PEDRA E PENA

 PEDRA E PENA

PEDRA E PENA  (Autoria: Sônia Moura)

Dizem por aí

Que o coração não pode pesar mais que uma pena

Mas uma voz em mim diz que isto é

Para tornar as coisas do amor mais amenas

Jura que isto é metáfora lisonjeira

É quimera, é arte, é astúcia, é brincadeira

O coração pode pesar mais que uma pedra

Basta que num delirante momento

Se instale em nós o sofrimento

E nos arraste para os males do abandono

Que o coração fica tão pesado para o seu dono

Que só mesmo os poetas

Conseguem inventar uma maneira

De suportar o peso desta cruel brincadeira

Carregando este fardo retumbante

De herói, o amante transforma-se

Em renegado meliante

Mas ainda assim segue adiante

A arrastar pedra como se fosse pena

E é o vai-e-vem dos mistérios do amor

Que faz com que sofrimento e dor

Nos enganem em vestes de ator

Para que a ilusão torne a vida mais amena

E no palco da vida brilhará o meliante – herói

A repetir:- O amor como dói, como dói

E Cupido a gargalhar:

– Que pena! Que pena! Que pena!

(Da obra: Poemas em Trânsito de Sônia Moura)

PEDRA E PENA

SÍMBOLOS – IMAGENS PRIVILEGIADAS- I

 SÍMBOLOS - IMAGENS PRIVILEGIADAS- I

SÍMBOLOS – IMAGENS PRIVILEGIADAS- I  (por Sônia Moura)

A definição do que é um símbolo prende-se à definição de mistério. Onde há mais mistérios senão naquilo que é visível e invisível, tocável e intocável, velador e revelador, uno e múltiplo?

Multifacetado, o símbolo projeta-se num feixe atado que lhe dá unidade, universalidade, individualidade, tornando impossível desamarrar-se este feixe sem prejuízos imediatos e irreparáveis.

Uma vez que não se consegue aprisionar um símbolo ou impingir-lhe tradição, desestruturando qualquer sistema montado, o símbolo amolda-se, modifica-se ou perpetua-se, pois ele se firma pelo que não se vê e sim pelo que se sente, por isto, antes do uso da fala, o homem já se utilizava dos símbolos, pintando composições figurativas nas paredes das cavernas.

Depois foram adotados outros signos: linguísticos, matemáticos, gráficos e outros mais, que, de um modo ou de outro, dirigem e organizam o pensamento, registram acontecimentos, comunicam fatos, ajudam o raciocínio, consolidam idéias, fatos e organizam o nosso viver.

Etimologicamente, o vocábulo símbolo, oriundo do grego, significa: juntar, reunir, confirmando o que está na origem desta palavra – símbolo é o objeto dividido em dois. Já na Grécia antiga symbolon (sinal de reconhecimento) representava, por exemplo, o objeto por meio do qual mais tarde os pais podiam reconhecer os respectivos filhos de quem se afastaram, também era a senha que os juízes atenienses recebiam ao entrarem no tribunal e contra a qual recebiam os soldados, o símbolo também era a senha entregue aos que assistiam às assembleias do povo.

Podia ser, ainda, uma espécie de passaporte ou licença de permanência para os estrangeiros que transitavam por uma povoação. Símbolo era, também, contribuição, sinal de convenção, palavra de ordem, ou seja, era tudo o que servia para reconhecer alguém ou alguma coisa.

Às palavras são atribuídos poderes mágicos capazes de servirem como instrumentos de controle ou como força mais conservadora dos feitos da humanidade; aos signos numéricos são atribuídas peculiaridades abstratas, que, na prática, servirão ao concreto; aos símbolos oníricos são atribuídos fatores desiderativos (em simbologia direta, indireta ou mista); às representações artístico-visuais (desenhos, pinturas, retratos, esculturas) é atribuído o poder das perpetuações da imagem pela reprodução.

Os símbolos são cicatrizes que traduzem sobremaneira a essência neles guardada, por trazerem as marcas daquilo que representam e são considerados expressões racionais e irracionais, ao mesmo tempo.

Usados pelo homem para auxiliar o processo de pensar e registrar suas realizações ou frustrações, os símbolos povoam nossas vidas desempenhando função representativa, portanto, o grande valor do símbolo será determinado pela apreensão da relação que se quer mostrar entre o símbolo e a coisa simbolizada.

Assim sendo, uma das funções primordiais do símbolo é ajudar o homem a decifrar o indefinido, o incompreensível, embora fortemente sentido, sem, no entanto, arrancar por completo o véu, pois, se o termo oculto revelar-se em sua totalidade, o símbolo perecerá.

Por ser a representação de imagens pinçadas do mundo real, concreto, o símbolo traz em si a sintetização das influências do consciente e do inconsciente e, longe de ser mera expressão lingüística, por seu caráter dinâmico, sensível e afetivo, este usa a palavra, não para falar das coisas, mas para representá-las.

(UFF- 2009)

SÍMBOLOS - IMAGENS PRIVILEGIADAS- I

MIL VOZES

Mil vozes

Mil vozes (por Sônia Moura)

Recolho as lágrimas e sonho com o renascer do brilho do seu sorriso e, assim, reinvento a sua presença. Depois, vem um aterrador silêncio e é dele que tiro forças para gritar: -Preciso da sua carne na minha, para não enlouquecer de saudade e conseguir conviver com esta dubiedade que é amar você.

A saudade junta-se à sombra de meus devaneios, recriando miragens de sua imagem, deixando que elas penetrem-me a alma, só assim calo o silêncio e consigo ouvir nitidamente a sua voz, emoldurando palavras que falam de amor.

Sua ausência parece roubar a nitidez disfarçada da obscuridade tão necessária a qualquer paixão e tenta colocar em seu lugar a lucidez, esta marca impossível de conviver com o amor ou com a paixão.

Tal qual Diógenes, procuro desesperadamente uma lanterna para iluminar meus caminhos e seguir seus passos, pela trilha dos amores vitoriosos, pois é preciso ter coragem de amar, é preciso livrar -se da incerteza, porque o amor não deve conviver com ela.

Embora o amor tenha muitas faces, é preciso reuni-las, para que a sua verdadeira face se torne visível, por isso o amor verdadeiro rejeita qualquer tipo de máscaras, mesmo as mais belas, mais sedutoras, mesmo estas jamais seduzirão o amor.

Não quero sair do amor e nem quero que ele saia de mim, nunca, nunca. Quero o amor sem metáforas expostas, tal qual fraturas.

Só aceitarei as metáforas que venham a enfeitar o amor, que todas sejam invisíveis e que somente olhos atentos e sensíveis possam ver qualquer imagem do amor: construída, inventada, rearranjada, metamorfoseada, desenhada, tanto faz.

Decreto, ainda, que as palavras que falam do amor desrealizem a vida, fazendo surgir a súbita presença da fantasia, falo assim, porque, a bem da verdade, o coração do amante nunca faz o que a mente ordena, sempre foge e se aninha nos braços do sonho e da fantasia.

Quem diz o contrário?

(Da obra: Súbitas Presenças de Sônia Moura)

mil vozes

TEMPO ESGOTADO

 TEMPO ESGOTADO

TEMPO ESGOTADO (por Sônia Moura)

O tempo nunca se esgota.
Mas, como não podemos controlá-lo e também não podemos ser testemunhas de todos os tempos, fingimos dominá-lo, inventando histórias sobre ele.
Não se tira a última gota do tempo e muito menos podemos bebê-lo até a última gota, da mesma forma, não podemos tirar dele todo o seu conteúdo.
Por mais que se escreva sobre ele, seja teoricamente, seja romanceando-o, seja poetizando-o, nunca conseguiremos drenar-lhe toda a essência, porque ele se desdobra, se refaz, se renasce, recriando suas trajetórias, ainda que pareça ser o mesmo.
É o mesmo para todos e completamente diferente para cada ser, assim, ninguém conseguirá domá-lo, somente ele se enquadra na categoria dos totalmente indomáveis, só por meio dele se consegue contar e recontar histórias, falar das loucuras e das paixões ou da loucura das paixões.
O tempo é um sobrevivente dele mesmo, por isto consegue extrapolar todos os limites de qualquer filosofia, de qualquer realidade, aliás, ele é o irreal do real, brinca de mostrar-se, escondendo-se, explica, confundindo e confunde explicando.
O tempo é, também, símile de si mesmo, por isso, esta impecável ordenação da vida, transformada em sensações, em concretudes, em abstrações, assim, dizem que nós construímos o tempo.
Cíclico, ele nos cerca e nos coloca em sua roda para dançar, fazendo-nos acreditar que estamos ali somente para gastá-lo, enquanto ele está a se doar.
Não controlamos o tempo, ele nos controla, não sabemos o tempo de chegar e muito menos o tempo de partir, mas, nossas sabedorias e religiões deitam conceitos sobre ele e este retruca mandando de volta para eles um riso, ora zombeteiro, ora vingador, ora complacente.
Talvez se conseguíssemos drenar-lhe os mais profundos sentidos, até que o dique dos dias e das noites secasse, quem sabe, ele iria se cansar, então, ele não saberia mais o que dizer, perderia as forças e se renderia, admitindo que não teria mais como se defender, aí sim, quem sabe, dissipássemos todas as dúvidas sobre ele?
Pura utopia, depois de todo este tempo, seria tarde demais, porque o tempo já teria nos esgotado, há tempos…

[Prefácio da obra Tempo Absoluto e Tempo Relativo de Sônia Moura]

TEMPO ESGOTADO