Silêncio

 silencio

Silêncio (por Sônia Moura)

Entregou à mulher amada uma belíssima jóia em forma de flor, cujo miolo era representado por uma conta perolada, e, junto com ela, entregou para sempre seu coração apaixonado, a quem jamais o amaria verdadeiramente. E, desde este dia, sua alegria foi só silêncio.
Coitado.

(Da obra: CONTOS & CONTAS)

silencio

FALSA PROMESSA

 FALSA PROMESSA

FALSA PROMESSA  (Autoria: Sônia Moura)

 

 Aboli o tempo

Dispensei o vento

Emudeci palavras

Destruí imagens

Abandonei viagens

Dei sentido ao nada

Adorei vários deuses

Fiz da tarde madrugada

Dei voz ao mar

Bebi a luz do luar

Corri pela cidade

Inteiramente nua

Busquei teu rosto

Em cada cidade

E em cada rua

Subi à torre

Para te alcançar

Arrebentei correntes

Só pra te encontrar

Cantei estranhos cantos

Emoldurei o teu retrato em ouro

Atirei-me em doidas aventuras

Fiz-me ave de bom agouro

Beijei lábios sedentos por loucuras

Enxuguei lágrimas ressecadas

Desci pelo corrimão da escada

Embriaguei-me na rima da saudade

Acreditando num amor que nem nasceu

E que um ser ardiloso

Um dia me prometeu

E depois eu descobri

Que tudo era uma falácia

Pois só quem viveu este amor

Fui eu

 

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

FALSA PROMESSA

FUTURISMO

 FUTURISMO

FUTURISMO (Autoria: Sônia Moura)

Chamava-se Marinete, diziam que o pai, homem que amava as letras, lhe dera este nome em homenagem ao poeta Filippo Marinetti.
Desde sempre a menina mostrava estar além do seu tempo. Quando bebê e em criança era até engraçadinho ver as peripécias dela, mas, ao chegar à juventude, tudo mudou.
Marinete era o que a sociedade da época chamava de amoral e imoral, namorava todos e todas, sem o menor pudor, não escondia de ninguém seus desejos e loucuras. Gostava do hoje e muito mais do amanhã, vivia correndo, abominava tudo o que não fosse tecnológico, adorava uma briga, exaltava as guerras e, quase sempre, tentava resolver tudo por meio de atitudes violentas. Ela adorava as cores fortes e as usava em suas roupas, em seu quarto e em todos os seus pertences.
Dizia que as palavras precisavam ser livres, por isto as usava sem a menor cerimônia, às vezes, palavras de baixo calão, impropérios e grosserias saiam da boca da moça com a mesma facilidade que se engole água fresca, pois, para ela, isto era brincar com as palavras, Marinete não gostava das regras da língua mãe.
No entanto, havia um objeto que desbancava todos estes conceitos e o comportamento espevitado de Marinete, era uma medalhão em ouro velho com uma conta vermelho-sangue, presente da avó materna.
Sempre que punha o medalhão, Marinete se transformava totalmente, passava a ser uma dócil e gentil jovem. Alguns diziam que era o espírito da avó, uma romântica convicta que se apossava dela, e, quem defendia esta ideia dizia que ela era médium, daí as transformações tão repentinas.
E, também, dizem, até hoje, que o pai se arrependeu amargamente em ter colocado este nome na filha, pois, segundo ele, a filha não entendeu o recado do poeta.

(Do livro: Mistérios e Saudades de Sônia Moura)

FUTURISMO

VIAGEM FANTÁSTICA

 VIAGEM FANTÁSTICA


VIAGEM FANTÁSTICA (Sônia Moura)

Bastava um poema para tingir o mundo de Denise, nada como versos para colocá-la em contato com a melhor de todas as realidades: a fantasia que, dizia ela, é uma das dimensões do real e era nela que a moça se encontrava.
Quando lia uma poesia, Denise mergulhava tão fundo no reino das palavras que estas pareciam rasgar-lhe as entranhas, a penetrar-lhe a alma, então ela viajava para muito longe…
Um dia, ao ler o poema “As Contas do Meu Encanto”, encantou-se de forma tão surpreendente que resolveu “viver o poema”.
Mudou-se para a lua cheia, vestiu-se com o mesmo manto das estrelas, sentou-se no trono de um belo cometa, bebeu o leite da via Láctea, enfeitou-se com contas colhidas em asteróides e, a partir de então, literalmente, foi viver no mundo da fantasia.
Esta foi a sua última viagem.

(Do livro: CONTOS & CONTAS de Sônia Moura)

VIAGEM FANTÁSTICA

FRÁGIL FLOR

 FRÁGIL FLOR

FRÁGIL FLOR

Diziam que ela era frágil como uma flor, mas que se transformava ao receber as carícias do seu beija-flor.
Diziam, também, que, nos momentos de sexo e do amor, a frágil moça abria-se em pétalas, desabrochava, crescia, se fortalecia e, como ninguém, sabia deixar fluir o néctar na hora do prazer, deleitando-se em gozo ao receber o mel que escorria manso e, ao mesmo tempo, voluptuoso do bico do seu amado beija-flor.
Numa dessas manhãs malfadadas, o beija-flor voou para bem longe, deixando entregue a muitas dores aquela frágil flor e também levou com ele uma das relíquias daquele amor – o pingente em forma de coração, com uma pequena conta de rubi cravejada bem no centro do coração, como se fosse um punhal a ferir o peito e a alma.
Para a frágil flor, aquele era o símbolo de tudo o que representavam um para o outro e, desde este dia, ela nunca mais os viu e nunca mais viveu o bom do amor.
Dizem que, até hoje, os médicos não conseguem explicar e muito menos entender, como a triste flor continua a viver, se o coração dela nunca mais parou de sangrar.

frágil flor

BALANÇO GERAL

 LENITIVO

BALANÇO GERAL (Autoria: Sônia Moura)

Breves foram teus beijos
Suaves tuas promessas
À sombra daquela árvore
O amor passou com pressa

A vida é mesmo assim
Um dia pode durar um minuto
Mas, um minuto à tua espera
Este (Que inferno!) parece nunca ter fim

Se eu pudesse e a vida quisesse
Tua imagem grudava em mim
E eu jamais seria a triste órfã
Do teu carinho e nem de ti

Sempre que rezo para os deuses
Rogo para viver contigo
Nas várias dimensões do sonho, assim,
O amor será flor perene no meu jardim

(Do livro: Coisas de Mulher de Sônia Moura)

balanço geral