VIAGEM FANTÁSTICA

 VIAGEM FANTÁSTICA


VIAGEM FANTÁSTICA (Sônia Moura)

Bastava um poema para tingir o mundo de Denise, nada como versos para colocá-la em contato com a melhor de todas as realidades: a fantasia que, dizia ela, é uma das dimensões do real e era nela que a moça se encontrava.
Quando lia uma poesia, Denise mergulhava tão fundo no reino das palavras que estas pareciam rasgar-lhe as entranhas, a penetrar-lhe a alma, então ela viajava para muito longe…
Um dia, ao ler o poema “As Contas do Meu Encanto”, encantou-se de forma tão surpreendente que resolveu “viver o poema”.
Mudou-se para a lua cheia, vestiu-se com o mesmo manto das estrelas, sentou-se no trono de um belo cometa, bebeu o leite da via Láctea, enfeitou-se com contas colhidas em asteróides e, a partir de então, literalmente, foi viver no mundo da fantasia.
Esta foi a sua última viagem.

(Do livro: CONTOS & CONTAS de Sônia Moura)

VIAGEM FANTÁSTICA

FRÁGIL FLOR

 FRÁGIL FLOR

FRÁGIL FLOR

Diziam que ela era frágil como uma flor, mas que se transformava ao receber as carícias do seu beija-flor.
Diziam, também, que, nos momentos de sexo e do amor, a frágil moça abria-se em pétalas, desabrochava, crescia, se fortalecia e, como ninguém, sabia deixar fluir o néctar na hora do prazer, deleitando-se em gozo ao receber o mel que escorria manso e, ao mesmo tempo, voluptuoso do bico do seu amado beija-flor.
Numa dessas manhãs malfadadas, o beija-flor voou para bem longe, deixando entregue a muitas dores aquela frágil flor e também levou com ele uma das relíquias daquele amor – o pingente em forma de coração, com uma pequena conta de rubi cravejada bem no centro do coração, como se fosse um punhal a ferir o peito e a alma.
Para a frágil flor, aquele era o símbolo de tudo o que representavam um para o outro e, desde este dia, ela nunca mais os viu e nunca mais viveu o bom do amor.
Dizem que, até hoje, os médicos não conseguem explicar e muito menos entender, como a triste flor continua a viver, se o coração dela nunca mais parou de sangrar.

frágil flor

BALANÇO GERAL

 LENITIVO

BALANÇO GERAL (Autoria: Sônia Moura)

Breves foram teus beijos
Suaves tuas promessas
À sombra daquela árvore
O amor passou com pressa

A vida é mesmo assim
Um dia pode durar um minuto
Mas, um minuto à tua espera
Este (Que inferno!) parece nunca ter fim

Se eu pudesse e a vida quisesse
Tua imagem grudava em mim
E eu jamais seria a triste órfã
Do teu carinho e nem de ti

Sempre que rezo para os deuses
Rogo para viver contigo
Nas várias dimensões do sonho, assim,
O amor será flor perene no meu jardim

(Do livro: Coisas de Mulher de Sônia Moura)

balanço geral

LUGAR VAZIO

 LUGAR VAZIO

LUGAR VAZIO  (Autoria: Sônia Moura)

Não sabia dizer se vivia um inferno dentro do paraíso ou se vivia um paraíso dentro do inferno. Precisava escolher um caminho, mas, lá estava a zombeteira encruzilhada a desafiá-la.

Naquela manhã, vinha pela rua remoendo o seu dilema, quando viu uma pulseira de contas vermelhas e rosas, esquecida num canto da calçada.

Naquele instante, colocou a indecisão na clausura, abaixou-se, apanhou a bijuteria, admirou-lhe a beleza e descobriu que faltava uma conta para completar a sequência.

Ficou a brincar com as contas da pulseira, detendo-se sempre no vazio criado por uma ausência, o que permitia a ela mudar o campo vazio de lugar, isto, é preenchendo-o com a próxima conta.

Então, percebeu que um lugar só fica vazio se você não souber mover as pedras do caminho.

(Da obra: CONTOS & CONTAS de Sônia Moura)

LUGAR VAZIO

POEMÁGICA

 poemágica

POEMÁGICA (Autoria: Sônia Moura)

Não há chuva e nem há sol
Não é noite, nem é dia
Não é sal, nem é mel
Não é pássaro, nem avião
Não há plenitude e não há solidão
Não é palavra, nem silêncio
Não há métrica e não há rima
Mas…
Há um poema de amor
Escondido por trás da fina cortina
E como uma tarde de luz dolente
O cabide vazio penetra em minha mente

O mar banha os meus sonhos
E sorri para mim
Não vejo o meu rosto
Não sei onde estou
E nem sei onde vou
Apenas resolvo seguir

O poema irá comigo
Porque sem ele nada fará sentido
Quero entender este tema
Quero olhá-lo com os olhos da alma
E penetrá-lo mansamente
Com a mais indecente sofreguidão
Para ver se afasto a solidão
Afasto as sombras que insistem em dançar
Bem no meio da palavra amor

Tão órfão como eu, está este poema
Mais parece um pássaro sem penas
Sem ninho, sem cânticos
Então…
Me ponho no lugar da ave e
Canto aos quatro ventos
Chamo aqueles misteriosos versos
Imploro para que venham até mim
E assim, quem sabe encontre neles
A resposta que tanto procuro
E só assim
Saio do meio deste embaraço
E me acho
(Do livro Poemágica de Sônia Moura
POEMÁGICA

NOITE POÉTICA

 noite poética

Noite Poética  (por Sônia Moura)

 

Rindo sempre de suas próprias histórias, Januária contou-me esta, bem interessante.

Certa feita, enfeitou-se com um colar de contas verde-esmeralda, acompanhado por um singelo par de brincos da mesma cor, colocou um pretinho básico e saiu para curtir a noite, que aliás estava totalmente poética, segundo ela.

Brincou, riu, farreou, dançou.

E, quando o dia clareou, descobriu-se numa cama qualquer, num hotel da Central do Brasil, agora, enlaçada por outro pretinho básico, muito carinhoso.

Sei entender muito bem onde estava, olhou para o céu, sorriu para o dia, pegou seu colar de contas verde-esmeralda, beijou o moço e saiu para a vida.

Nunca mais viu aquele homem que conheceu numa boite, ele DJ, ela dançarina, porém a lembrança daquela noite, nunca mais partiu.

Quando pensa nas gostosas loucuras da vida, Januária apenas sorri…

(Do livro CONTOS & CONTAS DE Sônia Moura)

Noite Poética

DISCO DE VINIL

 disco de vinil

DISCO DE VINIL (Autoria: Sônia Moura)

Conhecia Fátima e Ivo há muito tempo, morávamos no mesmo bairro desde os doze anos, isto já faz tanto tempo…
O tempo voou e, quando demos por nós, já estávamos de casamento marcado, eu com Marinete e Ivo com Juliana. Veio o casamento de Ivo (o Magrela), meses depois o de Ricardo (o Magrão), o de Cristóvão (o Navegador), de Soraia (como suspiramos pelos cantos por Soraia!), de Cecília, de Andréia e, finalmente, o meu. A vida caminhava…
Eu e Ivo fomos os únicos a não sair do bairro, do nosso velho bairro. Acabamos compadres. Eu amava Marinete, o tempo fortalecia nossa amizade e, por tabela, nosso amor, Marinete tem um sexto sentido muito apurado, aliás dizem que as mulheres são assim mesmo, mas ela era demais, não costumava errar.
Seria sexto sentido, inteligência ou observação?, meu pai sempre disse que era tudo junto; adorava a nora que o tratava como um pai, um irmão e ultimamente como um filho.
Gostávamos de conversar na cama, no nosso ninho, como dizia Marinete, às vezes, esquecíamos da hora, outras vezes, o desejo falava mais alto e a conversa dava lugar ao sexo gostoso.
Numa destas noites o sexo veio primeiro e depois vieram outras palavras. Abracei Marinete e o papo correu tão gostoso como o sexo.
Falamos sobre nós mesmos, Marinete perguntou-me se eu me lembrava do disco de vinil que eu lhe dera num dia dos namorados. Claro que sim, eu disse. E continuei, mas este disco já era, ainda bem que eu continuo aqui. Marinete levantou-se, foi até o armário, voltou com uma caixa preta, amarrada com uma grossa fita amarela e me entregou.
Abri com mãos ávidas e olhos curiosos, e lá estavam bilhetes, cartas, recados, cartões, entrada de cinema, papéis amarelados pelo tempo.
Um perfume suave se espalhou pelo quarto, Marinete colocava sachês dentro de caixas e gavetas.
Um frescor de saudade e de lembranças se apoderou de mim, e comecei a remexer papéis, fitinhas, envelopes, lembranças, e, lá no fundo, estava um pedaço do disco de vinil.
Era o disco de que ela tanto gostava, mas que, num momento de arroubo juvenil, espatifara-o por ciúmes da minha namorada de infância. Minha mulher jurava que eu ainda pensava em Andréia.
Ali estavam marcas do nosso amor, tudo era importante, mas o pedaço do disco de vinil era uma prova de que o sexto sentido feminino é forte mesmo.
Marinete tinha razão.

(Do livro: Súbitas Presenças de Sônia Moura)

disco de vinil

GOTA DE ORVALHO

 GOTA DE ORVALHO

GOTA DE ORVALHO (Autoria: Sônia Moura)

 Amava as rosas de seu jardim, guardiãs de sua bela história de amor.

Percorria-o todos os dias, em busca de um passado escondido, que sempre renascia no silêncio de suas rosas.

O primeiro encontro e a primeira rosa ofertada renasciam a cada manhã primaveril, e, só  assim ela também se sentia uma menina a brincar no meio do jardim, com a primavera de ontem e de hoje.

Para deixar-lhe na boca o gosto do mel, Darlam a conduzia pela mão, até a torre do castelo feito de flores, e, atrás da roseira com suas flores vermelhas, o amor de ambos explodia no ar, junto com as gotas que bailavam nas pétalas da rosa vermelha.

Naquela manhã, tornou-se de fato a linda jovem de outrora, sentiu-se leve, correu até a roseira de flores vermelhas e deixou-se elevar ao infinito, dentro de uma gota de orvalho, que mais parecia uma linda conta transparente, igual àquela que a princesa de um livro muito antigo usara no dia em que dançara com o príncipe encantado.

A partir daquele dia, Cilene tornou-se encantada, também.

 Da obra CONTOS e CONTAS de Sônia Moura)

GOTA DE ORVALHO

INDEFINIÇÃO

 indefinição

 

 

Indefinição  (por Sônia Moura)

 

Cérebro ou Coração?

Será que caberia um cérebro no coração ou um coração no cérebro?

Perguntou Sofia à amiga Juliana. Ambas chegaram à conclusão de que esta era uma grande fantasia, pois o coração e o cérebro no auge da paixão brigam, não se topam, e, ainda que tentem não conseguem andar juntos.

Atravessar por entre as árvores da floresta que é o miolo destes dois mundos é muito difícil, disse Sofia. Juliana, que brincava com seu colar de contas turquesas, achou que era melhor abandonar a ideia de tentarem decifrar as muitas dimensões do amor.

Resolveram que seria melhor pulverizar as vãs e ambíguas filosofias e ficar com a leveza da espuma do mar em frente à casa de praia, enquanto a segunda não se definia se continuava ou terminava o namoro com Rogério. Foram para o mar.

O sal e o sol do mar farão a sua parte, colocarão Sofia em comunhão com a liberdade precisa, o resto se vê depois, disse Juliana, às gargalhadas.

 (Da obra: CONTOS e CONTAS  de Sônia Moura)

 indefinição

TRAVESSIA

 TRAVESSIA

Travessia      (Autoria: Sônia Moura)

Maria Betânia sabia o quanto era longo e difícil o caminho a ser percorrido, todas as vezes que fazia o regresso para os braços dele.

Entre a dúvida e a certeza há sempre um abismo tão difícil de ser transposto, há que se construir pontes invisíveis para não sermos lançados nas profundezas da dor.

O tempo do bordado a ajudaria a desfiar o seu rosário de dúvidas e, a cada conta amarela, colocada no peitilho do vestido, era como se uma parte da ponte necessária fosse se erguendo e ela também.

Vestiu-se, penteou-se, fez-se bela. Chegou ao clube resplandecente.

Atravessou para o outro lado do salão e se espantou com o brilho que vinha dela mesma e das contas reluzentes em seu peito.

Deixando o abismo para trás, foi ao encontro de si mesma.

Vitoriosa, Betânia acabara de fazer a mais difícil das travessias.

(Da obra CONTOS e CONTAS de Sônia Moura)

TRAVESSIA