Bolhas da Saudade

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A colher de pau era mexida para lá e para cá e ia misturando o fubá, o leite e o açúcar, no preparo do alimento, enquanto isso, as lembranças se remexiam dentro do cérebro e, na mesma proporção em que os ingredientes iam-se misturando, a vida era repassada dentro de outra panela.

Precisava acrescentar erva doce e mais um pouco de leite à mistura, então, bateu a colher de pau na borda da panela, e, nesse momento, bateu uma saudade imensa dos tempos de outrora, quando, no colégio interno, pela manhã, era servido um gostoso mingau, que era mesmo divino.

Lembrou-se especialmente da vovó Donana, uma senhora baixinha, muito amorosa e que gostava dela, especialmente dela, hoje sabe que era a protegida da vovó. Sempre que possível ficava a seu lado ajudando-a a servir os pratos e vovó tinha uma mania, a cada prato servido, batia com a colher ou a concha na borda da imensa panela na qual era feita comida para as cinqüenta meninas do orfanato.

Naquela época a inocência era aliada da alegria e uma das maiores diversões para aquelas crianças que também quase nada tinham, era soprar a “casquinha do mingau” que se formava por cima do creme. Soprava-se e surgiam bolhas de todos os tamanhos. Quando não se formavam os buracos naturalmente na superfície, fazia-se um furinho sobre a crosta, para que o ar penetrasse e aí começava a brincadeira.

Em suas lembranças, aquela mesa comprida, cheia de meninas carentes, mas que disso não sabiam, não era a imagem da tristeza, pois agora, adulta, sabe que criança é feliz com muito pouco e fazer bolhas na crosta do mingau de fubá, que mais pareciam contas amarelas estufadas sobre o mingau, era pura alegria e diversão.

Sentou-se, abraçou-se com suas lembranças, espantou a solidão e, de novo, se viu naquela mesa a fazer bolhas de mingau, alegremente.

Um largo sorriso invadiu seu coração.

(Do livro CONTOS E CONTAS de Sônia Moura)

Os Homens e os Cães

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A autoria da máxima: “Quanto mais conheço os homens, mais admiro os cães” é atribuída a Rui Barbosa, Pablo Picasso e a outros mais.
Mas, seja lá quem for que tenha dito ou escrito este axioma primeiramente, convenhamos, merece aplausos, pois, em determinados momentos, é isso mesmo que pensamos sobre certas pessoas.
Quanto aos cães, não se preocupem, esses sempre serão admirados, salvo quando um deles, humanamente, nos ataca de forma animal.

DENTRO DAS CAVERNAS de Platão e de Saramago

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Relendo A CAVERNA de Saramago, e relembrando A CAVERNA de Platão, constato que o mundo mudou muito e também nada mudou. Parodoxal? Vejamos:

A alegoria da caverna, apresentada por Platão [A República – livro VII] é uma poderosa metáfora que busca descrever a posição do homem em relação aos estados de inconsciência criados pela incapacidade de este distinguir o que é apenas aparência do que é realidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras à nossa frente e tomá- las como verdadeiras.

É através do diálogo entre Sócrates e Glauco que Platão descreve em A República (livro VII) uma caverna onde pessoas estão acorrentadas nos pés, com o pescoço também acorrentado e imobilizado, obrigando-as a olharem sempre para frente. Presas a um banco; sentadas em frente a um a parede, as pessoas têm, atrás delas, uma fogueira que projeta imagens de passantes que carregam estatuetas sobre suas cabeças, assim, os prisioneiros só conseguem enxergar o tremular das sombras daqueles objetos. Portanto, o mundo, para estas pessoas, é feito de imagens, somente, imagens.

Em A Caverna, José Saramago narra a história de Cipriano Algor e de sua família, no início da narrativa assim constituída: Cipriano, a filha Marta Isasca (sobrenome/apelido herdado da mãe já falecida) e Marçal Gacho, o genro. Depois, chegam à família o cão Achado (quase humano) e a Isaura Estudiosa.

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Ladies and gentlemen …

Acabo de ler a seguinte notícia: “Goulart foi morto a pedido do Brasil, diz ex-agente uruguaio”(…) e o texto prossegue: “Barreiro, que está preso desde 2003 na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (RS), deu detalhes da operação Escorpião, que teria sido acompanhada e financiada pela CIA (agência de inteligência americana) para matar Jango.”
Ainda que, minimamente, a pessoa conheça a história do Brasil durante o período ditatorial e conheça também um pouquinho da história do país financiador deste assassinato, segundo declarações do “ex-agente do serviço de inteligência do governo uruguaio Mario Neira Barreiro, 54”, fica no ar a pergunta: Haverá alguma razão para se duvidar das declarações do ex-agente?

A Vida e a Arte

Pai e filha

A vida e a arte

Leiam este artigo: “Empregada descobre que patrão era o pai desaparecido e comprovem que nem sempre o ficcionista “inventa”, como geralmente se supõe, mas, certamente ele aproveita o que a vida tem de melhor ou de pior, para recriar. Recolhe os dados, rearruma os fatos, põe alguns adereços na história, subtrai, acrescenta e, por que não? inventa e devolve a todos o que já existe no mundo.

UNUS + VERSUS

Grand Universe, by Gary Tonge

O que já tem verso no nome

Que é um e ao mesmo tempo é todo

Certamente é filho, pai, irmão, irmã e mãe

do som e da poesia

Não nasceu do todo, nem do um

Pois nasce todo dia

Pelo som do vento

Nos versos da canção

No som dos risos ou dos prantos

No poema de amor

O barulho da chuva no chão

O ronronar dos gatos no telhado

O som do vulcão enraivecido

O som de flor ao ser despertada

O barulho das pisadas na areia

O estouro louco da boiada

É o som “big-ben”que ainda ecoa

Espalhando sons e poesias

Que formam o universo

O olhar de quem ama é pura poesia

O gemido do gozo é poesia mimética

O barulho das ondas é música poética

Pelo som de um violino, de um pandeiro,

De um piano ou de um tambor maneiro

O universo desperta em alegria

Mas, sempre o seu som vem primeiro

A vida é cheia de sons, de cores e poesia

Para que o universo renasça a cada dia

A cigarra canta, o sabiá responde,

Enquanto o coro da igreja anuncia

Alguém que já chega, alguém que se casa

Este é o som do universo renovado

O sino da igreja badalou anunciando

A morte , a dor de uma partida

É o universo chorando a despedida

De cor em cor, de som em som

No universo

Tudo é música e poesia

(Do livro POEMÁGICAS de SÔNIA MOURA)

A escadaria

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Havia muito pouco tempo que ela saíra do orfanato, no qual estivera por 13 anos. Lá viveu seus primeiros anos e naquela casa seus caminhos começaram a ser traçados. Aprendeu a amar as artes, as plantas, as pessoas e a vida. No pouco tempo fora do ninho, a maior vontade era para lá voltar. Como o mundo aqui fora era diferente, difícil. Sentia-se muito, mas muito só, mas continuava a crer na vida.

Fora morar com os tios no Leblon. Uma noite a levaram a uma festa no Humaitá. Até hoje ela se lembra do momento em que subiu a linda escadaria daquele prédio majestoso e, num dos degraus viu uma conta azul reluzente, apanhou-o e a tem até hoje. Nunca mais se lembrou da festa, das danças, lembra-se vagamente que tocaram uma música dos Beatles, mas da escadaria lembra-se de cada detalhe.

Um dia descobriu, aquela escadaria lembrava a primeira vez que subira a escadaria do orfanato, com muitas meninas cantando só para ela, foi a primeira vez na vida que se sentiu amada.

(Do livro Contos e Contas de Sônia Moura)

DUPLOS CLIQUES

Trabalho apresentado por Sônia Moura – Congresso “Sobre olhares” – UFF/ agosto/2006

OLHAR VISIONÁRIO

Para muitos, o olhar do visionário pode-se apresentar de forma obscura no que diz respeito à representação da realidade, pois este olhar circula por um universo misterioso e hermético, que o olhar de outros nem sempre consegue desvendar.

Os diferentes aspectos destas visões em chamas vão-se revelando ao visionário na medida em que este ser privilegiado não impõe coordenadas ou ordem àquilo que é olhado, fazendo com que o real estabelecido perca o equilíbrio e permita o encanto de revelações significativas, assim como o fazem as linguagens poéticas e proféticas, uma vez que entre o olhar e a palavra do visionário flui um íntimo e consagrado diálogo.

Um número ilimitado de experiências, nascidas das realizações de vivências criadas por estes poetas ou profetas – recriadores de sonhos, de fantasias, do tempo e do espaço – estas experiências surgem na forma de representações artísticas, por exemplo, a representação dos ritos e a consagração do mito plantados num mundo nem sempre reconhecido por nós, simples mortais, porque, verdadeiramente, este mundo reflete a imagem de muitas ausências.

Quando se tenta abarcar a realidade em toda a sua plenitude, pode-se ficar condenado a uma espécie de solidão. Aquele, a quem são permitidas as iluminações, alcança uma transcendência que o desviará de um destino terrestre e concreto, o que pode ser entendido como uma difícil solidão.

A primeira marca desta transcendência está acoplada à questão da temporalidade, que por sobrelevar muitos caminhos, transforma também a questão espacial e pela fusão modificadora destes elementos, a difícil solidão converte-se na mais pura liberdade.

As revelações mostradas ao visionário, e por ele a outros desvendadas, colocam-no em nosso mundo com a roupagem de divindade, uma vez que, suas visões provocam um olhar afastado das visões convencionais, então, a progressiva perda da realidade captada por este deus “adorado e excluído” enseja-nos pensar no não pensado.

A duplicidade pepassa toda a configuração do olhar visionário: o dito e o não dito, o visível e o invisível, o começo e o fim, o real e o imaginário, o possível e o impossível, o simples e o complexo, o deus e o diabo, o som e o silêncio, o coerente e o incoerente, o consciente e o inconsciente, o consistente e o inconsistente, o sagrado e o profano.

A partir daí, a presença do duplo, revelada pela palavra e pelo olhar dos visionários, projeta-se, por vezes, pela “metamorfose” em um outro que falará pela boca do visionário, alargando os caminhos dos mistérios, porque um deles, naquele momento estará fragmentado pela influência oculta da presença de um outro.

Deusas secretas, as palavras dos iluminados se apresentam na dicotômica fronteira do mostrar-se a todos e revelar-se a poucos, lançam-se no espaço e dão voz ao olhar. Por serem dotadas de uma magia infinda., esculpem, com tinta ou grafite, o que os olhos vêem, ou melhor, como os sentidos destes escolhidos percebem. Mostrando a tranqüilidade de um beija-flor e a agilidade de um felino. Estas palavras, inteiramente nuas, negam sentidos habituais, destronam significados, criam e recriam metáforas, substituem a noção de verdade pela noção de verossímil, trabalham o significante do signo, enfim, promovem a revolução.

Os “iluminados” incitam o imaginário por suas posturas ambivalentes, sob o efeito do momento sagrado, são eles verdadeiros artistas criam e recriam idéias, palavras, imagens; os profetas conduzem seus rebanhos pela proposta de reformulação da ordem ou da desordem; os xamãs, os pajés, os pais-de-santo e guias espirituais, invocam os poderes sobrenaturais para servirem de intermediários entre estes e os seus.

Germe do mundo, cíclica e adorada, a semente (matriz)ao metamorfosear-se em vegetal recebe todas as homenagens pela ocasião da colheita. No paraíso foi através do fruto, produto do vegetal, que o pecado e o pecador se encontraram e conheceram a ira do Senhor. Alguns ritos profanos, num desdobramento fantástico de novas “leituras”, transformam-se em ritos religiosos por ser impossível apagar a imaginação, assim também a expressão autêntica da visão vive das transferências que se estabelecem entre este e o outro plano.

Tendo como mediadora as diversas demonstrações culturais, o sagrado e o profano unem (mesmo quando fingem se afastar) para ratificar os poderes concedidos aos visionários. Os mistérios da fé, os cânticos (religiosos ou profanos), os ritos, os mitos, os símbolos e a sua perpetuação, mesmo quando sujeitos a toda gama de modificações, colocam o homem em contato com o cosmogânico, com o ovo –gênese do mundo, com a realidade primordial, com a multiplicidade dos seres, com a imagem do mundo e com a sua própria imagem ainda não desvendada.

O duplo barroco emoldura a definição atribuída ao visionário, enquanto a estética simbolista desenha-lhe o olhar e a arte surrealista confere-lhe a primazia de todas as manifestações do subconsciente, das imagens e a faculdade de se expressarem livremente, deixando correr livre o pensamento na sua forma espontânea e irracional.

Guardião da palavra e do olhar , assim como o tempo e o seu divino regresso, mensageiros da memória do mundo, em suas iluminações, o visionário tenta tirar o homem do seu isolamento e do silêncio de um bosque submerso, para que este possa ter o encontro inesperado e presenciar o diálogo entre a sanidade e a loucura.

Apoiados no olhar do visionário, somos levados à presença dos deuses para que possamos participar da representação do imaginário e de sua realidade fundamental: o encontro com os nossos segredos; como os que estão contidos nos arquétipos ancestrais.

Pela estrada afora…

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Eu encontrei alguém numa esquina do mundo
Não sei seu nome ou o nome daquele lugar,
Apenas me lembro de que ali havia a nascente de um rio
E por seu leito descemos, até encontrar a mais linda flor de lótus
Tão linda e tão suave que brilhava ao luar

Olhei em seus olhos e vi a paz a me olhar
Suas mãos seguraram a minha. Fazia frio
Mas ele estava ali para com seu carinho me aquecer
E assim dormimos abraçados, e nos permitimos sonhar

O sol chegou, e eu sem resistir
Continuei com ele a caminhar
Embrenhamo-nos por uma floresta tardia
Subimos montanhas, brincamos com macacos
Olhamos o céu, escutamos o mar

E prosseguimos viagem sem para trás olhar
Tudo era tão calmo em sua companhia e
Ainda que a chuva molhasse nossos dias
Um sol nascido do amor nos aquecia
E muitas alegrias minavam nossa estrada
E seguíamos sem medo de nada

E nos descobrimos nesta  longa estrada…

(Do livro POEMÁGICAS de Sônia Moura)