ENAMORADOS

ENAMORADOS

ENAMORADOS  (Autoria: Sônia Moura)

 

Promessa dos deuses, só agora cumprida,

trouxe à nossa lembrança

a saudade de um tempo tão bom

Uma alegria imensa que não se pode traduzir,

só se pode sentir…

 

Ressurgiu minha fada madrinha e nos reaproximou

 

E felizes…

Fizemos amor, nos (re) apaixonamos,

recriamos nosso Conto de Fadas.

Penetrastes em minha floresta,

Redescobriste a minha caverna

Empapucei-me com todos os seus doces

Rimos dos monstros, dos lobos, das madrastas

Deixamos para lá os sapos, esquecemos a fatídica meia-noite.

 

Ao final, afinal,  meu príncipe calçou-me o sapatinho

Revelei-me: sou tua princesa amada

Disseste então: eu sempre soube, estava à tua procura

Sempre escutei a tua gargalhada,

Sempre sonhei com o teu carinho,

Enfim, chegastes…

Sorrimos.

 

Na luz da  manhã, um sonho antigo se firmou

E despejou sobre nós a cor da esperança

( só entende isto quem um dia já amou).

Por ordem dos deuses, das fadas e dos duendes,

almas, destinos,  corações e corpos

a partir de então estavam (re)atados

 

Este é o destino dos enamorados.

 

                   (Dia quente de fevereiro, reais fantasias.)

 

 (Do livro: Entre Beijos e Vinhos, de Sônia Moura)

enamorados

 

 

 

 

 

ESTAMPAS

estampas
ESTAMPAS (Autoria: Sônia Moura)

Que importava o mundo lá fora, os medos, as dúvidas?
Que importava o perigo, a hora ou a despedida?
Estávamos plenos, livres e cativos
Todas as maravilhas do mundo eram nada
E uma coisa nova, diferente e intensamente milenar
Aconteceu ali na tarde–noite fria à beira mar

Os carinhos do homem batizaram o corpo da amada
Os carinhos da mulher sagraram o corpo do amado
Te convidei pra dançar a dança de acasalar

Sinto, ainda, o cheiro do macho ensandecido
Penetrando a fêmea com nome de mulher (Bom demais!)
Agora, neste momento em que escrevo,
Meu corpo estremece ao pensar no seu,
Recordo meus olhos felizes passeando
Sobre o seu corpo, sobre os seus olhos, sobre o seu sexo
Você fica tão lindo na hora do prazer
Misto de criança, homem, fera e desejo

Foi um poema escrito por dois corpos suados
Foram estampas pintadas por dois corpos melados
Seu corpo que bem me fez…

Lembro seu corpo quase a implorar
Nosso prazer, nossa alegria, nossa fantasia…
Lembro meu corpo buscando o seu e a desejar
Sua ternura, seus beijos e a sua fúria…

Cedemos o lugar ao prazer,
Expulsamos para longe nossos medos
E nos amamos até à exaustão
Depois do nosso gozo, no silêncio do quarto,
Nosso riso era uma canção, batia forte nosso coração…

Que importava o mundo àquela hora
Se éramos apenas homem e mulher?
(Maio. Lembranças de um grande amor.)

(Do livro: Entre Beijos e Vinhos  de Sônia Moura)

estampas

O RATO E O GATO NO PALÁCIO DA RAINHA

 

 O RATO E O GATO NO PALÁCIO DA RAINHA

O RATO E O GATO NO PALÁCIO DA RAINHA (Autoria: Sônia Moura)

 

O rato queria o queijo,

O gato queria o rato,

A rainha guardava o queijo

E o gato aguardava o rato.

 

A rainha saiu da cozinha,

O rato entrou no buraco,

A cozinheira brigou com o gato

E o gato ficou furioso.

 

O rato se libertou e

Correu pela cozinha

A cozinheira pegou

a vassoura

E foi espantar o rato.

 

A rainha reclamou que

O gato só comia e dormia,

Mas não caçava o rato.

 

Ao ouvir isto, o gato 

Ronronou pra lá e pra cá

E jurou caçar o rato.

 

A rainha reclamava e

A toda hora gritava:

Eu não quero rato aqui

E dizia para o gato:

         Molenga, vai trabalhar!

 

Num canto, o rato só ria,

No outro, o gato rosnava,

A rainha não entendia e

Furiosa ficava.

O gato veio para o centro da cozinha.

 

A rainha comeu o queijo,

O rato ficou zangado.

 

Agora, o gato só ria e

A rainha não entendia,

Então saiu da cozinha.

 

O rei entrou na cozinha,

Não viu o gato nem o rato,

Tomou café com biscoitos

E logo saiu da cozinha.

 

Um dia, o gato e o rato

resolveram ser amigos.

Fizeram um trato legal:

O gato fingiria caçar o rato

E o rato se esconderia

em outro buraco

Da cozinha

 

Assim, a rainha ficaria feliz

E muito leite ao gato daria,

Mas, quando rainha saísse

E fosse para o seu trono,

O rato sairia,

Para comer e brincar.

Comeria muito queijo

E depois voltaria

para o buraco quentinho

No outro canto da cozinha.

 

Dito e feito,

O plano deu certo e

Todos ficaram contentes.

 

E assim acaba esta história,

Que mistura bicho e gente

Brincando de esconde-esconde no castelo da rainha

 

O RATO E O GATO NO PALÁCIO DA RAINHA

DÓ MAIOR

DÓ MAIOR

DÓ MAIOR (Autoria: SÔNIA MOURA)

Entre o dó de te perder
E a marcha-ré do nosso amor
Eu vivo a perguntar:
O que será de mi, amor?
Não faça assim
Tu sabes que és
O fá da minha canção
E o que eu quero
É ser o sol do teu sorriso
Torcendo para que tu fiques comigo,
Sempre comigo,
Para depois lá para a lua te levar
Amor, caia em si
Tu sabes que eu sou tua mulher
Para o que der e vier

Mas, se tu me deixares
Passo a ser um anjo perdido
Um anjo ferido
Disposta a me vingar
Serei um anjo revoltado
Que irá zombar do
Teu orgulho de macho ferido
Fazendo-te ajoelhar-te a meus pés
Falando de amor pra mim
Em do, ré , mi, fá, sol, lá si…
Só para me vingar

Depois, aos prantos,
Irei me ajoelhar a teus pés
E implorar que tu voltes pra mim
E não me deixes tão triste assim
Amor,
Tem dó de mim, tem dó,
Não me deixes só com esta saudade,
Amor, isto é maldade em dó maior

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

DÓ MAIOR

BAÚ DAS PALAVRAS

 

 BAÚ DAS PALAVRAS

BAÚ DAS PALAVRAS  (Autoria: Sônia Moura)

 

Meu pai chegou em casa

Feliz como um passarinho

Ria que nem criança

Segurando um pacotinho

 

Mamãe foi logo perguntando

– Por que você tanto ri?

Papai respondeu depressa

O motivo está aqui

E mostrou o pacotinho

Todo bem embrulhadinho

Cingido com fita azul

 

Então o papai falou:

– Hoje ganhei uma inhapa

E não é uma inhapa qualquer

Vai dar pra comprar brinquedos

E jogos para meus filhos

E um vestido para a mulher

 

Inhapa, papai, o que é?

 

Meu pai, muito sabichão,

Deu um belo sorrisão e

Falou assim para mim:

Procure no baú de palavras

Lá está a solução

 

Saí correndo pela casa

Sem saber onde encontar

O tal baú

Que papai mandou olhar

 

Então papai me ensinou

Que é no dicionário

Que se deve procurar

As significações das palavras

Pois lá é o melhor lugar

 

Abri aquele livrão

E fui para a letra I

E foi assim que descobri

O que significa “inhapa”

É o mesmo que gorjeta,

Brinde ou gratificação

 

A partir daquele dia

Papai fazia assim

Dizia uma frase pra mim

E para o meu irmão Joaquim

E nela, sempre havia uma palavra

Nova para ele ou para mim

 

O baú de palavras

Ficava sempre à mão

E nós todos íamos juntos

Procurar a significação

Daquela palavra

Que estivesse

Causando a confusão

Para entendermos depressa

A frase em sua extensão

 

Às vezes, achávamos

Que algumas palavras eram

Muito engraçadas,

Outras gordas, outras magras,

Umas novas, outras velhas

E também havia umas

Que de tão velhas

Eram chamadas arcaicas

 

Alem disso

A nossa infantil imaginação

Também via palavras

Que eram redondas

Que nem uma bola

E outras que eram tão quadradas…

 

Brincando desta maneira

Aprendemos gostar de

O baú ir remexer

Para palavras novas conhecer

E muito mais aprender

 

(Do livro Brincadeiras de Rimar de Sônia Moura)

 BAÚ DAS PALAVRAS

 

IR(REAL)

 

 

 

 

(iR)REAL

 (IR)REAL  (Autoria: Sônia Moura)

 Numa estrada deserta, encontrei um mascarado. Assustei-me, não por medo, assustei-me pelo deserto da estrada e pela incompatibilidade da data e da máscara. Era julho e não era carnaval.

Olhando-me por trás de sua máscara dourada como o sol do meio-dia, a voz saiu-lhe calma e doce como o sumo de uma romã madura a escorrer pela boca, a adoçar os lábios, a enternecer a língua.

– Aonde vais? Fica comigo.

Como estávamos só nós dois e o deserto da estrada, claro que o mascarado dirigia-se a mim e prontamente respondi:

  Vou em busca de todos os meus sonhos!

Imediatamente ele retrucou:

– Irás se arriscar em um porto qualquer? Os portos dos sonhos são tão nebulosos ou seriam diáfanos?

   Não sei, disse eu, mas quero ir para o paraíso, é lá que vivem meus  sonhos.

         Ah! por que ir para tão longe e me deixar aqui, sozinho a contigo sonhar…

          Quem é você?

         Sou o teu sonho, sou tua estrela, sou teu amor…

         Tira a máscara, por favor, por favor!

Ele começou a cantar uma canção que falava de beijos trocados num quarto de motel, de luzes e espelhos a multiplicar o par de amantes, das juras de amor a nos segurar, do sexo e dos abraços que burlavam qualquer forma de desencanto.

Terminada a canção, ele me falou:

     É por isto que eu canto.

         Quem é você, de onde vem este seu encanto?

         Dos teus sonhos, ele disse.

         Dos meus sonhos? Mas estou indo ao encontro deles.

         Para que, se podes embarcar no navio dos sonhos, agora? Disse o mascarado, deixando o sorriso ultrapassar a máscara.

         Que navio? Não estamos no mar.

Mais uma vez, o sorriso pulou daquele rosto oculto, fazendo com que eu pensasse ter visto um rosto sem máscara.

         Sabes que eu te amo muito, muito, muito… Por que não acreditas em mim?

Aturdida e perdida no meio da estrada deserta, no meio do sonho deserto, vejo, pela primeira vez,  flores ladeando a estrada, flores amarelas, como a máscara e como o sol. Só o sorriso que saltava da máscara era cor da prata e brilhava mais que a luz daquele olhar suplicante.

         Meu Deus, quem é este homem? Por que de mim se esconde? Pensei.

          Tenho tanta saudade de ti, Pequenina.

         Oh! Deus, será que é você,  aquele a  quem procuro a tanto tempo…

         Podes vir, meu anjo, eu sempre serei teu, só teu, de mais ninguém. Naveguei por tantos mares, conheci portos e muitas mulheres, mas nunca te esqueci. Finalmente te encontro no meio deste nada, logo você que para mim é tudo…

Uma chuva fina começou a molhar nossos rostos, nossos corpos e nossos sonhos. Agora eram a flores que sorriam.

A chuva aumentou, a máscara foi-se diluindo, diluindo e aquele rosto antigo foi-se mostrando lentamente a mim, como uma flor a desabrochar no meio do deserto.

Vi aquele rosto tão saudoso, entreguei-me a seus abraços, esqueci-me da vida e só aí percebi que eu estava a sonhar…

Mas consolei-me porque mesmo sendo apenas um sonho, algo irreal, a súbita presença daquele mascarado,  agora tão real para mim, deu-me a certeza de que, em toda a minha vida, nunca mais iria sentir um amor tão real.

 

(Do livro: Súbitas Presenças de SÔNIA MOURA)

 

 (IR)REAL

 

TENTAÇÃO

 tentação

 

TENTAÇÃO  (AutoriA: SÔNIA MOURA)

 

Areia e mar

Misturados

Enroscados

Se amando

Num frenesi

Imagens nascentes

Do sonho da gente

De se completar

De se contemplar

Olho no olho

Ouvindo as

Vozes do mar

Nascidas da espuma

Que faziam  rodeios

Tiravam os arreios

Do medo de amar

E o som destas vozes

Acordava a rosa

Esquentava os beijos

Saudava os  pássaros

Sacudia o dia

Desvendava os mistérios

Escondidos na torre

Da paixão-loucura

De quem está à procura

Dos sinais da manhã

Virgem carente

A mexer com a gente

A atrair palavras

Rápidas, trôpegas,

Soltas, profundas

Para nossos lábios

E no mesmo sonho

Se encontram

Pássaros, água, espuma,

Beijos, rosa, areia

Banhados ao sol

Acordando o fogo do amor

Que na virgem manhã

Serpenteia, serpenteia, serpenteia…

 

(Do livro: Poemas em Trânsito de SôniaMoura)

 

 

 

 

 

 

 

PAIXÕES

 paixões

PAIXÕES     (Autoria: Sônia Moura)

                          (Homenagem à  Alice Ruiz)

 

Estar contigo é tudo

Embora esteja semanticamente

Por ti apaixoNADA

Meu ser exala por ti

O famoso  apaixoTUDO

De que fala Alice Ruiz

A doce e eterna menina

Que tanto nos diz

Com seus poemas

De poucas palavras

Fartas de poesia

E muitos sentidos

 

 Pensar em ti é tudo

É sentir-te em mim

Sem pensar em apaixoQUASE

De novo rendo-me a

Alice Ruiz

Que em momento feliz

Nos mostra que a paixão

Pode ser NADA, TUDO ou QUASE

Embora eu deseje que ela seja

Sempre TUDO, TUDO, TUDO

Se não,  meu ser se quedará mudo

O dia se tornará turvo

Pois sem ti eu estarei cega,

Muda, rota e surda

 (Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de SÔNIA MOURA)

 

paixões

JOGO DE PALAVRAS I

JOGO DE PALAVRAS I  (Autoria: SÔNIA MOURA)

 

Na quinta passada

Eu fui à Quinta do João

Após a sesta do almoço

Peguei uma grande cesta

E, no dia seguinte,

Que era uma sexta,

Arrumei a cesta

Coloquei enfeites,

Algumas flores, um balão

E dei um laço bem lasso

Muito fácil de desatar

 

Em seguida,

Escrevi num papel com listras

Uma lista com o nome dos amigos

Entre eles estava o peão

Que também é campeão

Na arte de jogar o pião

E, antes de ele arriar

Do seu cavalo alazão

E começar arrear

O cavalo do João

Pedi-lhe, com discrição,

Que me fizesse a descrição

De um belo cavaleiro

Que, tomara!

Seja um ótimo cavalheiro

 

Naquela mesma hora,

O peão Adamastor

Começou o seu nariz  assoar

E a pensar que à noite

Ele iria  de um torneio participar

E queria muitas palmas

Sem ninguém a sua atuação assuar

 

Então, para se acalmar,

O peão resolveu tomar um chá

Como se fosse um

Pensando que no outro dia

Iria a um concerto

Mas antes precisava um conserto

Em seu carango fazer

 

Adamastor era esperto

E também era experto

Nestas coisas de mecânica

Não era um incipiente

E poderia o seu carro consertar

Pois também não era insipiente

Ele era intimorato

E também intimerato

 

Após a apresentação

Dos mais valentes peões

Adamastor limpou a sua sela

Bebeu um taça de sidra

E também comeu um doce

Feito com mel e com cidra

Depois, foi pra sua cela

Para dormir e sonhar

 

(Do livro: Brincadeiras de Rimar de Sônia Moura)

 

JOGO DE PALAVRAS

 

 

 

 

 

O CAVALO

 O CAVALO

O CAVALO  (Autoria: Sônia Moura)

 

O cavalinho Maneco

Andava pra baixo e pra cima

Carregando seus cacarecos

E dizia pra todo mundo

Que achava a vida boa

Gostava de uma festa

Gostava de trabalhar

Gostava de namorar

Só não queria mesmo

Seus trecos abandonar

 

 E assim lá ia o Maneco

Para lá e para cá

Carregando seus cacarecos

Sem deles se desligar

“- Maneco, você é cavalo,

E não um burro de carga,

Para tralhas carregar”

Diziam os amigos

Para o cavalo teimoso

Mas este não dava bola

E continuava pelo mundo

Seus troços arrastar

 

 Quando ia ao cinema

Ao baile ou ao mercado

Maneco nunca deixava

Seus pertences de lado

Ele nunca se queixava

Do peso que carregava

Ia pra baixo e pra cima

Andava por todo lado

A arrastar ninharias

Que nem ele percebia

Já não valiam mais nada

 

Um dia, destes estranhos,

Em que o sol se escondia atrás da lua

Sabe-se lá muito bem o porquê

Maneco acordou estranho

Saiu correndo pela rua

Sem um trequinho sequer levar

Daquele dia em diante

Maneco ficou livre

Do peso que transportava

E agora era o preferido

Da garotada do bairro

E levava pra lá e pra cá

A molecada pela rua

Todos riam e brincavam

E viviam muitos felizes

Enquanto Maneco cavalgava

Com as crianças em seu lombo

Trotando devagarinho

Para ninguém levar um tombo

 

Até hoje, as boas e as más  línguas

Dizem que foi o beijo que a lua

Naquela manhã festiva

Deu na bochecha do sol

Que libertou o Maneco

Daquela mania cruel

De arrastar pelo mundo

Aquilo que não mais prestava

 

E a partir daí

De cavalo muito cansado

Num cavalo mais alegre

Maneco se transformou

 

(Do livro; Brincadeiras de Rimar de Sônia Moura)