Eco de aço

O som oco do eco era ouvido como se fosse aço
Penetrava na caverna labiríntica da saudade
Trazendo à lembrança uma antiga presença.

O choro descendo
E alguém me dizendo:
– Paciência
– Paciência?
– Ah! Tenha clemência!
Foi só o que pude falar

Eco oco de aço insistente
Martelando a minha saudade
Até achatá-la
Mas não para matá-la,
Como quero eu

O que faço
Com este eco de aço?
Rechaço?
Afasto?
Ou
Acolho e dele me sirvo
Para amenizar a minha dor

de amor?

(Do livro POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

Rio (-mar) de Janeiro

Numa perfeita comunhão com a natureza,

Docemente, meus pés seguem beijando a areia

E embora o dia esteja tão nublado

Uma nesga de sol apareceu

Para alegrar meu rosto.

Caminho olhando o mar da minha terra

Abençoada terra!

Mesmo com todas as mazelas e

Ainda que digam que tudo está acabado

Para o Cristo Redentor tenho rezado

Para que todos estejam errados.

Olho para céu acinzentado

Depois levo meus olhos marejados

Até as curvas montanhas açucaradas

Deste Rio de Janeiro, de fevereiro… e

Também do ano inteiro.

Nem mesmo o véu enevoado

Que sobre a cidade se estende

Consegue esconder toda beleza

De um Rio que o mar, o ano inteiro

Beija, beija, beija…

7

7 são os pecados capitais, 7 são as cores do arco-íris
7 são as notas musicais, 7 são dos dias da semana
7 são as maravilhas do mundo antigo, 7 são as artes

Isso, todo mundo sabe.

Mas o que vocês não sabem é que adoro pintar o sete,
Este número mágico, o quarto número primo,
Mas que, em minha lembrança de menina,
Sobre umas férias de verão, à beira mar,
Assim como eu, titubeando pelo corredor,
Meus pensamentos iam e viam
Com uma vontade louca
De bater à porta do quarto número 7
Onde dormia um lindo menino
Quase fui até lá,
Mas um anjo de plantão,
Na hora errada gritou:
Quanto desatino!
E, eu assustada e com as faces rosadas,
Disfarcei, dizendo,
Vim olhar para o número 7 da porta, primo!

Grátis

Do livro ENTRE BEIJOS E VINHOS, de SÔNIA MOURA

Passeando na praça abraçados
Parecíamos de fato namorados
Eu aquecia sua mão macia
Nos beijamos tão cheios de saudade
Que se não fosse arriscado eu sonharia

Hoje, longe, fecho os olhos e penso em você
No seu jeito tão calmo, no seu carinho infindo,
Vejo esse sorriso de que eu gosto tanto
Que me prende com todo esse encanto
E me faz sorrir também

São essas coisas que nos fazem bem
E que não custam dinheiro,
Não custam nada!

(Este poema foi escrito num tempo de
grande saudade.)

Sortilégios

Máscara

O que buscas esconder com esta máscara?
Ou de quem te escondes?

Não adianta, menina, teu olhar revela a fêmea feiticeira
E,
Enquanto teus lábios parecem murmurar palavras de saudade,
Esta flor em teus cabelos revela a bailarina louca pra dançar
Assim,
Solte-se no mundo, ajude-o a girar com tua dança e teu balançar
Encante o ser amado e encante-se com ele, ainda que em sonhos,
Tire a máscara na hora que quiser ou quando ele pedir ou implorar
Então,
Revele-se por inteiro, mas revele sua alma primeiro,
Depois vá desnudando a paz que há por trás de teu olhar
Deixe cair os sete véus do amor, faça esta dança porque
A vida é curta, mas como é longo o teu cantar, viva!
E,
Espalhe, pelo mundo, muitos  sortilégios de amar.

Fases da Lua

Quando eu procurava o seu retrato

Nas páginas do álbum da minha imaginação

Deparei-me com a lua magistral

Ancorada no porão da solidão,

Refletindo tempos, amores e paixões.

E, ao transportar seu nome em suas fases,

A lua fez-me plena de sua presença,

E uma nova sensação de mim se apossou

E fez minguar toda a tristeza desta sua ausência ,

Inundando o meu sorriso com nossas lembranças.

Foi a lua que fez crescer a certeza de que

O amor que sentimos no passado

Não passou, apenas está guardado.

Tudo isto foi a lua que me deu.

Caçada

CAÇADA
(Oitavo poema do livro ENTRE BEIJOS E VINHOS , por Sônia Moura)

Selvagem, nua,
Toda sua

Enroscada
Fera acuada
Ora provocada
Se atira à luta

O caçador se sente tão seguro…

Lança-se à caça
Cheio de desejos
E então o ato se consuma

Ele, de caçador feroz e implacável
Se torna caça mansa e domável…

(Surpresas e paixão. Pôr do sol iluminado.)