QUEBRA-CABEÇA

QUEBRA-CABEÇA (SÔNIA MOURA)

O amor é assim como um quebra-cabeça.            QUEBRA-CABEÇA

Às vezes, se consegue organizar todos as peças com certa rapidez- então está tudo certo. Outras vezes, demora-se um pouco mais, mas, ainda assim, tudo dá certo.No entanto, há vezes, que se tenta, tenta, mas não se consegue fazer com que tudo se organize direitinho, para que a figura, tão desejada, seja formada, ainda assim, ccom esforço, tudo poderá dar certo.

Mas, o pior mesmo é quando um jogador descuidado deixa uma peça jogada a um canto, por descaso ou por certezas exageradas de que esta ou aquela peça não lhe fará falta.

Pode ser também que, no caso do amor, por obra de Cupido ou de qualquer outro deus ou mesmo do destino, uma peça se perca. Neste caso, qualquer peça perdida, danificada ou negligenciada deixará a obra incompleta, pois o amor é um jogo por meio do qual se precisa combinar diferentes peças para com elas formar um todo.

É, o amor é mesmo como um quebra-cabeça.

Às vezes preocupa, às vezes inquieta, às vezes incomoda e, às vezes, é um problema complicado.

Por outro lado, às vezes, nos enche de uma felicidade transbordante que nos alucina e nos faz ver que vale a pena viver cada cada  milésimo de segundo que a vida nos oferecer.

Mas…

Quando a tal peça fica faltando para o encaixe perfeito que irá formar o desenho final do quebra-cabeça (ou para desenhar o amor [quase] perfeito), a obra inacabada nos levará sempre a um mistério.

Por isto, se um dia você tiver o amor batendo à sua porta, tome cuidado com cada peça que o destino lhe entregar, para que este não venha a lhe pregar uma peça e, por um bobo descuido ou por pura desatenção, o que deveria ser lúdico, venha a se transformar em tristeza e em incompletude permanente.

QUEBRA-CABEÇA

O ESPELHO E AS MUSAS

I – O ESPELHO e as MUSAS (Autoria: SÔNIA MOURA)

Estas são algumas das perguntas que circulam atualmente nos meios acadêmicos, institucionais, empresariais, quando se pensa na instituição secular que historicamente, até pouco tempo, tinha seu papel bem delineado e delimitado nos campos sociais e artísticos: recolher, classificar, conservar e expor objetos e documentos de valor artístico, histórico ou científico, estudando-os e os difundindo pelos meios a seu alcance.

Atualmente, estamos em busca das identidades perdidas, por exemplo, não conseguimos ver com nitidez a face do Sr. Museu. Ainda não lhe rasgaram a velha identidade por completo, mas nela, o retrato do secular Senhor está embaçado, distorcido, amarelado; não se consegue distinguir-lhe os traços, outrora tão nítidos, tão bem definidos, tão bem postos nos meios sócio – culturais. É pelos versos de Cecília Meireles que o Sr. Museu desabafa: “Eu não dei por esta mudança,/ tão simples, tão certa, tão fácil:/ – Em que espelho ficou perdida / a minha face?

É preciso sair em busca do tempo perdido, da identidade perdida, do prazer perdido, da relação perdida e de um papel social que está rasgado, mas que ainda não foi jogado no lixo, por enquanto e oxalá não o seja. Meneando a cabeça, o Sr. Museu sorri e aprova esta asserção.

Comecemos pela origem do termo museu: do grego mouseîon, s.,(pelo latim: musoeu- ou museu-) “ templo da Musas, local onde residem as Musas ou as ninfas; lugar onde alguém se exercitava na poesia, nas artes; escola; cântico poético”. Já designou também parte do palácio de Alexandria, lugar onde Ptolomeu reunia os mais célebres sábios e filósofos para que estes pudessem se entregar de “corpo e alma” à cultura das ciências e das letras.

Quem tem um “passado” desses, certamente terá um futuro, mesmo que no presente, por vezes, as Musas, os sábios e os filósofos dêem lugar aos “bons negócios”, a butiques, à diversão, ao turismo e à espetacularização. Musas são Deusas e, reza a lenda, que os Deuses (e as Deusas) nunca morrem e o museu é um local que pertence a elas.

No mundo globalizado e confuso, o sujeito pós-moderno procura o seu lugar, deslocam-se identidades culturais. Neste emaranhado de novidades, algumas vozes em fúria concedida (ou não) se levantam e, assim como na narrativa épica de Luís de Camões(Os Lusíadas/canto VII/ estrofe 87:) “... e as Musas, que me acompanharam,/ Me dobrarão à fúria concedida,/Enquanto eu tomo alento, descansado,/ Por tornar ao trabalho, mais folgado”, o Sr. Museu, no centro das discussões, à espera de decisões, vê, em lugar de seu rosto refletido no espelho, as Musas que lhe deram o nome, a refletir- lhe a fama.

(Trabalhado apresentado em 2005 – UFF )

o ESPELHO E AS MUSAS

TEMPLO

 TEMPLO

TEMPLO (Autoria: Sônia Moura)

Meu corpo é um templo
E só tu nele podes penetrar
Só tu a ele podes adorar

Meu corpo é o teu templo
Sagrado, amado, adorado
E só tu podes me dominar,
Consagrar e depois me devorar

Meu corpo é o templo
E em qualquer tempo
Só tu nele podes adentrar
Sem se anunciar
Sem tempo nem hora para chegar
Sem hora ou tempo para partir
Basta que saibas me fazer sorrir

Meu corpo é teu templo
Podes sobre ele se deitar
E rezar, gozar, se lambuzar, sonhar…
Podes dentro dele te esbaldar
Podes fugir do mundo
Podes se aninhar

Meu corpo é teu templo
Só teu, de mais ninguém
Dentro dele tu podes ir além
Muito, mas muito mais além,
Podes orar, blasfemar, se confessar

E, depois de tudo, eu te direi amém!

(Do livro: Poemas em Trânsito de Sônia Moura)

GULA

 Gula

GULA (Autoria: Sônia Moura)

Saboreie meu corpo
Quero a sua luz
Quero o rumo
A que me conduz
O sabor do seu falo

Leve é o seu corpo sobre o meu
Pesado é o fardo de não ter você
Assim como é amarga a separação
Tão doce é a hora de lhe encontrar
E poder amar, amar

Suaves são seus lábios
Sobre minhas bocas
Quando em compassos
Que me descompassam
O quente de sua boca
Me faz delirar
Enquanto mil sonhos
Por mim passam

Tome o meu corpo
E me faça sua
Alcance o meu desejo
Quero seus beijos
Procuro teus abraços
Ouço seu canto,
São loucos gemidos
Sinto o deslizar de suas mãos
Beijo seus dedos
Sinto o seu pulsar

Estamos agora
Entre Eros e Tanatos
Abro-lhe meu corpo
Dou-lhe minhas fendas
Em múltiplas oferendas

Comemos do manjar dos deuses
Bebemos do vinho dos amantes

Nossos corpos
Estremecem em espasmos
E seguimos seguros
Seguros na cauda de um cometa
A cavalgar até o infinito
É hora do orgasmo,
É a hora infinda do prazer
Vem, meu bardo
Vem meu louco amor
Vem, meu companheiro
Vem meu versejador
Vem, meu anjo lindo,
Para dentro de mim
Um poema de amor compor

(Do livro POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)