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ERA UMA VEZ… [por Sônia Moura]

Ontem fui ao cinema assistir ao filme Era Uma Vez… do diretor Breno Silveira. O filme mostra o romance de Nina (Vitória Frate), uma garota rica da zona sul carioca e Dé( Thiago Martins), um rapaz pobre e honesto.

Seria uma história comum: amor difícil, vida difícil, situações difíceis, mas que, no filme, misturados a um lirismo gostoso e apoiado pela bela trilha musical e por uma fotografia exuberante, traz um novo sabor para os nossos olhares.
Assim, mesmo no meio da loucura e da violência da cidade grande, grande também se mostrará o amor entre os jovens protagonistas; enquanto lutas são travadas entre o bem e o mal, a riqueza e a pobreza e as muitas formas de amor que o filme nos apresenta: o pai amoroso tentando entender a filha, mas perdido pelo medo de perdê-la; a mãe amorosa dos meninos do morro, com medo também de perdê-los, Dé com medo de perder a sua amada para o preconceito, ditado pela diferença social, existente entre ambos.

Enfim, no meio das muitas lutas travadas, todos estão perdidos ou com medo de se perder ou, ainda, com medo de perder algo ou alguém.
Para falar a verdade, não é deste modo que, no meio deste caos urbano, nos encontramos, também?

Devo ressaltar que me chamou a atenção a sutileza com que o diretor (re)introduz a idéia dos Contos de Fadas, além do título, claro. Na verdade, a história começa a ser prenunciada e pré-anunciada, no momento em que Carlão (Rocco Pitanga) presenteia ao Dé, ainda menino, com um livro achado na praia, cuja história fala de um princesa, de seu castelo e de seu reino
Um outro livro, que a protagonista Nina está lendo – Cidade Partida, de Zuenir Ventura, serve também para reforçar o que o que já se sabe: o filme mostrará uma cidade partida: o Rio de Janeiro, a cidade mais bela do mundo, mas não deixará de suas mazelas, principalmente no que diz respeito às grandes lacunas entre morro e asfalto, entre pobres e ricos.

Assim o filme segue:
Momentos de amor misturados a momentos de total desamor, momentos de paz no meio da guerra, tudo isto regado por tomadas cênicas de uma cidade, cuja beleza esplêndida, entontece a qualquer um, assim como o outro lado desta mesma cidade atordoa a qualquer um.
Injustiça, maldade, bom transformando-se em “mau”; bem transformando-se em “mal” (mesmo ainda sendo bom: Carlão ao tornar-se bandido, busca ajudar a comunidade); pobre lutando para não morrer, ainda mais que para sobreviver; homens e mulheres tendo de engolir ofensas, desaforos para não morrer ou para tentar viver como que lhes resta de sua dignidade, polícia destratando o chefe do morro, roubando tanto quanto os “bandidos”.
É uma verdadeira loucura, lobo engolindo lobo: o pai de Nina tentando salvar-se de uma possível queda social, econômico-financeira; Dé – o mocinho – tentando manter sua integridade; a mãe de Dé, tentando não perder mais um filho; Nina e Dé tentando alcançar um amor sem barreiras; Carlão lutando para não morrer.

Horror, amor e dor. Tudo no mesmo lugar.

Diferente do Conto de Fadas, proposto pelo título e pelo livro infantil, esta história não termina com o fabuloso: … e foram felizes para sempre! , o que para mim, é uma pena, porém, sem pessimismo, apenas baseando-nos na realidade vivda,  o final apresentado é  um dos finais mais prováveis,  é um dos que mais se aproxima do que os filmes da vida nos mostram a todo momento.

Escrito por

Sônia Moura

SÔNIA MOURA é Doutora em Letras (Literatura Comparada), Mestra em Letras (Literatura Brasileira), Pesquisadora na área da Simbologia, Professora de Língua Portuguesa e de Literatura Brasileira e Produtora Cultural.

No centro de suas atividades, está sua parceira inseparável: a arte, coordenando suas múltiplas vozes e os misteriosos momentos da sua criação.