(IN)VERSOS

(IN)VERSOS                                   ESPELHO

(Autoria: SÔNIA MOURA)

Quando te vi com outra,
O meu silêncio,
Navegando na contra-mão da história,
Ampliou em mil meus sentimentos,
Embaralhando palavras em minha memória.

Magoada, recolhi-me, então,
Dentro de uma concha,
Que se fechou por inteiro.
Ferida, não produzi pérolas,
Só fiz brotar um enorme espinheiro.

Triste, passei de borboleta à lagarta,
Voltei ao casulo e não pude mais voar.

Perdida, qual um navio à deriva,
Ancorei na terra, não no mar.

Ferida, fiz-me pássaro acuado
Largado num canto qualquer,
Com sangue a colorir a plumagem
Tentei cantar, não consegui uma nota sequer.

Esta era a minha imagem?

Procurei meu corpo, não encontrei,
Procurei minh’alma, também não,
Num espelho espatifado,
Onde o côncavo tomava o lugar do convexo
Vi um rosto mal formado
Meu olhar perplexo, me perguntava:

Onde me encontrar então?
No ontem, no amanhã ?
Nos escombros dos desertos?

Uma voz mansa sussurrou aos meus ouvidos:
Você está nestes versos, inversos.
(Do livro POEMAS EM TRÂNSITO de SÔNIA MOURA)

GIRASSOL

DEUSA HUMANA

AFRODITE

Deusa humana

(Autoria: SÔNIA MOURA)

Quero ser Afrodite,
Nascida da espuma
Que vem do seu desejo.
Quando seu olhar me atravessa
O corpo, minh´alma transborda-se
Em paixão, em vontades, em promessa.
Quando seu corpo levemente toca o meu,
Estremeço e sei que, se um dia eu tiver em seus
Braços, desfrutando de seus gostosos e sensuais abraços.
Dispensarei até mesmo o meu fino cinto dourado, encantado.
Sei que você é meu amado, e quero amar você apaixonadamente,
Apaixonado-me amorosamente, dispensarei, a seguir, o frívolo amor,
Que a sensualidade venha encantar-me e sufocar-me com seus beijos.
Quando você, mansamente, tocar partes do meu corpo, me entregarei toda
E a espuma branca de onde vim, invadirá a parte mais quente do meu corpo,
Assim, hoje, deliro ao pensar no dia em que seremos corpo e alma,sonho,
Desejo e paixão, e neste dia, serei sua Afrodite, então.

{Do livro POEMAS EM TRÂNSITO de SÔNIA MOURA}

sonhos de Afrodite

AFRODITE E AS ROSAS

AFRODITE E AS ROSAS                                rosa tatuada


(Autoria: SÔNIA MOURA)
Carregava nos braços as marcas de um tempo em que em seu leito, tal qual o leito de um rio, via passar encantos e encantadores de ilusão, sobre o seio esquerdo trazia uma tatuagem de Afrodite carregando um ramo de rosas e dizia que representava o viço das rosas transportadas por beijos de amantes. Não se importava nem um pouco com as faladeiras do bairro, sentia-se livre, enquanto bailava pelo salão, presa nos braços dos rapazes e solta nos braços da alegria.
Agora, concentrou-se e deixou fluírem as imagens do passado que brincavam em seus olhos, estas imagens eram a sua antiga realidade, eram o seu sonho de ontem e sua saudade de hoje. Aqueles tempos remotos estavam sobrepostos, se decompondo e se recompondo em linguagem poética. Ah! Se as palavras fossem capazes de traduzir aquela saudade e aquela alegria, que agora viviam às margens do seu rio de lembranças, perdidas em labirintos da memória, agora dissolvida pelo tempo.
Emocionada, voltou no tempo e pisou naqueles mesmos caminhos. Por que afastara aquele homem de sua vida? O retrato dele sempre preso na lembrança, enraizado no invisível mais visível que existe – enraizado na saudade.
Doidivanas, era o que diziam dela, mas tinha consciência, tinha limites. Estava mesmo apaixonada por ele, mas nem toda paixão e poesia ofuscaram, para ela, a realidade. No momento que a paixão começou a aflorar, Murilo também começava a trilhar um caminho de muito futuro nos negócios e na política, e a amada sabia que ele largaria tudo por ela, então, largou-o primeiro, antes que toda a estrutura de futuro dele ruísse.
Sumiu no mundo, criou a impossibilidade de comunicação, ganhou novos rumos. Tudo agora era muito enigmático, abreviava a dor lendo Nietzsche, de onde tirava clareza e sentido para sua vida, que agora era apenas a metáfora do passado.
Precisava renegar o passado, assim o fez. Ele era tão jovem, ela também, mas já sabia de que somos capazes por amor. E eles estavam enamorados. Não podia ser mesquinha, ou tudo podia se complicar para ele.
Uma metamorfose obtida por meio de operações plásticas, a fez morrer para seu antigo mundo, mas por um bom tempo, sozinha no quarto, continuava procurando seu rosto no espelho. Agora, em sua vida, precisava equilibrar-se entre dois planos, para poder tocar o passado e anular o presente, só assim poderia crer no futuro. Não importava o tempo, desde que continuasse a identificar no centro das coisas, sua imagem fundamental: Murilo.
Considerava seu passado como um baú inviolável, seu presente era límpido, suas emoções eram relembrar o passado e sonhar com um futuro, no qual a luz da tarde, suave não permitiria a ninguém recusar qualquer encanto, todos viveriam plenamente seus sonhos.
Só pedia que lhe fosse dada a oportunidade de realizar uma última contemplação: ver, mesmo que ao longe, aquele que sempre fora seu amado. À primeira vista, este desejo íntimo parecia impossível, mas, como não se foge do destino e nas mãos dele todos somos joguetes … Deixou-se levar pelo sonho.
Larissa, uma das poucas amigas de Angélica, adorava bater papo pela internet. Um dia, convenceu Angélica a brincar também. Inicialmente ela recusou, mas depois começou a papear com “Cavaleiro Audaz”, gostou e prosseguiu. O “Cavaleiro” perguntou se ela gostava de poemas, diante do sim, ele escreveu: “Com que palavras ou beijos ou lágrimas/ se acordam os mortos, sem os ferir”. O passado voltava nestes versos. Lágrimas desceram pelo rosto transformado de Angélica. O autor, quem era mesmo?, perguntou ao Cavaleiro Audaz.
Ele prometeu que pessoalmente diria à “Poliana” o nome do autor. Combinaram que ela levaria uma rosa amarela na mão direita e ele, um buquê de rosas vermelhas. Marcaram o encontro para domingo.
No decote, Afrodite sorria.

[Do livro MINIMAMENTE CRÔNICAS de SÔNIA MOURA]