LUGAR VAZIO

 LUGAR VAZIO

LUGAR VAZIO  (Autoria: Sônia Moura)

Não sabia dizer se vivia um inferno dentro do paraíso ou se vivia um paraíso dentro do inferno. Precisava escolher um caminho, mas, lá estava a zombeteira encruzilhada a desafiá-la.

Naquela manhã, vinha pela rua remoendo o seu dilema, quando viu uma pulseira de contas vermelhas e rosas, esquecida num canto da calçada.

Naquele instante, colocou a indecisão na clausura, abaixou-se, apanhou a bijuteria, admirou-lhe a beleza e descobriu que faltava uma conta para completar a sequência.

Ficou a brincar com as contas da pulseira, detendo-se sempre no vazio criado por uma ausência, o que permitia a ela mudar o campo vazio de lugar, isto, é preenchendo-o com a próxima conta.

Então, percebeu que um lugar só fica vazio se você não souber mover as pedras do caminho.

(Da obra: CONTOS & CONTAS de Sônia Moura)

LUGAR VAZIO

POEMÁGICA

 poemágica

POEMÁGICA (Autoria: Sônia Moura)

Não há chuva e nem há sol
Não é noite, nem é dia
Não é sal, nem é mel
Não é pássaro, nem avião
Não há plenitude e não há solidão
Não é palavra, nem silêncio
Não há métrica e não há rima
Mas…
Há um poema de amor
Escondido por trás da fina cortina
E como uma tarde de luz dolente
O cabide vazio penetra em minha mente

O mar banha os meus sonhos
E sorri para mim
Não vejo o meu rosto
Não sei onde estou
E nem sei onde vou
Apenas resolvo seguir

O poema irá comigo
Porque sem ele nada fará sentido
Quero entender este tema
Quero olhá-lo com os olhos da alma
E penetrá-lo mansamente
Com a mais indecente sofreguidão
Para ver se afasto a solidão
Afasto as sombras que insistem em dançar
Bem no meio da palavra amor

Tão órfão como eu, está este poema
Mais parece um pássaro sem penas
Sem ninho, sem cânticos
Então…
Me ponho no lugar da ave e
Canto aos quatro ventos
Chamo aqueles misteriosos versos
Imploro para que venham até mim
E assim, quem sabe encontre neles
A resposta que tanto procuro
E só assim
Saio do meio deste embaraço
E me acho
(Do livro Poemágica de Sônia Moura
POEMÁGICA

NOITE POÉTICA

 noite poética

Noite Poética  (por Sônia Moura)

 

Rindo sempre de suas próprias histórias, Januária contou-me esta, bem interessante.

Certa feita, enfeitou-se com um colar de contas verde-esmeralda, acompanhado por um singelo par de brincos da mesma cor, colocou um pretinho básico e saiu para curtir a noite, que aliás estava totalmente poética, segundo ela.

Brincou, riu, farreou, dançou.

E, quando o dia clareou, descobriu-se numa cama qualquer, num hotel da Central do Brasil, agora, enlaçada por outro pretinho básico, muito carinhoso.

Sei entender muito bem onde estava, olhou para o céu, sorriu para o dia, pegou seu colar de contas verde-esmeralda, beijou o moço e saiu para a vida.

Nunca mais viu aquele homem que conheceu numa boite, ele DJ, ela dançarina, porém a lembrança daquela noite, nunca mais partiu.

Quando pensa nas gostosas loucuras da vida, Januária apenas sorri…

(Do livro CONTOS & CONTAS DE Sônia Moura)

Noite Poética

DISCO DE VINIL

 disco de vinil

DISCO DE VINIL (Autoria: Sônia Moura)

Conhecia Fátima e Ivo há muito tempo, morávamos no mesmo bairro desde os doze anos, isto já faz tanto tempo…
O tempo voou e, quando demos por nós, já estávamos de casamento marcado, eu com Marinete e Ivo com Juliana. Veio o casamento de Ivo (o Magrela), meses depois o de Ricardo (o Magrão), o de Cristóvão (o Navegador), de Soraia (como suspiramos pelos cantos por Soraia!), de Cecília, de Andréia e, finalmente, o meu. A vida caminhava…
Eu e Ivo fomos os únicos a não sair do bairro, do nosso velho bairro. Acabamos compadres. Eu amava Marinete, o tempo fortalecia nossa amizade e, por tabela, nosso amor, Marinete tem um sexto sentido muito apurado, aliás dizem que as mulheres são assim mesmo, mas ela era demais, não costumava errar.
Seria sexto sentido, inteligência ou observação?, meu pai sempre disse que era tudo junto; adorava a nora que o tratava como um pai, um irmão e ultimamente como um filho.
Gostávamos de conversar na cama, no nosso ninho, como dizia Marinete, às vezes, esquecíamos da hora, outras vezes, o desejo falava mais alto e a conversa dava lugar ao sexo gostoso.
Numa destas noites o sexo veio primeiro e depois vieram outras palavras. Abracei Marinete e o papo correu tão gostoso como o sexo.
Falamos sobre nós mesmos, Marinete perguntou-me se eu me lembrava do disco de vinil que eu lhe dera num dia dos namorados. Claro que sim, eu disse. E continuei, mas este disco já era, ainda bem que eu continuo aqui. Marinete levantou-se, foi até o armário, voltou com uma caixa preta, amarrada com uma grossa fita amarela e me entregou.
Abri com mãos ávidas e olhos curiosos, e lá estavam bilhetes, cartas, recados, cartões, entrada de cinema, papéis amarelados pelo tempo.
Um perfume suave se espalhou pelo quarto, Marinete colocava sachês dentro de caixas e gavetas.
Um frescor de saudade e de lembranças se apoderou de mim, e comecei a remexer papéis, fitinhas, envelopes, lembranças, e, lá no fundo, estava um pedaço do disco de vinil.
Era o disco de que ela tanto gostava, mas que, num momento de arroubo juvenil, espatifara-o por ciúmes da minha namorada de infância. Minha mulher jurava que eu ainda pensava em Andréia.
Ali estavam marcas do nosso amor, tudo era importante, mas o pedaço do disco de vinil era uma prova de que o sexto sentido feminino é forte mesmo.
Marinete tinha razão.

(Do livro: Súbitas Presenças de Sônia Moura)

disco de vinil

(DES)AMOR

 (des)amor

(DES) AMOR  (por SÔNIA MOURA)
Ouço alguém dar uma bela definição sobre o que é o amor de mão única:
“Amar sem ser amado é o verbo no tempo perdido”.

Convenhamos, nem mesmo o melhor dos gramáticos ou o melhor dos lexicógrafos daria uma definição tão contemplativa para esta composição verbal.

O BAILE DAS MÁSCARAS – considerações finais

 O baile das máscaras

O BAILE DAS MÁSCARAS – considerações finais

As máscaras representam as marcas da inquietação humana, da apreensão de sentidos dilemáticos das formas sensíveis, as quais guardam o poder do apelo desmitificador, a partir de suas raízes, dissolvendo ou confirmando imagens convencionais cristalizadas.
O uso das máscaras pode dar forma aos sonhos, aos medos e às fantasias, podem ainda retratar medos ou manipular forças contraditórias das origens, que serão completadas com visões humanas e artísticas, permitindo extrair, através delas e de seus diversos usos, um novo real.
Transformar o lógico ou o ilógico no sensível, o racional em intuitivo, através da criação artística – mágica – sagrada ou profana – este é o papel da arte: ajudar o homem a superar-se, por isto a máscara, sendo também representação artística, não deve ser apenas uma “fabulação”, mas sim um renascimento original , fixando, sobre as marcas do tempo, os sinais da identidade do homem e de seu grupo, pela referência de sua situação no mundo, uma vez que, o inventar e o criar implicam a revalorização da ordem cosmogânica, a partir das fontes que assumem o grau de intensificação mágico- simbólica, desde que estas fontes não sejam desfiguradas.
A fonte e a força da criação dos povos, por meio da arte, e o desejo de superar-se, sem perder as marcas profundas da identidade do ser, interligam-se em segmentos, redimensionando aspectos transcendentes e a intimidade do universo humano, neste ponto se dá um modo antigo de relação entre mitos e símbolos cósmicos, onde não se sabe quem é mais poderoso, se é a realidade ou se é a imaginação.
Felizmente alguns grupos isolados ainda guardam vestígios de uma época que está-se esgotando, permitindo-nos contar esta história, dizendo assim:

Era uma vez, há muito, muito tempo, uma arte que, em sua concepção original, permitia a dramatização das questões humanas numa bela dança das máscaras, e que, ainda hoje, nos ajuda a bailar na festa recheada de múltiplas presenças, as quais são invocadas nos salões plurais, para que possamos continuar bailando em universos afetivos e emocionais.

(UFF – 2005)

O baile das máscaras

O BAILE DAS MÁSCARAS – parte IV

 o baile das máscaras

O Baile das Máscaras – parte IV – Máscaras Africanas

A arte étnica das máscaras africanas tem por princípio básico a estética, é, sobretudo forma de expressão, vem de dentro para fora do indivíduo, é “invenção”, “criação” e não mera imitação da natureza, uma vez que é arte mediadora entre os mundos natural e sobrenatural.

Regras preciosas, ritos e atos são observados  na feitura das máscaras, já que estas guardam a essência mágica. Para confeccioná-las é (era) preciso ter autorização do chefe religioso da  aldeia, que por seu reconhecido poder político (pode ser chamado “feiticeiro”) e, entre suas funções, está a de “chefe das máscaras”, ele  preside todas as reuniões de ordem ritual em que a máscara aparece e dirige todo o cerimonial.

Madeira, pedra, marfim, metal, técnicas de fusão de materiais, cinzel e incisão são materiais e técnicas usadas  na criação das máscaras, mas o principal material é a madeira, pois é mais fácil de ser encontrada. Porém, nem todo o tipo de madeira pode ser usada na confecção da máscara, seja por limitações rituais, seja por qualidades negativas atribuídas a certas plantas ou pela qualidade da própria madeira.

A madeira deve ser fresca, pois a madeira mais velha é mais difícil de ser trabalhada e também pode rachar ao secar, tornando-se inútil para o entalhe. Ao encontrar a madeira adequada à criação da máscara, o escultor deverá transportá-la para um lugar isolado e protegido dos olhares indiscretos ou curiosos, fazer alguns rituais e  ficar em uma certa forma  de  “isolamento” até concluir sua obra. Os instrumentos que ele utiliza na fabricação da máscara são, por vezes, construídos por ele mesmo, uma vez que  são considerados objetos de caráter sagrado, e em alguns casos a eles são ofertados sacrifícios.

À noite, o escultor (que pode desempenhar  outra atividade – por exemplo – a de agricultor) volta à aldeia, esconde, junto ao chefe das máscaras, sua obra inacabada ou o seu  modelo e, ao alvorecer, volta ao seu refúgio.

Após o entalhe, o escultor usará folhas rugosas, cipós, tiras de pele de animais, areia, pedras ou fragmentos de osso, para lixar a peça; a cor será dada pelo emprego de corantes vegetais obtidos com folhas maceradas, pela imersão na lama ou pelo escurecimento a fogo. O lado decorativo aparece pelo acréscimo de materiais heterogêneos como dentes, chifres, pêlos, conchas, fibras vegetais, espelhos, miçangas, sementes, pedaços de metal e faixas de tecidos. A decoração é muito importante pois  intensifica de modo dramático a expressividade  e o profundo sentimento mágico e sagrado ,  intrínseco ao objeto.

Ao finalizar a feitura da máscara, o proprietário ou o chefe das máscaras deverá  conserva-la  em lugar seguro e protegido (às vezes, quem desempenha o papel de guardião é o próprio artista), e a máscara  só sairá deste local  para os devidos usos.

Quando o dono da máscara morre, ela passa para um herdeiro (fica em família)  ou  passa para um sucessor da mesma sociedade secreta e, quando uma máscara perde o seu poder, deve ser substituída, porque não pode mais ser utilizada. Cabe ao artista  (escultor) submeter-se ao rito de purificação, conseguir o material adequado, enfim, cumprir todo o ritual de feitura da nova máscara.  Uma breve cerimônia deverá marcar a passagem do espírito da máscara velha para a nova e sua primeira aparição em público deverá ser festejada e os presentes lhe oferecerão donativos  e reconhecerão seus valores, inclusive os estéticos.

Se é um privilégio ser o portador de uma máscara, também designa a este obrigações e sanções, pois seu prestígio conferirá à máscara o mesmo prestígio, podendo aumentar ou diminuir – lhe o valor. A diminuição do valor poderá levar à destruição da máscara, pois esta perde o seu valor ritual e o mesmo acontece à máscara danificada. No entanto, o tempo e a idade são  elementos que lhe dão maior força sagrada, pois esta foi  herdada pelas diversas gerações, que lhe transmitiram o que tinham de melhor.

O mesmo vale para o artista, quando não é autodidata deve fazer seu aprendizado com um artista reconhecido, isto “aumenta” o valor de sua obra. Sua liberdade de invenção é limitada, pois deve seguir os princípios básicos impostos pelas tradições.

Esta forma de  criação   coloca o artista  em contato com forças sobrenaturais, este contato confere riscos a esta posição, mesmo assim o escultor se sente um eleito e tem  muito orgulho do seu trabalho artístico. Ele desfruta de uma posição privilegiada, mas provoca certo temor , por sua capacidade de criar formas que têm ligação com o sagrado e com qualidades sagradas, ou seja, cria instrumentos de poder.

A arte africana sempre teve uma função eminentemente social, era entendida como um meio de ensinamento e motivação de existência cotidiana e metafísica do homem, explicando o sentido da vida e indicando a posição correta dentro do grupo, assim, em manifestações artísticas : iniciações, atos da  sociedade  secreta,  ritos fúnebres e agrícolas, cerimônias públicas, as máscaras eram a síntese da arte e da narração dialógica entre o homem e o mundo visível e invisível.

É assim que se faz  (ou …se fazia).

(UFF -2005)

o baile das máscaras