SIM & NÃO

simnao

Travaram  meus sentimentos

Trancaram o meu coração

Tiraram o meu passe livre

Trocaram meu sim por não

 

Meus dias vivem em trevas

Machucaram a minha paixão

Mandaram meu sonho embora

Mudaram meu sim pra não

 

Escrevendo estas trovas

Acalmo a desilusão

Retirei travas da alma

Entendi o sim e o não

 

(Da obra: COISAS DE ADÃO E EVA, de Sônia Moura)

 

SEM AMANHÃ?

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Esmeralda disse à Sofia que tinha certeza de que tudo estava acabado, não havia mais esperança, uma pena, pensou ela, porque ainda havia muito amor.

A manhã se prenunciara entre nuvens, mas um sol tímido começava a despertar, e, enquanto as ondas mexiam as areias, a saudade remexia os pensamentos de Esmeralda.

Sentada na bela varanda, a dona da casa chamou a empregada e pediu:

– Margarida, por favor, sirva o café.

A visitante Sofia, encantada, exclamou:  – Que bela vista, Esmeralda, este lugar é lindo!

Terminado o café, as amigas saíram a passear. Os olhos de Esmeralda, verdes como a mata, nadavam num lago salgado, feito de lágrimas e dor, muita dor.

A seu lado, Sofia tentava consolá-la. Pobre amiga, para eles não haverá mais o rio tranquilo da paixão. Preciso ficar ao lado dela, olha só quanta tristeza!

Depois, apoiou-se no braço da amiga e lhe disse sorrindo:  – Amanhã será outro dia.

– Outro dia? Retrucou Esmeralda, daqui em diante minha vida será sem amanhã.

Esmeralda pensava nos versos que Rui fizera para ela: Sem você, sombras cobrirão o céu/Sem seu carinho, andarei ao léu/Sem seu amor…

Não conseguiu chegar ao fim do poema. Por que ele me deixou, por quê?

Vendo que a tristeza queria tomar posse da alma da amiga, Sofia lhe disse: – Saia da concha, querida, o que vale é viver.

No vale, os primeiros raios de sol despertavam a vida e, neste momento, a imagem morta da tristeza começava a se desintegrar.

Será que o sol finalmente a despertara? questionou a amiga.

(Da obra; GAVETAS SECRETAS de Sônia Moura)

 

EXÍLIO

EXÍLIO (por SÔNIA MOURA)

Paguei para imprimir o seu retrato, depois peguei um fósforo e me propus a queimar a sua imagem. Risquei o fósforo, o fogo começou a lamber deliciosamente o papel pelas beiradas. Quando as chamas estavam prestes a alcançar a sua imagem, apaguei o fogo com a mesma rapidez das chamas enlouquecidas. Endoideci, desisti e abafei a labareda, ao mesmo tempo que o fogo do amor me devorava.

O fogo insano e a paixão menina alimentavam o desejo sobre-humano, este cavalo bravo no qual só se pode cavalgar, segurando-o pela crina.

Dúvidas, dor e desencanto cavalgavam no prado verde da ilusão. Montada no indomável cavalo chamado Desejo, cavalgava a corajosa esperança, enquanto por estradas vicinais, a desesperança troteava em minha alma.

A foto já estropiada me olhava com a cara apaixonada e eu, iludida, a acreditar que tudo voltaria a ser como antes, num tempo de tanto amor. A um canto, a desilusão zombeteira a me provocar, a me mostrar que aquele amor estava vivo somente na fotografia e que daquele antigo amor nada mais existia.

FTOEMCHAMAS

As contas de um desencanto

FotoRasgada2Os vendedores já a conheciam. Mais uma vez, comprou um livro no sebo, gostava disso. Livros antigos, já manuseados por outros. O que teriam achado da história? Leram por prazer ou por obrigação? Comprava, lia e passava adiante. Dizia sempre que livro foi feito para trocar de dono e que o autor, após o livro editado, perdeu a primazia da autoria, passara a ser coautor.

Além das histórias narradas, também se encantava com o que encontrava nos livros usados. Uns escreviam lindas declarações de afeto, outros, apenas colocavam seus nomes e, se fossem estudantes, assim ela deduzira, o nome tinha que estar completo, às vezes, com o nome do colégio e da turma.

Já encontrara dentro de livros alguns tesouros, formados por palavras observadoras, que acrescentavam o que o leitor, agora também coautor, pensava. Encontrara flâmulas, flores secas, folhas, penas, fotos, mas só uma chamou-lhe a atenção, e foi sobre ela que a compradora me falou.

Aquela imagem encantou a leitora, e as palavras foram caindo de sua boca, lentamente, como se fossem contas de um colar que se partira.

Era uma foto cortada e nela se via o rosto sorridente de uma bela jovem, a felicidade fora capturada. Embora houvesse sido cortada, ainda dava para ver que a foto era de um casal, pois ainda se via parte de  uma cabeça masculina, encostada na cabeça, cujos lábios sorridentes encantaram a leitora.

Quem seriam eles, o que os separou, como mostrava a foto mutilada? A leitora jamais terá respostas a estas perguntas, mas, uma coisa é certa, quando as dimensões do amor se rompem, o amor acaba. Então não há palavras que traduzam o sofrimento do desamor, o passado enevoado se torna invisível, e, até mesmo um retrato se torna divisível, sem que nada mais reste, além da dor.

 

Sofregamente, minha poesia desabrochou,

Uma trilha bem marcada ela deixou

Mergulhando num  rio sem labirinto

E sem nenhum pudor

Desnudou-se para o nosso amor

 

Muita água vai rolar por esta estrada,

Pressinto

 

(Da obra: Poesia dia a dia, de Sônia Moura)caminhos

TEMPO! TEMPO! TEMPO!

CHICOTES DO TEMPO

TEMPO! TEMPO! TEMPO! [por Sônia Moura]

 

A passagem do tempo é metáfora

Ainda assim, o novo ano não há de tardar

Há uma cadeia com elos de esperança a se formar

Quantos divinos encantos se esconderão nesta corrente

Que todas as gentes se põem a desejar?

Faz parte da arte de quem segura este estandarte

Assim, envolvidos pela fantasia

Todas as gentes seguem cumprindo seus destinos

Penetrando nas raias da ilusão, da crença e da paixão

Tempo, menino vadio, que corre macio sem se preocupar

Porque ele sabe que não vai mais voltar

Sua presença é pedra rara, tão fugaz como qualquer ficção

Abelha que suga o mel e depois procura outra flor

Como um mago nos pega pela mão e encanta

E, sem nenhum pudor, amputa certezas, acalma as brabezas

Tempo, todo faceiro, exibe sua nobreza com altivez

Fingindo nos dar a lucidez do controle impossível

Do seu flutuar,

Tempo, tempo, tempo!

Entre o ontem, o hoje e o talvez

Doce quimera a brincar com as gentes

E a visão de todos loucamente turvar

 

Da obra: Poemas em Trânsito, de Sônia Moura