QUADRINHAS

                         Poço

QUADRINHAS (Autoria: Sônia Moura)

I

Qual uma cantiga de roda
Assim ficou meu coração
Ao ver teu olhar no meu
Nesta manhã de verão!

II

Meu coração bateu forte
Quando encontrou o seu
Minh´alma ficou feliz
Com este amor que é só meu!

III

A flor presa nos cabelos
Teus olhos nos olhos meus
Teus braços para os meus abraços
São um presente de Deus!

IV

Sonhar com tua chegada
É viver no paraíso
Sentir a sua presença
É tudo de que preciso!

V

Só sei que é preciso amar
Para o mundo compreender
Por isso digo ao mundo
O quanto amo você!

(Do livro:Poemas em Trânsito de Sônia Moura)

PENEIRAS

 PENEIRA

PENEIRAS (Autoria: Sônia Moura)

Do outro lado da rua, o homem peneirava a areia, enquanto Denise peneirava as palavras.O homem precisava construir a casa; Denise precisava construir seus textos.
Por alguns instantes, pararam suas tarefas e deixaram seus olhos se encontrarem, e, ainda que a distancia os separasse, a força do olhar se fez presente.
O vento espalhava alguns grãos de areia que o homem peneirava, mas a maior parte caía dentro do recipiente adequado; o pensamento espalhava alguns grãos de palavras que a mulher peneirava, mas a maior parte ficava grudada na tela do computador, e, em ambos os casos, não se sabe ao certo se o que ficava nos devidos recipientes era o melhor, no entanto, era com estes grãos que o homem e a mulher iriam construir suas obras de arte, deixando para o mundo a sua visão de mundo.
Mais uma vez, os olhos se cruzaram e este encontro de olhares repetiu-se por alguns dias, enquanto sentimentos eram peneirados.
Juntando areia, terra, cimento e pedra, o homem dava forma à sua obra, juntando ideias e palavras, a mulher dava forma à sua obra.
Ele se arriscava, construindo algo novo: novas formas de uma nova arquitetura. Com certeza, aquela era uma obra diferente.
Ela se arriscava, construindo algo novo: novas formas de um novo texto. Com certeza, aquela era uma obra diferente.
O tempo passava e as obras iam tomando forma. O tempo passava e os olhares iam dando forma à casa e ao romance. Cresciam as obras, crescia o desejo. Precisavam se encontrar.
Enquanto eles terminavam suas obras, o destino também peneirava a vida e tecia a sua obra.

Assim,  numa manhã de domingo, a súbita presença da arte uniu o casal. Encontraram-se numa feira de artesanato, se reconheceram, se aproximaram, peneiraram as diferenças sociais e construíram a sua melhor obra: um novo rebento.

(Do livro SÚBITAS PRESENÇAS de Sônia Moura)

TEXTO

DÉBITO AUTOMÁTICO

 

rouxinol

 DÉBITO AUTOMÁTICO (Autoria: Sônia Moura)

Carminda era louca por rouxinóis, possivelmente influenciada pela fala de jovem apaixonada, em Romeu e Julieta, de William Shakespeare:

“Julieta. – Então queres já partir ? O dia ainda não vai despontar! Foi o rouxinol, e não a cotovia, que fez assustar o teu ouvido. Todas as noites ele costuma cantar pousado naquela romãzeira. Podes crer, meu amor, que era o rouxinol.”

Além do mais, Carminda era fascinada por esta ave que, na maior parte do tempo, vive solitária, é difícil de ser vista, e que, quase sempre, se esconde atrás de um arbusto para cantar. Um pássaro que, geralmente,  cantava à noite, com certeza  seu canto jamais separaria os apaixonados, pensava a moça.

E a cotovia? Ah! esta era, segundo Romeu, mensageira da manhã, por isto, para Carminda, o canto da cotovia era um sinal de que os amantes, não só os de Verona, deviam se separar.

Um dia, Roberto, um amigo muito querido, presenteou Carminda com um CD, onde estavam gravados o cantar de vários pássaros. Era a primeira vez que ela ouvia o canto do rouxinol, melodioso, encantador, tentador e envolvente.

Depois de ouvir muitas vezes o canto do rouxinol, Carminda jura ter visto esta ave, pousada na janela de seu quarto.

Esta súbita presença permitiu a revelação do encanto e da magia  deste cantar, então, a partir daquele momento, Carminda passou a ter  um débito automático com o amigo Roberto, que lhe abriu as portas dos diversos caminhos da ilusão, por meio dos sons e dos sonhos, mesmo que de olhos abertos.

(Do livro: Súbitas Presenças de Sônia Moura)

romeu e julieta

QUEM AFIOU O MACHADO DE ASSIS?

Quem afiou a Machado de Assis? (por SÔNIA MOURA)

Teria sido Lima Barreto ou, mais contemporaneamente, Lima Duarte?

Machado de Assis

Esta e outras perguntas faziam parte de um repertório das chamadas ”perguntas tolas”, que só serviam para divertir, alegrar.
Vejamos alguns exemplos:

1- Quem é o centro avante do ataque cardíaco?
2- Em perna de pau nasce pelo?
3- Linha de ônibus serve para costurar?
4- Quem nasce na ilha da madeira é cara de pau?
5- Quantos filhos tem o pai Sandù?
6- Pé de alface tem chulé?

(Esta era uma inocente brincadeira de tempos que lá se vão.)

A bem da verdade, o que era afiado em Machado de Assis era o seu humor que, para alguns, beirava o cinismo, e também era sinônimo de uma ironia, que andava em perfeita sintonia fina com a vida.

Para outros, o humor machadiano era a prova viva de uma inteligência sagaz.

Quem afiou sua mente para que ele conseguisse penetrar com tanta audácia e certeza nos meandros da psique e da alma alheia?

Quem afinou sua pena para que ele ousasse conversar com o leitor, chamando-o para o centro da roda narrativa, o que acaba por tornar leitor e autor cúmplices do que estava sendo narrado?

Quem afinou a lógica da escrita machadiana que, através de períodos curtos, diretos, alcançava o objetivo desejado, prendendo a atenção do leitor, sem deixar o texto tornar-se tedioso, a fim de que a leitura fosse o mais possível prazerosa.

Este afiado Machado de Assis era um implacável crítico da sociedade e do ser humano, sabia como “limar” as aparências, buscando revelar ao leitor os lugares secretos das ações humanas, as essências da vida, através da análise do mundo interior dos personagens.

A afiada ironia machadiana, na maioria das vezes marcada por pinceladas amargas e até mesmo beirando à crueldade, arranca feroz ou brandamente as máscaras que escondem os muitos jogos de interesse circulantes na sociedade, fazendo vir à tona uma descrença mostrada por um desespero quase velado, para que as nuances da alma humana fossem reveladas.

Preclaros leitores, de fato não sabemos quem afiou o Machado de Assis, mas, certamente, podemos afirmar que a sociedade da época e tudo mais que ela representava naquele “novo” mundo, por meio de suas descobertas e idéias revolucionárias, ajudaram a afiar este escritor genial e sua obra, por meio da qual ele se mostra um observador do mundo, de seus pares e de si mesmo, sendo ao mesmo tempo caça e caçador.

Machado de Assis

RIQUEZA IMAGÍSTICA

RIQUEZA IMAGÍSTICA  (por Sônia Moura)

Hoje, nesta manhã carioca, lindamente ensolarada, o cansaço acumulado por dias de trabalho árduo, porém profícuo, deixo-me estar, tal qual Linda Inês, posta em sossego.

Para me fazer companhia, tenho a televisão. Assisto a um bom programa: Globo Rural e sou apresentada a mais uma espécie de ave em extinção: a Arara Azul de Lear.

“A arara-azul-de-Lear é típica da região de Canudos e Jeremoabo, no Estado da Bahia. A ave utiliza os paredões de arenito como abrigo e se alimenta da palmeira Licuri. Atualmente, esta espécie é constantemente ameaçada pela ação de caçadores e traficantes de animais silvestres. “Ela não tem predadores naturais a não ser o homem”, diz Figueiredo.” [ http://www.faunabrasil.com.br

Arara azul

“ … ela não tem predadores naturais, a não ser o homem”. ..a não ser o homem! …a não ser o homem! Acho que nem precisamos consultar nossos ancestrais para entender que a destruição das espécieis, se dá unicamente pela ganância e pelo desejo do ganho fácil e incontrolável.

Se quisermos ir além ou aquém dos fatos, podemos construir uma imagem desta terrível conjunção: dinheiro e destruição das espécieis, seguindo os passos da significação para a forma “dinheiro vivo”, traduz-se por : “pagar em espécie”.

Apesar desta insanidade, permito-me sonhar, viajando por concepções junguianas, as quais dizem que todo pensamento imaginário não passa de uma tomada de consciência de arquétipos ancestrais, pois todas são “imagens primordiais”.

Assim sendo, deixo que estas imagens se manifestem em forma de fantasia, para que possam revelar-me alguns segredos do passado, que se perpetuam e  se mostram no presente.

Para captar a beleza de uma das características deste grupo, sirvo-me do campo simbólico, criado por belíssimas imagens e pelas palavras do biólogo, que afirma ao repórter:

“Esta ave, quando escolhe o seu parceiro, é para sempre e, a partir deste instante, eles estarão eternamente juntos, em qualquer situação.”

E as figuras que a tv nos mostra são a confirmação do que disse o biólogo, são a imagem de um casal enamorado, aves que parecem perder-se em beijos, num momento de profunda consagração à vida, que o homem insiste em lhes roubar.

arara azul

Então, simbolicamente, todos os encantos do amor se manifestam para mim, são asas que se alteiam e se abaixam, em forma de véus esvoaçantes, num ritual de amor, guardado pelos genes da ancestralidade, o qual se repete, através do ritual da vida.

Depois, banhados por luzes e cores do amor eterno e deslizando por um céu “ancestral”, os casais saem em vôo duplo, e deixam-me, de presente, riquezas imagísticas, para coroar o majestoso domingo.

riqueza imagística