WILSON SIMONAL

NEM VEM QUE NÃO TEM!!! (Autoria: Sônia Moura)

Assistindo ao bom documentário: “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, confesso que chorei, que me revoltei e me rebelei, por saber que Simonal não está mais aqui para, ao menos, ter a chance de ouvir os aplausos que ecoaram ao final da apresentação cinematográfica, pois, ficou claro que, antes de mais nada, as palmas eram para o grande Simonal, eram palmas solidárias, ecoavam assim, sentia-as assim.
Salve, Simonal!

E tenho a absoluta certeza de que você está alegrando o ambiente celeste, sim, você só pode estar no céu, pois seu inferno foi aqui na terra mesmo, e que inferno!

Simonal era O ARTISTA, assim mesmo, com todas as letras maiúsculas (isto ainda é muito pouco para dimensionar a grandeza deste artista) e foi, como bem disse Miéle em seu depoimento, o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Alguém duvida?

No entanto, dos caldeirões de magia torta, saíram poções de inveja, vingança, despeito e, principalmente de preconceito contra sua negritude, tudo isto temperado com o suor de um inocente útil que, por ignorar que não era deus, falou bobagem, fez-se menino a gabar-se de vitórias tortas, de feitos fantasmagóricos, ao mostrar-se íntimo de quem não devia e a quem, a bem da verdade, ele sequer conhecia ou sabia quem eram os homens que serviam à ditadura.

Como bem disse Chico Anísio, Simonal sequer sabia o que significava a sigla SNI.

No entanto, a bem de  interesses escusos, toda esta mentira foi transformada  em verdade e por isto Simonal foi morto, ainda que seu corpo continuasse por aqui por longos trinta anos.

Nunca lhe deram a chance de se explicar, nunca. Nunca lhe deram qualquer voz e qualquer vez. Por quê? Por quê? Porque a sua própria classe se calou e se cala até hoje, com raras exceções. Porque a imprensa tornou o boato verdade e bateu duramente nesta tecla e neste homem.

Quem o odiava tanto a ponto de querer mantê-lo como um morto-vivo, pois, como se sabe, o artista que não pode praticar a sua arte é um espectro, somente isto, nada mais.

Tento imaginar o quanto deve ter sofrido este menino grande, quantas dores, quantas lágrimas, meu Deus e ninguém, ainda que fosse por compaixão, ninguém lhe deu uma chance, umazinha sequer, para que sua imagem tão maculada, pudesse voltar a ser limpa.

Tudo o que aconteceu com Simonal, foi o resultado de dois fatores preponderantes:

1 – A ignorância do homem Simonal em relação à vida, ao mundo, que é cruel mesmo com os inocentes e com os despreparados para lidar com ódios, invejas, poderes e poderosos de direita ou de esquerda, como é o caso em questão, e a ignorância moral e espiritual dos que o condenaram, mas, seria tão bom se fosse feita justiça (do céu ou da terra) e que devolvesse aos algozes de Simonal ao menos uma parte da dor que este sentiu, garanto-lhes que eles não suportariam.  Para mim está e sempre esteve bem claro: Simonal foi/é injustiçado.

2 – A intolerância do homem Simonal em relação à possível/provável falha de seu contador (que, a meu ver, procurou, mais uma vez, incriminar aquele que tanto padecera) e a intolerância dos que brigavam por tolerância e justiça e que agiram exatamente como os que eles condenavam, tornando-se os verdugos, que impiedosamente degolaram uma carreira artística, um homem, sua arte, sua família e, principalmente, sua vida.

Quem não conhece a história do lobo mau e dos três porquinhos – Prático, Heitor e Cícero? Com todo o respeito que os animais merecem, a história de Simonal mostra que um lobo-bobo, ingênuo caiu na armadilha de alguns porcões. Seus nomes? A história certamente um dia fará justiça a Simonal e os nomes destes ferozes e implacáveis “porquinhos”, que até hoje chafurdam na lama da maldade, serão revelados, é só esperar, pois, como diz o velhíssimo ditado: A justiça tarda, mas não falha!

Enfim, oxalá Simonal tivesse o poder de ressuscitar mais escolado em relação às coisas da vida, e, neste brilhante retorno, cantasse para aqueles que ousassem colocar-lhe à frente qualquer arapuca: “Nem vem que não tem…”.

Escrito por

Sônia Moura

SÔNIA MOURA é Doutora em Letras (Literatura Comparada), Mestra em Letras (Literatura Brasileira), Pesquisadora na área da Simbologia, Professora de Língua Portuguesa e de Literatura Brasileira e Produtora Cultural.

No centro de suas atividades, está sua parceira inseparável: a arte, coordenando suas múltiplas vozes e os misteriosos momentos da sua criação.