecia? Maria não respondeu à minha pergunta, apenas cantarolou uma canção de menina.
Sorri um sorriso desassossegado. Maria me olhou e disse que tudo iria se resolver logo, era só esperar. Disse isto e voltou a brincar com o rosário de contas verdes, assim como o seu olhar que tinha a mesma cor verde da esperança, realçando as delícias de uma sonhadora, na alma de menina.
Sentadas à beira do cais, com a brisa a embalar aquele momento, deslumbradas, vimos uma lua nova nascer da barriga de uma nuvem bem gorda.
Maria aproveitou aquele parto feito no céu, para falar comigo sobre as flores do jasmineiro, plantado na porta da pousada, onde eu estava hospedada.
– O jasmineiro resolveu que iria recostar-se no muro de pedras, tinha toda a liberdade do mundo, mas quis agarrar-se às pedras duras daquele muro, por que será? Perguntou-me a menina.
Com a face banhada pela luz do luar e por sua própria luz, Maria respondeu à pergunta que ela mesma fizera.
– Sabe o que eu acho, o jasmineiro pretende proteger suas flores, você já viu como o vento aqui é forte? Quantas vezes nos agarramos a “muros de pedras”, para afastar a solidão, quantas vezes ficamos esperando que um milagre aconteça para que neste reencontro entre a flor e a pedra, o mistério da vida faça germinar algo novo?
Neste instante, uma voz antiga chamou-me pelo nome. Voltei-me e vi, à luz do luar, uma imagem do passado que viera me confortar, então, a Maria que um dia eu fui, sorriu para mim, transformou-se em um lindo pássaro azul e saiu pelo mundo a voar.
Mistérios!

(Do livro CONTOS & CONTAS de Sônia Moura)

mistérios

Silêncio

 silencio

Silêncio (por Sônia Moura)

Entregou à mulher amada uma belíssima jóia em forma de flor, cujo miolo era representado por uma conta perolada, e, junto com ela, entregou para sempre seu coração apaixonado, a quem jamais o amaria verdadeiramente. E, desde este dia, sua alegria foi só silêncio.
Coitado.

(Da obra: CONTOS & CONTAS)

silencio

FALSA PROMESSA

 FALSA PROMESSA

FALSA PROMESSA  (Autoria: Sônia Moura)

 

 Aboli o tempo

Dispensei o vento

Emudeci palavras

Destruí imagens

Abandonei viagens

Dei sentido ao nada

Adorei vários deuses

Fiz da tarde madrugada

Dei voz ao mar

Bebi a luz do luar

Corri pela cidade

Inteiramente nua

Busquei teu rosto

Em cada cidade

E em cada rua

Subi à torre

Para te alcançar

Arrebentei correntes

Só pra te encontrar

Cantei estranhos cantos

Emoldurei o teu retrato em ouro

Atirei-me em doidas aventuras

Fiz-me ave de bom agouro

Beijei lábios sedentos por loucuras

Enxuguei lágrimas ressecadas

Desci pelo corrimão da escada

Embriaguei-me na rima da saudade

Acreditando num amor que nem nasceu

E que um ser ardiloso

Um dia me prometeu

E depois eu descobri

Que tudo era uma falácia

Pois só quem viveu este amor

Fui eu

 

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

FALSA PROMESSA

FUTURISMO

 FUTURISMO

FUTURISMO (Autoria: Sônia Moura)

Chamava-se Marinete, diziam que o pai, homem que amava as letras, lhe dera este nome em homenagem ao poeta Filippo Marinetti.
Desde sempre a menina mostrava estar além do seu tempo. Quando bebê e em criança era até engraçadinho ver as peripécias dela, mas, ao chegar à juventude, tudo mudou.
Marinete era o que a sociedade da época chamava de amoral e imoral, namorava todos e todas, sem o menor pudor, não escondia de ninguém seus desejos e loucuras. Gostava do hoje e muito mais do amanhã, vivia correndo, abominava tudo o que não fosse tecnológico, adorava uma briga, exaltava as guerras e, quase sempre, tentava resolver tudo por meio de atitudes violentas. Ela adorava as cores fortes e as usava em suas roupas, em seu quarto e em todos os seus pertences.
Dizia que as palavras precisavam ser livres, por isto as usava sem a menor cerimônia, às vezes, palavras de baixo calão, impropérios e grosserias saiam da boca da moça com a mesma facilidade que se engole água fresca, pois, para ela, isto era brincar com as palavras, Marinete não gostava das regras da língua mãe.
No entanto, havia um objeto que desbancava todos estes conceitos e o comportamento espevitado de Marinete, era uma medalhão em ouro velho com uma conta vermelho-sangue, presente da avó materna.
Sempre que punha o medalhão, Marinete se transformava totalmente, passava a ser uma dócil e gentil jovem. Alguns diziam que era o espírito da avó, uma romântica convicta que se apossava dela, e, quem defendia esta ideia dizia que ela era médium, daí as transformações tão repentinas.
E, também, dizem, até hoje, que o pai se arrependeu amargamente em ter colocado este nome na filha, pois, segundo ele, a filha não entendeu o recado do poeta.

(Do livro: Mistérios e Saudades de Sônia Moura)

FUTURISMO