BOCA VERMELHA E A LUZ DO LUAR

                                     boca vermelha

BOCA VERMELHA E A LUZ DO LUAR

(Autoria: SÔNIA MOURA)

A boca vermelha falava mansinho:
-Te amo, te quero, vem cá meu carinho
Ele, ofegante, chegava mais perto
Ela, faceira, a repetir, repetir…:
-Te amo, te quero, vem cá meu benzinho
Quero te amar
No escuro da noite, a boca vermelha
Era ornamento para o quarto inquieto
Para a cama desfeita
Para o espelho à espreita
Esperando que a boca vermelha
Voltasse a implorar:
-Vem cá, meu benzinho, vem cá!
-Quero te amar
Com olhos atentos
Ele espreitava o vermelho vivo
Da boca carnuda, ali, a implorar:
– Vem cá, meu benzinho, não vou agüentar…
Preciso te amar
O sol se anuncia
Um som se rebela
Uma luz esmaece
O homem estremece
A boca sumiu
O vermelho partiu
Seu sonho de amor
Ficou no lençol
Restos do desejo
Em branco leitoso
Nascido da boca vermelha
E da luz do luar…
(Do livro POEMAS EM TRÂNSITO de SÔNIA MOURA)

CORPOS CELESTES

CORPOS CELESTES (Autoria: Sônia Moura)

CORPOS

Ainda hoje sinto saudade do seu abraço
Ainda ouço sua voz solta na madrugada
A me dizer baixinho:
– Sou louco por ti, pequenina!
Enquanto seus braços, de mansinho,
Qual dois ramos da videira,
Me enlaçavam, me envolviam
Me puxavam para junto do teu corpo

Neste momento, nossos corpos celestes
Se mudavam para um céu aqui na terra
E nos amávamos na madrugada escura
O cheiro do amor se espalhava pelo quarto
Dormíamos imersos numa felicidade pura

Ainda sinto o teu calor a me aquecer
Só não consigo te esquecer

Preciso ver você
Preciso ter você
Mas como te encontrar?
Como?

Peço aos deuses que me honrem com tua presença
Rogo aos anjos que me ajudem a te encontrar
Imploro aos orixás que me permitam, mais uma vez
Te amar, te amar, te amar…

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

A FALA DO AMOR

AMOR

A FALA DO AMOR (Autoria: SÔNIA MOURA)

Quem ouve a fala do amor
Ouve a voz do bem dizer
A voz do bem querer
Que dá vez ao desejo
À felicidade, à paz e a muito mais

Ao ouvir a fala do amor
O ouvinte se desfaz em carinhos
Em mimos e em fantasias de menino
Mesmo que digam que esta é uma fala incerta
As orelhas transformam-se em portas abertas
Suplicando palavras
Suplicando imagens
Suplicando coisas do amor

Mesmo que esteja ouvindo pelas frestas
O amado faz a festa
Lança-se contra as garras do tempo
– Paralisa-o, eterniza-o, sacraliza-o –
Depois, inunda lugares
Navega, voa e entoa loas
Fazendo do amante santo
Envolve-o com o seu manto

Quando ouvem a fala do amor
Todos os amantes tornam-se sonhadores
Pois este é um cantar tão leve
Que desliza como a maciez da neve
Derretendo-se nos ouvidos que
Como flor, desabrocham docemente

Quem ouve esta fala mansa
O Nirvana alcança
E sai flutuando feito um passarinho
Enrosca-se no ninho
Ali se deixa ficar
Ouvindo a paz
Por caminhos do amor a navegar

(Do livro POEMÁGICA de Sônia Moura)

Ninho

REVELAÇÃO DO DESEJO

Revelação do Desejo  (Autoria: Sônia Moura)


Deixe o desejo chegar em sua glória
E ficar pelo tempo que desejar
Se permita sonhar, de olhos abertos ou fechados
Deixe que venham as fadas, os duendos e as borboletas
Fale com as flores
Isole o tempo (por um tempo)
Depois pegue a chave que abre o teu sorriso
Deixe-o arrebentar-se em versos dispersos
Sorriso a borbulhar
A se encantar com o desejo a se revelar

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura) desejo

ESTALAR DE SONHOS

ESTALAR DE SONHOS (Autoria: Sônia Moura)

A tinta vermelha contrasta com a tristeza
E eu me pergunto:
Por onde andarão meus sonhos,
Nesta sexta-feira noite- solidão?

Por onde andarão meus sonhos,
Perdidos, molhados pela chuva pós – verão,
Pendurados nas lágrimas da verdade
Ou estarão guardados no cofre de idade-ilusão?

Por onde andarão meus sonhos,
No altar do sorriso que não mais se vê,
Na imagem da televisão- companhia
Na falta de vontade de ler, de escrever,
Ou estarão presos pela vontade de ele
Que sabe um dia de novo aparecer?

Por onde andarão meus sonhos,
Driblando habilmente a realidade,
Escondendo nas gavetas a verdade,
Ou estarão sendo deglutidos
Soberbamente pela desilusão?

Por onde andarão meus sonhos,
Nos resíduos de minhas saudades,
Desatando nós, desfazendo laços,
Esbarrando com o meu cansaço,
À procura do teu antigo abraço,
Depositado no banco da saudade?

Por onde andarão meus sonhos,
Relendo Nietzsche , ouvindo Zaratrusta,
Embaixo de um arbusto na savana,
Ou estarão escondidos feito amantes,
No sorriso- passarinho de Mário Quintana?

A intuição me diz que eles estão a se revelar,
E sinto que estão a me rondar,
Todos prontos a desabrochar
Sinto no ar o suave ruído

De um estalar de sonhos!

(Do livro POEMÁGICAS de Sônia Moura)

Estalar de sonhos

LENÇOL DE SEDA

           ENTRE LENÇÓIS DE SEDA

Lençol de Seda (Autoria: Sônia Moura)    
Primeiro…

Sobre teu corpo debrucei-me com ternura
Beijei-te como se afagasse as pétalas de uma flor
Sorvi teu cheiro
Senti teu hálito
Na concha da tua orelha com gosto de mar
Disse baixinho um poema
Sobre as coisas de amar
Ouvi teus gemidos
Envolvi-te como um lençol de seda
Fartei-te com doces abraços
Mostrei-me presa a você
Senti teu gosto

Depois…

Enlouqueci meus anjos
Aticei meus demônios
Sofregamente entrei em ti
Com a fome dos desesperados
Tatuei-me em teu corpo
Como uma prece fervorosa
Beijei-te com os lábios
Da mulher louca e amorosa
Suguei-te a vida antiga
Sorvi teu gozo
E dei-te vida nova

Por fim…

Amei-te com as marcas da eternidade
E guardei-te num lugar secreto
Onde uma divindade abriga
Sua imagem, seu cheiro, seu carinho
E mesmo agora que já deixaste o ninho
Em tua lembrança eu encontro abrigo
Pois ainda hoje estás comigo
Porque ficaste gravado em mim

(Do livro: POEMÁGICA de Sônia Moura)

PALAVRAS POÉTICAS

Palavras Poéticas [por Sônia Moura]

Quando se perde um amor
A alma se exila no deserto
Faz-se o silêncio
E acontece a total renúncia
De si mesmo
Morrem os sonhos,
Morrem os deuses
Nasce o desengano

Não se ouve mais o murmúrio
Das ondas do mar
Nem seus apelos sonoros, repetidos,
Não há mais o mar, nem a espuma

Faz-se treva, cessa a luz,
Não há mais o orvalho
Só a bruma se refaz
Não há mais como ver teu rosto

A tristeza se ergue em garbo triunfante
Some a imagem do amor – amante
E, a um canto, um bem-te-vi tristonho
Canta seu canto, tentando demover
O terrível desencanto

Enveredando pelos caminhos do mistério
Só o poeta consegue aplacar a dor
Do desamado

E como emissário de um anjo
O poeta penetra nos limites da saudade
Aliviando a dor do desamor

Com suas palavras, o poeta
Cobre um leito com flores coloridas
Onde o que sofre por amor se deita
Para voltar a sonhar…

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

DESAMOR

O COELHO MARQUITO

                                                                                coelho                                                     

O Coelho Marquito


(Autoria: Sônia Moura)

Esta é a história fascinante
Do coelho viajante
Que se chamava Marquito

Marquito era muito engraçado
E também atrapalhado
Ele achava que era um cabrito

Ninguém entendia aquilo
Mas o que se podia fazer?
O coelho era teimoso
E batia o pé a dizer:
– Não adianta tentarem
Ninguém vai me convencer
Marquito teimava tanto
Que chegou a adoecer

A macacada dizia:
– Acorda, ô, Zé –Mané,
Você não é cabrito,
Olha as suas orelhas,
Seu rabicho, suas patas
Este seu nariz achatado
Por que cabrito quer ser?

Os outros bichos faziam coro
-É isso aí, coelhão
Para com esta zoeira
Está bancando o bobalhão

Mas Marquito insistia
Cabrito queria ser
Rebelou-se, foi à luta
Foi o mundo conhecer
Foi à China e ao Japão
Foi a Roma e ao Uzbequistão
Foi à França e ao Cazaquistão
Visitou os continentes
Mas, Marquito, o viajante
Ainda não estava contente

Então prosseguiu viagem
Fazia camaradagem e
Onde ia, perguntava para a bicharada:
– Eu sou um coelho ou cabrito
E os bichos em coro falavam
– Você é um coelho, Marquito
Marquito não entendia
Pois cabrito se sentia

E assim seguiu mundo afora
Até um dia encontrar
Uma coelha charmosa
Que Marquito quis namorar

Foi aí que tudo mudou
Marquito se convenceu
Que não era um cabrito
E tudo se clareou
Marquito ficou feliz
E logo para casa voltou
Com Joana se casou
A coelha sabidona
Que seu coração conquistou!

(Do livro: Brincadeiras de Rimar de Sônia Moura)

ERA UMA PULGA?

ERA UMA PULGA?    

(Autoria: SÔNIA MOURA) 

                                                                                                                         

                                                                                                PULGA

Uma pulga pulou no meu casaco
Tiplum! Tiplum! Tiplum
Fiquei tão nervoso
Que soltei um pum!

Uma pulga pulou no meu braço
Plact! Plact! Plá!
Fiquei com muita raiva
E gritei sem parar

Uma pulga pulou na minha barriga
Se escondeu no meu umbigo e…
Nach! Nachc! Nhac! Nhá!
Me mordia sem parar
Fiquei todo atrapalhado
Pois só fazia me coçar

A pulga seguiu o seu caminho
E continuou me mordendo sem parar
Nhammm!Nhamm! Nhamm!
Fiquei tão desassossegado
Que comecei a pular

Agora não dava mais
Tinha que a pulga encontrar
Mexi pra lá, mexi pra cá
Mas a pulga se escondeu
E nada de ela eu achar

Não sabia mais o que fazer
Meu irmão veio então me socorrer
Cata daqui, cata dali
E também cata acolá
E nada de a pulga encontrar

Aí chamei a mamãe
E ela veio o meu corpo vasculhar
Cata daqui, cata dali
E também cata acolá
E nada de a pulga encontrar

Eu, já desesperado
Sem saber o que fazer
Pensei: não posso ficar parado
Corri então para o banheiro
E disse: Esta pulga agora vai ver

Deixei a água escorrer
Esfreguei todo o meu corpo
E tornei a esfregar
Lavei todos os cantinhos
E o sabão era a fartar
Choc! Choc! Choc! Chac!

Depois que tudo acabou
A família só fazia me encarnar
Dizendo que não era pulga
Na verdade, era um bom banho
Que eu precisava tomar!

E todos riam de mim
Todos riam sem parar
Ri! !Ri! Rá! Rá! Rá! Rá!
Qui!Qui! Quá!Quá!Quá!Quá!

(Do livro: BRINCADEIRAS DE RIMAR de Sônia Moura)