(ÍMÃ)GENS

 (ÍMÃ)GENS

(ÍMÃ)GENS (Autoria: Sônia Moura)

Imagens mudas surgiram na noite a me atormentar
Imagens falantes nasceram de dia a me consolar
Imagens tão puras vararam à tarde para me afagar
Imagens lascívias brotaram na madrugada para me amar
Imagens alegres surgiram de dia para me envolver
Imagens dissimuladas nasceram à tarde a me maldizer
Imagens mascaradas vararam a noite para me comover
Imagens de pássaros voaram na madrugada a me embevecer
Imagens feiticeiras ilustraram meu sonho a me seduzir
Imagens matreiras criaram uma estrada para me conduzir
Imagens sem face surgiram na lembrança a me confundir
Imagens sem alma nasceram das sombras só para me ferir

Imagens esculpidas em noites, tardes ou manhãs
Imagens renascidas em sonhos ou por lembranças vãs
São espectros de retratos presos na memória
Por poderosos ímãs a magnetizar nossa história

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

(ÍMÃ)GENS


FICCIONAL e FACTUAL – entre a memória, a criação e a história

 FICCIONAL e FACTUAL - entre a memória, a criação e a história

 

FICCIONAL e FACTUAL – entre a memória, a criação e a história

                               (Autoria: SÔNIA MOURA)

 

Em O Fictício e o Imaginário – Perspectivas de uma Antropologia Literária (1996: 39), Wolfgang Iser, destaca que a proximidade entre o texto ficcional e o factual se dá porque ambos estão submetidos à intencionalidade de seus autores, quando estes selecionam os elementos que devem fazer parte da narrativa. Iser observa também que, quando afastados do seu campo referencial, os elementos narrativos estarão fortalecidos por outros que estão ausentes e vice-versa.

Quando projetados em outra contextualização e afastados do seu campo de referência, outro peso é atribuído aos elementos selecionados, promovendo a “transgressão de limites”, e é esta transgressão que possibilita a estes ultrapassarem as fronteiras entre ficção e realidade.

E, uma vez que convivemos com múltiplas realidades, podemos entender que, aliadas a valores simbólicos de qualquer modo textual, as formas narrativas funcionam como bases ratificadoras de que os sistemas institucionais nos apresentam realidades previamente conceituadas, edificadas e/ou reificadas, por meio das quais se pode perceber que o real é apenas uma peça na vasta engrenagem a qual comanda o cotidiano, a única realidade possível, como definem Berger e Luckmann: “Entre  as múltiplas realidades há uma que se apresenta como sendo a realidade por excelência. É a realidade da vida cotidiana”. 

Assim, sendo o discurso um dos construtores de significações, através dele, novas vozes textuais surgem e vozes textuais antigas e historicamente constituídas podem ressurgir, para enunciados, os quais, em algum momento da história, já foram registrados, ficcionados,  catalogados, editados ou publicados, como marca  da ação narrativa de muitos sujeitos sobre o mesmo objeto, como é o caso, por exemplo,  do fato histórico abordado por Josué Montello,  em O Baile da Despedida.

(UFF – 2009)

FICCIONAL e FACTUAL - entre a memória, a criação e a história

APENAS PALAVRAS

 APENAS PALAVRAS

Apenas Palavras  (Sônia Moura)

Chove bastante lá fora e em meu coração também, comprova Maíra. Tudo nublado, triste, sombrio, apenas as gotas que escorrem pela vidraça, exibem um toque de beleza e alegria, quando a luz artificial bate sobre elas e as transforma em contas multicores. Enfim, o que traz beleza à cena é nascido do artifício, assim como é totalmente artificial o amor que ela vive neste momento. Ela fecha seu diário e se põe a devanear sobre o poder das palavras.
Se eu pudesse, transformaria minhas palavras em aves com seus bicos pontudos, e pediria para que elas puxassem os sete véus que escondem as artimanhas do amor, só então eu poderia ver em que caminho o verdadeiro amor se esconde.
Se eu pudesse, mandaria minhas aves – palavras, com seus olhos argutos, voarem por aí, para encontrarem as ternuras perdidas e trazê-las de volta, ao invés de as deixarem soltas no meio deste furacão, onde sentimentos são desmantelados e jogados ao léu.
Se eu pudesse, daria asas às minhas palavras, para que elas sobrevoassem os oceanos, até encontrarem um porto seguro para eu aportar e lá ficar a contemplar mansamente o infinito.
Se eu pudesse pediria que minhas palavras me levassem em suas grandes asas para visitar estrelas e outros céus, até eu encontrar um lugar, onde me fosse permitido sonhar.
Maíra apaga a luz, as gotas perdem o brilho, enquanto ela vai dormir, desejando que aquele amor artificial também se apague de sua vida.
No fundo, ela sabia que este desejo era forjado apenas por palavras sem asas.

(Da obra: CONTOS & CONTAS de Sônia Moura)

APENAS PALAVRAS

ALMAS ABANDONADAS

 ALMAS ABANDONADAS

ALMAS ABANDONADAS (Autoria Sônia Moura)

É tempo de dias nublados, decadentes
Quando o cinza arrasta suas grossas correntes
Pelos desvios de manhãs pálidas e vazias
E pelos becos zanzam madrugadas sombrias
Que matam os sentidos de palavras desertas
Jogando seus restos por fendas abertas
Em desertos onde a areia fria
Mostra o silencio de uma noite arredia
Na qual pássaros, em suas árvores nuas,
Entoam cânticos tentando alcançar a lua
Que se esconde por trás de uma nuvem escura
Deixando homens e pássaros a sua procura
Enquanto a virgem da manhã dourada
Adormecida ao pé da madrugada
Sorri para o poeta que canta em versos
Seu louco e destemido amor transverso
E em socorro das rotas almas abandonadas
Deuses descem dos céus em revoada
Para alegrar-lhes com uma nova alvorada

(Da obra: POEMAS em TRÂNSITO de Sônia Moura)

ALMAS ABANDONADAS