Sendo a arte o repositório de informações culturais de uma época e o artista, aquele que trabalha a realidade, o sonho e a utopia, abordar a concepção artística, compreendida na definição do fenômeno trágico é, de certo modo, reafirmar que “a perda da Tragédia leva o homem à perda da fé e da crença na própria imortalidade”.
O artista em sua aventura visual, em suas viagens e descobertas pode (ou deve?), com sua obra de arte, arrastar o espectador e colocá-lo surpreendido com o seu destino, já que o homem de todos os tempos sente a necessidade do prazer estético, do olhar, da harmonia, do equilíbrio, do ritmo e da composição.
A obra de arte tem forma e obedece às leis da forma, pois ao elaborar a representação artística de pessoa ou de objeto, o artista sabe que sua obra estará sujeita ao material usado: madeira, ferro, tela ou pedra, ao contexto e as influências sócio-históricas, aos seus desejos e sonhos, os quais permeiam o fazer artístico, no entanto, o que garantirá a emoção e a sensação da obra de arte, será o ritmo visual e as relações estabelecidas no/e pelo olhar do espectador.
Para interpretar o antagonismo estético entre as forças Apolínicas e Dionisíacas, Nietzsche passa da metaforização estética à oposição psicológica (sonho, embriaguez), assim, a arte do homem torna-se um acontecimento cósmico, quando a tragédia dramatiza uma realidade muito forte e pela dramatização acontece a catarse, confirmando-se, então, a relação entre a arte e a vida.
A carência gera a necessidade, a Tragédia, a mudança e é pela sensação de recriação produzida por meio da Tragédia (produção artística) que o homem saboreia, participa do que é natural e ao mesmo tempo fictício, e é neste instante que acontece a condensação , a identificação com uma situação incômoda e que precisa ser expurgada. Neste embate entre a realidade e ficção, a Tragédia permite que da identificação, nasça o conflito e dele se origine o alívio, dando-se , assim, a catarse.
Deste modo, o processo criativo na sua invenção, um dos pontos primordiais em destaque no texto O Nascimento da Tragédia de Friedrich Nietzsche, mostra que a obra de arte, seu conjunto de imagens e as inesperadas associações podem criar múltiplos centros significativos, expandindo a função artística, para que o viés privilegiado do olhar se delicie com as versões e subversões artísticas.
Mês: dezembro 2007
A boneca
Todos diziam que Victória parecia uma boneca. A menina cresceu ouvindo frases assim: È mesmo uma bonequinha! Que graça, parece uma boneca! Nunca vi uma boneca mais linda!
Em casa era tratada por “minha bonequinha”. Victória cresceu acreditando nisto, também pudera!
Não se formou, porque era uma boneca. Coitadinha! Não se casou porque, nenhum homem conseguiu satisfazer os desejos da bonequinha. Coitadinha! Não viveu, porque era uma boneca. Coitadinha!
Um dia, a pobre bonequinha colocou seu vestidinho roxo, bem rodadinho, seu colar de contas amarelas, enfiou-se dentro de uma caixa enorme e lá se deixou ficar. Para sempre!
Coitadinha!
[Do livro CONTOS E CONTAS de Sônia Moura]
A história de Lourival

Vou-lhes contar a história
De um conhecido meu
Seu nome é Lourival
Estranha a situação
Do meu amigo Lourival
Não sabia se era do bem
Ou se amava o mal
Coitado do Lourival
Tudo o que lhe ensinado
Parecia a ele dizer
Que tudo do que ele gostava
Era pecado e não prazer, então,
O melhor era, “certas coisas”
Não fazer
Pobrezinho do Lourival
Vivia amuado lá no fundo do quintal
Foi minguando
Foi secando
Até desaparecer
Assim morreu Lourival
Não tão velho e
Nem tão moço
Não tão magro
Nem tão gordo
Não tão bom e
Nem tão mal
A alma de Lourival, dizem
Que hoje vaga por aí
Atormentando quem passa
Pelo fundo do quintal
Pois lá está a alma do Lourival
A perguntar a todo mundo:
Isto é bom ou isto é mal?
CAMINHÃO DE MUDANÇA

Antes da catástrofe financeira, o marido havia pensado em se separar, queria ficar livre para curtir a vida, agora era muito rico, queria conhecer muitas mulheres, ser dono do seu nariz. Viver.
Não tendo coragem para falar abertamente com a mulher sobre o seu desejo, escreveu uma carta, ainda assim faltou coragem para colocá-la no correio. Depois mando esta carta, pensou.
O empobrecimento repentino trouxe uma surpresa, descobriu que amava sua mulher, e que mulher! Ficou a seu lado, enquanto quase todos lhe viraram as costas, inclusive as “namoradinhas”, ninguém queria ficar ao lado de um derrotado. Ninguém, não, ela e alguns familiares ficaram.
A vida da família mudara bastante, eles também precisavam mudar-se para longe. Adeus praia, jóias, carro do ano, roupas de grife, viagens. Adeus.
Logo cedo, o caminhão de mudanças chegou, rapazes fortes iam pegando móveis, eletrodomésticos, caixas, pacotes, tudo. O desconsolo do casal era visível, as crianças ainda não entendiam muito bem o que estava acontecendo, mas foram avisados de que tudo iria mudar muito.
O caminhão seguia pela avenida principal e a família seguia logo atrás, no fusquinha que um primo dela emprestara. De repente, uma freada brusca. A porta do caminhão – baú se abriu, pacotes e caixas foram para o asfalto. Trânsito parado, confusão. O que houve? O que aconteceu?
O motorista, branco feito um fantasma, explicava que o motoqueiro surgira abruptamente, só tivera tempo de frear. O motoqueiro apalermado, levantou-se, por sorte não fora atingido.
– Meu Deus, protegei a minha família, rezou baixinho a mulher, pensando que este poderia ser mais um problema. E se perdessem algo importante? Todos começaram a juntar o que se espalhara pela rua. De repente, o menino mais novo gritou: – Pai, a caixa caiu no canal, vai afundar, paaaaii…..
Foi a mãe que correu para tentar salvar a caixa, mas não houve tempo. Enquanto a caixa ia afundando lentamente, eles ainda conseguiram ler a palavra que a identificava: ESCRITÓRIO.
Como um raio, veio à memória do homem – a carta! Estava tão escondida, até ele se esquecera dela. Agradeceu a Deus, a mulher começou a chorar, ele sorria e chorava.
O homem foi tomado por uma enorme onda de alegria, abraçou bem forte a mulher como se quisesse recuperar o tempo perdido, como se no abraço ela pudesse ouvir tanta coisa que precisava lhe dizer. Conseguiu, entre lágrimas e risos dizer: EU TE AMO, depois, disse sorrindo: não tem importância, meu amor, nada do que está ali faz mais sentido.
Ela achou que ele tivesse fazendo referência ao que acontecera com a firma.
MOURA, Sônia Maria S. Minimamente Crônicas. Rio de Janeiro: Madressilva Produções Culturais, 2006.
RETICÊNCIAS

RETICÊNCIAS
(Ao Valter, poeta de plantão e meu anjo da guarda)
Pode ser num jardim florido…
Pode ser atrás da pilastra, no pátio do colégio…
Pode ser só no sonho ou na fantasia…
que alguém se encontre no mundo para amar
Pode ter sido só por uma noite ou por um dia…
Pode ter sido só por uns momentos de alegria…
Pode ter sido só por necessidade de recomeçar…
Pode ter sido só uma tentativa de gostar…
que alguém tenha se encontrado para amar
Quem sabe um dia aquele encontro entrará noite adentro…
Quem sabe o pátio do colégio esteja no mesmo lugar…
Quem sabe numa escada rolante nosso olhar volte a se encontrar…
Quem sabe o tempo jogue um nos braços do outro…
e ninguém terá como do destino escapar
{… }
[Do livro POEMÁGICAS de Sônia Moura]
Sexo e Chocolate
“Sexo e chocolate aumentam capacidade cerebral, diz livro.”
“Fazer sexo, comer chocolate amargo e consumir um café da manhã rico em frios pode ser o segredo para treinar e impulsionar a capacidade cerebral.”
Falando sério…
Quem pode ter os dois, está com tudo e não está prosa (como diria a vovó), mas, para aqueles que não têm o primeiro com a freqüência desejada, ainda há um consolo (sem trocadilhos!!!):
O chocolate amargo é vendido nos mais variados lugares; existe em diversos formatos; dá para comprar um tablete, um docinho ou pedação de bolo, torta (ou vários), levar na bolsa ou no bolso (neste caso, cuidado com o calor dos trópicos).
E tem mais:
Pode-se repetir a dose, sempre que se desejar, a qualquer hora, em qualquer lugar e como quiser.
Outras vantagens:
Pode-se comer esta delícia sozinho, acompanhado (se for a dois, é sinal de que já se tem os “dois”) ou, até mesmo, pode-se saborear esta iguaria em grupo.
E …ainda não acabou:
Não custa uma fortuna e não traz quaisquer aborrecimentos (cuidado para não exagerar!).
ATENÇÃO: Deixei os frios de fora desta história, por entender que o sexo e os frios são incompatíveis. Já com o chocolate os frios até combinam em certas situações, mas esta já uma outra história!
Comemoração
Comemorar relaciona-se com lembrar (questão de raiz, de etimologia).
Hoje um aluno, já homem feito, chorou em meu ombro.
Chorou de emoção porque se lembrou de mim, dos tempos em que ele menino, chegou em minha vida. Segundo ele, fui alguém muito importante e daqueles tempos ele guarda boas lembranças.
O que mais eu posso querer? Fui lembrada como alguém que fez o outro ser feliz e crescer.
Obrigada a você, de quem, a partir de hoje, sou a eterna e grata aluna.
Com você, aprendi que a gratidão é um bem precioso que se guarda no coração.
