DOMINGO MAMÃE

                                                                                DOMINGO MAMÃE

DOMINGO MAMÃE  (Autoria: Sônia Moura)

 

Domingo

Chuvoso

Manhoso

Dengoso

 

Domingo

Com gosto

De carinho

De ninho

 

Domingo

Para animar

O coração

Acordar

A emoção

 

Domingo

Ornando

Uma manhã

Louçã

 

Domingo

Em forma de

Poesia

De alegria

 

Domingo

Em flor

Em tons de

Amor

 

Domingo

Bordado em

Rosas

Para mamãe

Oferecer

E docemente

Dizer

Mamãe,

Amo você!

 

(Do livro: Coisas de Mulher de Sônia Moura)

 DOMINGO MAMÃE

 

 

 

MULHERES REBOCADAS


MULHERES REBOCADAS (Autoria: Sônia Moura)  MULHERES REBOCADAS

 

Raptaram  a Helena

Dizem que ela era um pedaço!

Roubaram as Sabinas

Faltava mulher no espaço

Esculpiram  a Vênus

Espetacular, mas sem braço

Desenharam Afrodite

A deusa que do mar chegou

E aos deuses endoidou

Tentaram a Eva

Mas, dizem que foi ela

Que ao “pobre” do Adão tentou

E a boboca se calou

E a fama de pecadora

Eternamente levou

 

(Os homens não suportam a solidão,

Da mulher não abrem mão

Só não sabem como com elas lidar

Por isto capturam, roubam, esculpem

Desenham tanta mulher

É um jeito de tentar nos dominar

Ou é um jeito de mostrar

Que a nós estão a se curvar?)

 

Pra nos honrar temos a Lilith

Sabia que ela se rebelou?

Abandonou o “pobre” do Adão

Não quis ficar por baixo dele

Em nenhuma forma de relação

Protestou dizendo assim:

Eu também fui feita de pó

Por isto sou sua igual

Vou ficar por cima, que tal?

Juntou-se a anjos caídos

Casou-se com quem bem quis

Voltou e tentou Adão

Foi chamada de demônio

Foi em frente

Deu de ombros

E dizem as boas

E as más línguas

Que vive num paraíso

E é muito, mais

Muito feliz,

Pois se libertou do jugo

E sempre fez o que bem quis!

 

(Do livro: COISAS DE MULHER  de Sônia Moura)

 

 

                                             

GOTA D´ÁGUA

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GOTA D´ÁGUA (por Sônia Moura)

 

Maria acordou com lágrimas nos olhos, embaçando o raiar do seu dia, era o coração que lhe saltava pelos olhos.

As coisas do coração são, quase sempre, lançadas ao mundo através dos nossos olhos ou dos nossos olhares, pois são eles que liberam, gota a gota, nossas emoções, que saltam como as águas das lindas corredeiras ou apenas em forma de uma gota d´água ou como uma quantidade tão grande de uma catarata em época de cheia, de qualquer modo, em nossos olhos a tristeza brota como um olho d´água e quem sabe em que mar a dor irá se transformar? Pensei cá com os meus botões.

Para aplacar a dor e a tristeza por um amor que estava se esvaindo, ela começou  a cantarolar baixinho e num tom nublado, como esta manhã de quinta- feira, a canção do grande Chico Buarque que diz assim:

                       

“Deixe em paz meu coração,

ele é um pote até aqui de mágoa,

e qualquer desatenção,

faça não, pode ser a gota d´água…”

 

Olhei aquele rosto de menina e comparei-o os seus olhos marejados em aos meus em um tempo que já vai longe. Constatei que em qualquer tempo a dor da perda, de qualquer perda, ou mesmo da ameaça desta, é sempre igual.

Voltei no tempo e me vi menina a chorar por um amor perdido e que jamais iria voltar. A dor da solidão pode ser comparada a um bosque escuro, que não é visitado por passarinhos, em cujas árvores não nascem flores nem frutos, nela também não há borboletas, nem lagartas, pois as raízes de suas árvores apodreceram. Neste bosque, só mora o silêncio amedrontador, não há risos, só o som de prantos se faz ouvir.

Nesta hora de dor, quase sempre as palavras perdem o sentido, ficam amareladas, gastas, sem força, sem nexo, elas colidem nos ouvidos sofridos e lhe embaralham a mente, enquanto  a clareza vai morar noutro lugar.

Esbocei algumas tímidas palavras para dizer àquela menina que só o tempo poderia ajudá-la, mas desisti, não iria convencê-la a não se deixar sofrer tanto assim, pois sei que, naquele momento,  isto seria impossível.

Ainda assim, disse-lhe que os densos bosques, um dia recebem a luz do sol ou o brilho do luar ou de alguma estrela pode penetrar-lhe as entranhas, fazendo-o florescer outra vez, para que todos venham banhar-se em seus rios, comer de suas frutas, descansar à sombra de suas árvores, pois os gnomos e as fadas da floresta virão para desfazer este sofrer de algum ser malvado que estava destruindo este amor.

Ela riu um riso com cheiro de flores silvestre e em seu olhar duas estrelas, ainda que meio apagadas, recomeçavam a brilhar.

 

(Do livro: Coisas de Mulher de Sônia Moura)

 

 

 

 

 

 GOTA D´ÁGUA

 

 

ULTRAPASSE SEM LIMITES!

 

 Farra

ULTRAPASSE SEM LIMITES!   (Autoria: Sônia Moura)

 

Nem que seja por um dia:

 

Ultrapasse os Limites!

Ultrapasse seus Limites!

Ultrapasse todos os Limites!

 

Faça do recatado e sereno ambiente,

Que é a sua vida,

Um verdadeiro carnaval,

Se a coragem bater,

Faça da vida e de sua eterna lida

Uma grande bacanal

Cuidado!

Tem gente que vai te condenar

Deixa pra lá…

Ou faça uma festa de S.João, 

Só não solte balão,

Melhor é soltar um rojão

Seja arrojado ou arrojada

Não pense em nada,

Pois a vida é uma intrincada malha

E nós, pobre mortais,

Vivemos sempre nos equilibrando

 No fio da navalha

Você pode pensar:

“-Ih! Assim vou me cortar

O que importa?

Se o sangue jorrar,

É só depressa estancar,

E sair para brincar,

Para se esbaldar, até o dia raiar,

Até o amor se cansar,

Até a noite chegar,

E se o dia escurecer

É só dar “um chega pra lá”,

Você só não pode vacilar,

Deixe seu mundo oscilar

Entre o céu e o inferno,

Entre o antigo e o moderno,

Entre a candura e a loucura,

Tanto faz, diga a si mesmo:

“-  Eu quero é mais!”

Não pense nunca “isto não se faz”,

Siga em paz com o seu sorriso,

Siga junto com seu amigo,

Siga ao lado do amor preciso,

Só não pense em equilíbrio,

O negócio é balançar,

O negócio é bagunçar,

O negócio é namorar,

Sem ter hora pra voltar

 

Neste caso, não existe rendição,

Dê adeus à tradição,

Dê um beijo na saudade,

Dê chances ao coração,

Só não vale ficar triste,

Mas se a tristeza insistir,

Escreva uma poesia,

Enfeite sua moradia

Dê água para a alegria,

Dê asas à imaginação,

Bata palmas para a ilusão

E  mande a tristeza pastar

Bata três vezes na madeira

Dê três pulinhos pra frente

Mostre que está contente

E grite bem alto

Para que escute toda gente

– Hoje eu quero é rosetar!

 

(Do livro: Coisas de Mulher de Sônia Moura)

COTIDIANO

 COTIDIANO

COTIDIANO  (Autoria: Sônia Moura)

 

O céu da ilusão foi tingindo

Meu querer em vários tons

Em muitas emoções, em alegria

De infinitos sons

 

Depois, o céu da desilusão

Em um só tom, sem emoção

Tingiu meu coração

De nostalgia, de agonia

 

Então, o que era encantamento

Tornou-se  descontentamento

E o abstrato do amor

Deu lugar ao concreto da dor

Só me restava lamentar

O paraíso perdido

O lugar sonhado

O amor imaginado

 

Hoje, o que resta da ilusão

É a cor da recordação

Plantada nos ramos da saudade

E no céu do meu caminho

Borboletas azuis batem levemente

Suas asas

Em movimentos lentos

Para meu sofrer aplacar

Lá longe,

No meu mar cinzento

Golfinhos dourados

Saltam nas águas a me consolar

Eles sabem do meu segredo

E sabem que meu sofrer

Não é brinquedo

Só querem minha dor apaziguar

 

Sou agora

Um jardim abandonado

Uma praça sem crianças

Sem escorrega ou balanços

Enquanto minha vida

Segue a balançar

Para que a saudade de um tempo

Penetre em mim

Chegando mesmo a me ferir

Preciso suportar a dor

Deixar expostas as feridas

Deixar o sangue escorrer

Preciso segurar a vida

Pela raiz

Antes que ela me fuja

Preciso deixar a realidade

Penetrar em meu nariz

Chegar aos pulmões

Revolver emoções

Desfazer canções

Enchendo o oco

Encravado em minh’alma

Preciso sentir o sumo

Das frutas outonais

Sentir a liberdade

De uma andorinha só

E conseguir abandonar

O frio inverno

Embaralhar-me com as flores

Da gentil primavera

Para renascer

No próximo verão

 

(Do livro: COISAS DE MULHER de SÔNIA MOURA)

 COTIDIANO

 

 

 

IMAGENS

 IMAGENS

 

IMAGENS  (Autoria: Sônia Moura)

 

Até hoje

Ouço você dizer

Na concha

Troncha

Do meu ouvido:

 

– Quando tu te pões  entre meus seios

Oh!

Mil liberdades

Se instalam

Em nossos céus !

 

Então, ao ouvir os teus gemidos, eu,

Menino vadio,

Me aninho

Neste ninho

Quente

Ardente

Que me deixa

Demente,

Menino indecente,

A viajar

Por tuas montanhas

Por tuas entranhas

Embarco em navios

Em espaços vazios

Navegando por teus mares

Por todos os teus lugares

Onde se esconde Eros,

Menino libidinoso,

Que  finge recato

Pintando um retrato

De uma abelha

Penetrando a flor

Nos instigando

A subir aos céus

A inundar a terra

Com leite e mel

Em meio a pecados

Rasgados

Molhados

Com gosto

De brigadeiro

Que eu,

Menino arteiro,

Me lambuzo

Devoro

Repito

Nos gestos

De amor

E, com o mais manso furor,

Penetro o miolo

De tua saborosa flor

Embarcando em teus sonhos

De sussurantes gozos

Maviosos

Gostosos

A encher nossa alcova

Com palavras

Febris

Gentis

E eu,

Menino encantado,

Levito ao luar

Visito as estrelas

Me solto ao vento

Fujo do relento

Beijo mil fadas

Abraço mil duendes

Escuto um sino

Agora,

Sou um menino contente,

Namoro o silêncio

E só ouço tua voz

A me dedilhar a alma

Agora quieta

Aninhada

Nos braços dos deuses

A contemplar teu corpo

Exausto de amar

Sorrindo para a paz

Que se instalou em nós…

 

(Do livro: COISAS DE MULHER de Sônia Moura)

 

 IMAGENS

 

 

 

 

 

 

 

DOR DE AMAR

 

 DOR DE AMAR

DOR DE AMAR  (Autoria: Sônia Moura)

 

O choro veio em lágrimas cascateantes

E ela sentiu que precisava de um colo

Precisava de braços e de abraços

Precisava do aconchego e do amante

Pediu carinho

Ele não entendeu

Só ela sabia o quanto era difícil

Trilhar aquele caminho

Ter que dividir

Amor, braços, beijos e abraços

Que ela gostaria que fossem só  dela

(Sonhadora…)

Assim, invés de chorar

Ela iria sorrir

É tão difícil ter que dividir Amor

Mais fácil é somar

Mais fácil é sonhar

 

Ele pareceu não entender as lágrimas

Pois aquela não era uma dor qualquer

Era a dor de uma mulher

Que tinha que se esforçar

Para conviver com este novo amor

Será que ele entenderia

Um dia

Que aquela era uma dor

De amar?

 

(Do livro: Poemas em Trânsito de Sônia Moura)

 

 

LUZ NA ESCURIDÃO

 

 

 LUZ NA ESCURIDÃO

 

LUZ NA ESCURIDÃO  (Autoria: SÔNIA MOURA)

 

Eram sombras que caminhavam lentamente, arrastando-se na luz do dia como se estivessem em meio a mais forte escuridão.

Os passos seguiam como se os pés estivessem envolvidos por fortes correntes.

De repente… ouviu-se ao longe um estampido e um deles foi ao chão. Os outros pareciam não perceber o que acontecera e, assim, prosseguiram em sua caminhada, arrastando seus pés em meio a quase total escuridão de um dia ensolarado.

Deixando para trás seus rastros, suas marcas e um corpo estendido no chão, os homens prosseguiram em busca do nada, sem sequer olhar para o que estava a sua volta.

Num dado momento, um sino toca ao longo anunciando que alguém havia morrido no lugarejo que parecia também não enxergar aqueles homens e seus aspectos sinistros.

Tudo tornou-se silêncio.

O sol se escondeu por trás de uma nuvem pesada, que surgiu como se fosse do nada.

Tudo era muito estranho.

Neste momento, mais um corpo bate com força no solo e, mais uma vez,  nenhum dos acompanhantes se volta para olhar ou socorrer aquele que iria ficar para trás.

E assim foi até o último figurante desaparecer da fila, despencando no chão duro daquele tarde a qual ninguém parecia enxergar.

Mais tarde, um velho de uma outra aldeia me contou que este era um ensaio sobre a vida e a morte.

Ele me disse que nós não percebemos, mas é deste modo que acontece, seguimos todos caminhando entre a luz e a escuridão, até que um dia tombamos. Os outros precisam continuar.

 

 

(Do livro: Doze Homens Contam de Sônia Moura)

 

LUZ NA ESCURIDÃO

 

 

 

 

MULHER

 MULHER

 

MULHER  (Autoria: SÔNIA MOURA)

 

Mil cantos que falam de ti

Não conseguem dizer qual o teu tom

Mil cantos que fazem para ti

Não conseguem entoar todo o teu encanto

Mil cantos onde se escondem teus segredos

Não conseguem esconder a doçura do teu pranto

Mil cantos onde moram teus momentos imprecisos

Não conseguem emoldurar teu riso

 

Mil vales por onde se espalha tua garra

Não conseguem decifrar tua coragem

Mil vales por onde passa tua bravura

Não conseguem entender

Como esta convive com tanta ternura

Mil vales que nos paguem para ter a  tua força

Não darão conta de compensar o teu saber

Mil vales que ofereçam por tua sapiência

Não darão conta de entender tua ciência

 

Por que és MULHER

És colo, aconchego, luta e prazer

És guerreira, faceira, maternal e fêmea

És pão, vinho, céu e chão

És sorriso, pranto, acalanto e gemido

És beijos, abraços, carinhos e sofreguidão

 

Mulher!

Eis o mistério que poucos conseguem entender!

 

(Do livro: Coisas de Mulher de Sônia Moura

 

 

A todas as mulheres: PARABÉNS!

mulher

 

 

 

 

 

DOIDEIRAS DA VIDA…

 

 DOIDEIRAS DA VIDA…

DOIDEIRAS DA VIDA…  (Autoria: Sônia Moura)

 

Encontrei a loucura

Sentada no fundo do quintal

Sorriu para mim e falou:

 

-Quando se ama sempre é carnaval

Sempre é natal

Sempre é fatal

Pode fazer bem

Ou pode fazer mal

Não faz mal

Melhor assim

Porque

Para sempre

Ficarei com um pouco

De você

E você carregará

Para sempre

Um tantinho de mim

A vida é assim

Para quem ama

Ora vale o instinto animal

Ora vale o instinto maternal

Ora vale o instinto infernal

Não faz mal

Para quem ama

A vida é somente

Um grande CARNATAL!

 

(Do livro POEMAS EM TRÂNSITO  de SÔNIA MOURA)