O LEQUE ABERTO

           O LEQUE ABERTO                Leque

(AUTORIA: SÔNIA MOURA)

Bruto que só, sempre que podia, Antônio dava um jeitinho de desmerecer sua mulher. Ela, baixava a cabeça e ia chorar no canto. Nazaré dependia dele, para tudo.

Namoradas? Antônio tinha-as aos montes, usava-as e depois as descartava, assim como fazia com a mulher, que só servia para servir-lhe, nada mais. Nazaré não reclamava de nada, nem das namoradas, nem dos maus tratos, nem do abandono. Não reclamava de nada, apenas abanava-se, tentando espantar a dor.

Refugiada em sua tristeza, criava o mundo sonhado, nele ela era rainha e princesa, era amada e amante, era dama e cortesã, e, quase sempre, era uma maravilhosa gueixa.

E Antônio? Este nem existia, não era sequer sombra, não era nada.

A mulher vestia suas fantasias, vivia um grande amor romântico, achava o seu Romeu, o seu príncipe encantado.

De todas as personagens por ela criados, a de que mais gostava era a gueixa Chinuá, uma linda japonesinha, que, com o seu leque e com o seu olhar, arrebatava corações.

Antônio nunca notara que Nazaré tinha uma infinidade de leques, cada um mais belo que o outro.

Na verdade, Antônio não percebia nada ou ninguém naquela casa.

LEQUES

Entre muitos leques de sua coleção, um era o preferido, o vermelho, com flores branquinhas, tendo como miolos pequenas contas amarelas. Este leque tinha lugar especial no aposento do casal e nos sonhos de Nazaré.

Um dia, Nazaré vestiu seu quimono de gueixa, abriu seu lindo leque vermelho, sentiu-se forte, sentiu-se livre e, naquele momento mágico, saiu porta a fora, sem olhar para trás e nunca mais voltou. Saiu pelo mundo a abanar-se com o leque florido e a espantar qualquer sombra de Antônio que ousasse se aproximar dela.

[Do livro CONTAS E CONTOS de SÔNIA MOURA]

Leque

O PRESENTE DE LÍGIA

presente

O PRESENTE DE LÍGIA


(Autoria: SÔNIA MOURA)

Recebo, por e.mail, uma presente da minha amiga Lígia Coelho. Seria somente mais uma mensagem acompanhada de um pps. Todos sabemos que existem centenas deles, no entanto, ao desembrulhar meu presente, quedo-me ante sua singeleza, sou capturada, sinto-me a prisioneira mais liberta e me permito viagens, entre elas, criar novas imagens por meio do que escrevo agora.

As imagens do pintor Iman Maleki, a música de Bach e os textos de Cora Coralina, reunidos por J. Meirelles, na Série: “Arte e Reflexão”, conduziram-me para o centro de suas mensagens, tomaram-me pelas mãos da sensibilidade e transformaram esta manhã nublada e chuvosa de domingo, em um dia de luz.

Para me seduzir ainda mais, paralelamente, um belíssimo programa, sobre esculturas e escultores e sobre pinturas e pintores, mostrava desde a arte dos egípcios, passava pelos gregos, por Picasso, chegando até aos programas de computadores, todos tratando de desenhos e de formas (TV Cultura).

Enquanto olho a pintura da natureza, que, nesta manhã insiste em usar a tinta cinza, própria para desenhar manhãs nubladas, o êxtase,  promovido pelas cores de Iman, pelas palavras de Cora, pela ousadia de Picasso, pelas formas dos egípcios e dos gregos,  me faz olhar a manhã nublada por meio das luzes destes textos iluminados.Ora meus olhos, ora meus ouvidos vão sendo atraídos e se sentem divididos, diluídos em meio a essas diversas formas textuais, que vão cooptando meu prazer para a alegria.

Assim, dividida entre as telas, captando imagens nascidas dos pincéis e das tintas de Iman Maleki; das penas e da tinta de Cora Coralina e das esculturas e pintores de tantos e de todos os tempos, crio uma terceira tela, captando imagens para tela do meu celular, fotografando a tela do meu computador, para o qual devolverei estas mesmas imagens e que, possivelmente, irão para outra “tela” de papel, ao serem impressas.

Feito por palavras que se aliam a imagens, locupletando-se, este círculo de imagens inebriantes e embriagantes, confirmam o maior de todos os valores da arte: a emoção captada, seja de que forma for, nos alimenta, registra o tempo e a história, pelo horizonte do artista e do seu tempo. Isto é a vida marcada por penas, por pincéis, por cliques, por ferramentas diversas, que conseguem transformar tanto a pedra bruta, como a tela ou o papel em branco em poesia, pura poesia. Afirmar qualquer coisa contrária será a mais exorbitante heresia.

Ao final, ainda sou brindada com um programa televiso (TVBrasil) que mostra a grande artista, a pianista brasileira Guiomar Novaes. Ainda, neste mesmo dia, assisto (TV Brasil) a declarações de um músico de rua, um depoimento tão sincero e tão comovente, que paro tudo para ouvi-lo declarar seu amor à arte; a seguir, vejo o trabalho de um santeiro modesto, que declara que sua fé está em sua arte, e sua arte alimenta sua fé. Só para completar, ouço/vejo Egberto Gismonti. Demais!

Realmente, este domingo nublado, chuvoso que normalmente seria triste para qualquer carioca, que como eu, ama o sol, as luzes, o calor e as cores, torna-se belo, torna-se totalmente preenchido, pois consigo vê-lo através de muitas formas de arte. E tudo começou com o presente da minha amiga Lígia.

Toda esta mistura de arte e de artistas é mostrada como a migração da emoção através de todos os tempos. Então, me pergunto se o homem sobreviveria sem a presença da arte e das formas artísticas. Creio que não, o tempo é tão efêmero, nos escapa tão rapidamente que, mesmo a criação de um instrumento para registrar o tempo, não consegue aprisioná-lo, mas a arte sim, ela consegue trazer o tempo de volta ou nos projetar para o futuro, fazendo-nos felizes no tempo presente.

A arte não é objetivamente utilitária, mas, subjetivamente, nada mais útil à história, à memória, à emoção e à lembrança que a arte, pois é ela que nos dá a verdadeira direção de como sopravam os ventos em tempos de ontem e como sopram os ventos nos tempos de hoje e, além do mais, a arte também ousa fazer previsões sobre os ventos dos tempos futuros.

Para mim, o homem, assim como o tempo, sobrevive na arte e pela arte. E ainda há quem pergunte qual a função da arte. Tolos!

(Lígia, obrigada, muito obrigada!) 

NUANCE ANAGRAMÁTICA

NUANCE ANAGRAMÁTICA (por SÔNIA MOURA)

NUANCE

E destacando outra nuance…

“Que o amor é complicado, ninguém questiona. Mas o povo boro, da Índia, tem vocabulário aparentemente bem mais atento às nuances desse sentimento do que muitas línguas. Para eles onsay significa “fingir amar”; ongubsy, significa “amar de verdade” e onsia, amar pela última vez” “. [Edgar Murano]
(“O mundo maravilhoso da palavra intraduzível” Revista Língua Portuguesa – Ano II – no. 31- Maio de 2008)

Anagrama (do grego ana = “voltar” ou “repetir” + graphein = “escrever”) é uma espécie de jogo de palavras, resultando do rearranjo das letras de uma palavra ou frase para produzir outras palavras, utilizando todas as letras originais exatamente uma vez. Em uma forma de anagramia mais avançada, sofisticada, o objetivo é ‘descobrir’ um resultado que tenha um significado lingüístico que defina ou comente sobre o objetivo original de forma humorística ou irônica.

[http://pt.wikipedia.org/wiki/Anagrama]

A palavra ONSIA é um anagrama para o nome SÔNIA.

Teria esta anagramia o objetivo humorístico, irônico ou será que estas associações incorporam vestígios dos mistérios do “amar pela última vez”, que tão inocentemente, pensando existir, nos escondemos em nossas conchas, fazendo do dia, noite, arrastando silêncios, quando seria mais fácil sorrir, deixar o humor fluir, deixar o amor surgir? 

NUANCES

                                                           Ausência

NUANCES (por SÔNIA MOURA)

Sob o título “O mundo maravilhoso da palavra intraduzível”, a revista Língua Portuguesa – Ano II – no. 31- Maio de 2008, traz um belíssimo artigo sobre algumas particularidades da língua, no que concerne às abordagens diversificadas de uma mesma realidade, quando, por exemplo, para um vocábulo (língua portuguesa), outros idiomas, por vezes, apresentam três ou mais palavras para identificar o que nós, falantes da língua portuguesa, fazemos com o uso de uma só palavra.

O autor do texto, Edgar Murano, assim inicia sua exposição:

“Que o amor é complicado, ninguém questiona. Mas o povo boro, da Índia, tem vocabulário aparentemente bem mais atento às nuances desse sentimento do que muitas línguas. Para eles onsay significa “fingir amar”; ongubsy, significa “amar de verdade” e onsia, amar pela última vez” “.

E o jornalista prossegue fornecendo outros exemplos, também, muito interessantes.

Que perigosa delícia dá-se nomes diversos às diversas faces do amor.

Quem se atreveria a confessar a outrem que, no momento supremo da conquista ou nos momentos do amor acabado, que apenas fingia amar? Quem diria alto e bom som: onsay!onsay! ?

Por outro lado, seria facílimo para todos, mesmo para quem fingisse amar, usar o vocábulo ongubsy, para falar sobre o seu sentimento, ainda que este fosse, na verdade, fingido ou mentiroso.

Mas, da boca daquele/daquela que estivesse amando de verdade, tenho certeza de que a entonação desta palavra seria diferente, bastaria que a quem a declaração se destinasse estivesse mesmo atenta/o.

Diga-me quem puder: Como saber que estamos amando pela última vez? Pois, quantas vezes a palavra onsia, a nosso modo, é pronunciada, para, na primeira curva da esquina, percebermos que pronunciamos este nome em vão, porque o amor nos arrebata outra vez, embora lutemos tanto para negar. Então, voltamos, rabinho entre as pernas, esquecidos da palavra “onsia” e a gritarmos: Ongubsy! Ongubsy!

Ah! O amor! O amor é mesmo complicado ou somos nós que não sabemos ver suas nuances com clareza? Difícil dizer.

AUSÊNCIA PRESENTE

AUSÊNCIA PRESENTE                       espelho

(Autoria: SÔNIA MOURA)

A tua presença na minha lembrança
Espelho incandescente a multiplicar a dor
A espalhar fragrâncias da tua ternura
Saudade – a cobrir-me o sono
Ausência – sinônimo de abandono?

Porque não posso te abraçar, eu canto
E o lamento que de minh’alma emana
Espalha-se tristemente e clama
Como estarás longe dos meus afagos?
Quem terá teu sorriso ou o teu pranto?

Não ouço respostas, só meu coração soluça.
O clarão da lucidez me cobre com o seu manto
Seqüestrando dissabores, saudades e incertezas
E a paz que só encontro em teu abraço
Espanta os males e sobre mim debruça

Uma gota de sorriso me devora
Desfaço-me dos arreios da melancolia
Terei você amanhã ou outro dia
Estou contigo mesmo a distância
Por isso, meu amor, beijo teu coração agora

( Uma noite de maio. Após o teatro, chovia.
Você feliz por mim, lindo!
Bateu uma saudade… Boa noite, amor.)

[Do livro: ENTRE BEIJOS E VINHOS, de SÔNIA MOURA]

INFORTÚNIO

Amor

 Infortúnio
(Autoria: SÔNIA MOURA)

Clarisse fechou os olhos e ouviu, outra vez, aquelas palavras mal ditas. Será que aquele homem não conseguia ver sua alma, seus pensamentos e seu rosto? Sentiu-se como um pedaço de carne colocado frente a um animal irracional faminto.
Não, ele não a ouvia, nada do que dissesse ou fizesse iria trazê-lo para a realidade, pois, assim como sua mente, seus olhos só tinham um foco: sexo e nada mais.
Naquele dia, Clarisse sentiu-se mal. Teria ela feito ou dito algo que encorajasse aquele comportamento? Não, absolutamente, não, ele é que era um ser inconveniente, grosseiro e mal educado. Estas eram as palavras que desenhavam o perfil daquela criatura.
Clarisse havia se interessado ´por ele, mas com este comportamento, impossível prosseguir com qualquer forma de relacionamento. Impossível!
Olhando as vitrines, os corações expostos, como o dela, trouxeram à tona a data comemorativa, era o dia dos namorados.Entristeceu-se. Estava sozinha, é Clarisse estava sozinha, e já fazia um bom tempo.
Continuou olhando as vitrines, enquanto em seu pensamento vinha-lhe a certeza absoluta de que “antes só do que mal acompanhada”.
Riu do seu infortúnio.
Comprou umas balinhas gostosas, entrou no cinema e pôde sonhar com o mundo real.

(Do livro: Minimamente Crônicas de Sônia Moura)

APELO

 Apelo                                                                          ave

(Autoria: SÔNIA MOURA)

Meu corpo pede o seu, que não vem, não vem…

Hoje um passarinho me acordou,

Era você, amor?

Fiquei a olhar aquele encantamento

E…

Por um momento

Vi você

Já faz tanto tempo

Meu suspiro, em forma de lamento,

A saudade, o pressentimento,

Você devia voltar pra mim,

Estou tão só…

Uma saudade

Um descontentamento

Volto pra cama

Sem nenhum alento

O pássaro, como você,

Ignora meus apelos,

Ignora meu tormento

E canta, canta

Seu canto me acalma,

Enquanto sua ausência me atormenta

Meu corpo pede o seu, vem, vem…

Nem que seja

Só por um momento

Vem…vem… vem…

(Do livro POEMÁGICAS de Sônia Moura)

GIRÂNDOLA

                                                          Roda

GIRÂNDOLA  (Autoria de Sônia Moura)

Gira, gira, gira sol
Gira, gira, gira mundo
Gira, gira, gira amor
Levando pra longe a dor

Roda, roda a poesia
Roda a mãe-natureza
Roda o Zorro o seu chicote
Roda a menina num xote
Roda o banjo o cantor
Roda na roda a mocinha feiticeira
Roda na dança o menino encantador

E, no meio desta roda,
Gira alegre um girassol
Girando a alegria infantil
Do menino e da menina
Encravada em todos  nós

Do livro POEMÁGICAS de SÔNIA MOURA

PENSO, LOGO EXISTO!

Penso, logo existo!                                        penso


Leiam parte desta reportagem:

Computador consegue ‘ler pensamento’ em experiência feita nos Estados UnidosApós treinamento, aparelho conseguiu prever em que palavras pessoas estavam pensando.
Próximo desafio é tentar usar funcionamento do cérebro para ‘decifrar’ frases inteiras. Pesquisadores americanos estão conseguindo treinar um computador para “ler” a mente por meio do acompanhamento de imagens de atividade do cérebro quando as pessoas pensam em palavras específicas. A equipe de cientistas espera que o estudo, publicado na última edição da revista “Science”, possa levar a um melhor entendimento de como e onde o cérebro armazena informação.
Isso poderia criar tratamentos melhores para desordens de linguagem e problemas de aprendizado, disse Tom Mitchell, do Departamento de Aprendizado de Máquinas da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, que ajudou a liderar o estudo. “A questão que estamos tentando responder é uma que as pessoas têm há séculos: como o cérebro organiza o conhecimento?”, disse Mitchell. “Foi apenas nos últimos 10 a 15 anos que nós conseguimos ter um meio de estudar essa questão.”

O que me preocupa é se realmente usarão este “instrumento” para o bem de todos.

Será????De qualquer forma, coloquemo-nos em estado de alerta, de prontidão e comecemos a exercitar nossas mentes, acho que será preciso, num futuro próximo, selecionarmos nossos pensamentos, isto é, controlar o que pensamos, para evitarmos sérios problemas.

CRUZES!!!! 

Se esta história é verdadeira, lá se vai a nossa última e verdadeira fronteira de liberdade: poder pensar em paz.

CRUZES!!!!

DE GRÃO EM GRÃO…

DE GRÃO EM GRÃO…     FLORESTA

Inpe aponta desmatamento de 1.123 km2 na Amazônia; 794 km2 em MT

SÃO PAULO (Reuters) – A Amazônia perdeu 1.123 quilômetros quadrados de floresta por corte raso ou degradação progressiva durante o mês de abril, informou nesta segunda-feira o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O Estado de Mato Grosso foi o maior desmatador. Mato Grosso foi responsável pela perda de 794 quilômetros quadrados desse total, de acordo com dados do sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), do Inpe.

(http://oglobo.globo.com/pais – VIA – www.niu.com.br)

Desmatamentos. Queimadas. Invasões. Transações (lícitas e ilícitas). Abusos. Contrabandos. Explorações.

Estas são as novas “Expedições Exploradoras” a invadirem o território nacional.

Somente um estrangeiro, “empresário empreendedor”, torna-se dono de 1.250 hectares num ponto da floresta Amazônica; e, em outro ponto, o mesmo empreendedor toma posse (ao menos no papel) de mais 1380 hectares, também, dentro da floresta Amazônica.

Este é somente um dos muitos empresários bondosos que hoje, legalmente, são os novos/velhos felicíssimos proprietários de terras brasileiras.

E de gota em gota, de pedacinho em pedacinho, de acre em acre ou de hectare em hectare, partes da floresta vão sendo derrubadas e seus espaços invadidos por brasileiros e por estrangeiros.

São “apenas” alguns acres, dirão uns, inocentemente ou não.

Pela extensão territorial da floresta, isto pode parecer pouco, mas, é “De grão em grão que a galinha enche o papo!”

O sinal de alerta há muito foi disparado, mostrando que de acre em acre a floresta Amazônica vai sendo invadida, devastada, desmatada, explorada, roubada, fatiada, sucateada, desrespeitada, degradada…” e muitas agressões mais, por invasores deste e de outros países, que dizem estar protegendo a fauna e a flora da Amazônica, mas, na verdade, eles vão de negociata em negociata”, enchendo os bolsos, as bolsas, as contas bancárias”, enquanto, por interesses vis, quem deveria tomar conta de um dos nossos maiores patrimônios – a floresta AMAZÔNICA – finge “cair no papo furado” desses criminosos, e, ciscando aqui e ali, todos vão, “de grão em grão”, enchendo o papo!