A FACE DA SOLIDÃO

 A FACE DA SOLIDÃO

A FACE DA SOLIDÃO (Autoria: Sônia Moura)

Solidão
É ter o coração sangrando
Numa hora qualquer da madrugada
Após a partida repentina do amado
Que se foi pelo amor desencontrado

Solidão
É igual a vinho tinto derramado
Sobre a impecável toalha de linho em brancura
Que só se mostra claramente após a festa
Que tal qual a dor de amor é uma amargura

Solidão
É igual sangria que não se estanca
E devagar, com sarcasmo a vida nos arranca
Enquanto nos olhos do morto, em forma de ilusão,
Zombeteiramente sua cruel figura estampa
(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

A FACE DA SOLIDÃO

À MODA ANTIGA

à moda antiga

À MODA ANTIGA (Autoria: Sônia Moura)
Amor,
Ponha lenha na fogueira
Prepare a frigideira
Bote água na chaleira
E bem a nossa maneira
Vamos fazer devagarinho
Uma comida especial
E um doce gostoso de amor
Ambos feitos à moda antiga
Amor
A noite já vai tão calma
Toque uma moda de viola
Que seja uma canção de amar
Me envolve em suas asas
Me dê todo o seu calor
Alimente a minha alma
Com um bom saquê de amor
Vamos saborear com calma
Nossa salada de corpos
Nosso amor à moda da casa
A lua já se faz bela
Ela beija os lábios dele
Ele beija os lábios dela
Crepita a lenha na fogueira
Crepita um frenético desejo
Ardem as chamas no fogão
E, na rede, arde o fogo da paixão
Ele diz para ela:
Precisamos namorar
A vida é só um jogo
Vamos agora brincar
De amar, amar, amar
E um bom tempo depois
Com os corpos satisfeitos
E as almas a bailar…
Ela diz para ele:
Foi dormir a luz do luar
Se espreguiça a luz solar
Vamos lá fora espiar
O dia já vai raiar
Aquecido em fogo alto
O melhor do nosso amor
Se fez gostoso e sem pressa
No nosso fogão à lenha
A comida ficou perfeita
Se fez de forma bem lenta
Ambos ganharam temperos
Colhidos em nosso quintal
Por um cozinheiro especial
O amor de avental

(Do livro: COISAS DE MULHER de Sônia Moura)

à moda antiga

OPÇÃO

 OPÇÃO

OPÇÃO (Autoria: Sônia Moura)

Eu opto pelo começo
E nunca pelo fim
Quando se trata de amor
Mas opto pelo fim
Nunca pelo começo
Quando se trata de dor

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

OPÇÃO

NÁUFRAGA

 NÁUFRAGA

NÁUFRAGA (Autoria: Sônia Moura)

Quando finquei raízes em um coração
Tornei-me náufraga no mar do desejo
E em meio a ondas revoltas eu vejo
Que nada poderei fazer
A não ser deixar a vida acontecer

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

NÁUFRAGA

POLIQUERÊNCIAS

 POLIQUERÊNCIAS

POLIQUERÊNCIAS  (Autoria: Sônia Moura)

Quero-te agora
Para embalar teus sonhos
Quero-te ontem
Para chorar teu pranto
Quero-te amanhã
Para o amor eterno
Quero-te de manhã
Para cantar teu canto
Quero-te à tarde
Para te dar alento
Quero-te à noite
Para o meu intento
Quero-te sempre
Para amar-te tanto

Quero-te agora
Para o meu encanto
Quero-te ontem
Para matar saudades
Quero-te amanhã
Para beijar-te lento
Quero-te de manhã
Para cheirar teu cheiro
Quero-te à tarde
Para encontrar-te amigo
Quero-te à noite
Para sorrir contigo
Quero-te sempre
Para o amor preciso

(Tempo, tempo, tempo.. 14h, domingo.)

Do livro  “Entre Beijos e Vinhos” de Sônia Moura

POLIQUERÊNCIAS

ENCANTAMENTO

 Encantamento

ENCANTAMENTO (Autoria: Sônia Moura)

Que mistério é este que me faz perder-me em mim
Perdendo minh`alma e me deixando parva assim?

Que feitiço é este que me faz tatear às cegas
Sem encontrar o caminho de volta para mim?

Que alquimia é esta que me faz esquecer de mim
Embriagando-me toda, num dissabor sem fim?

Que encantamento é este que se apossa de mim
E corrói meu ser como um esfomeado cupim?

Que força sobrenatural é esta que cala toda palavra em mim
E me faz perder a dimensão da dor me deixando assim
Sem forças para me apartar de ti?

 

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

 encantamento

ALUGUEL

 aluguel

ALUGUEL

O que fazer com a dor que neste momento
Insiste em alugar meu coração?
Talvez esta tenha se instalado nele
Para suprir o amargor de uma ausência
Ou quem sabe para calar o sentimento
Fazendo par com a indesejada solidão

aluguel

DESEJO DA SAUDADE

 DESEJO DA SAUDADE

DESEJO DA SAUDADE (de Sônia Moura)

O mel que escorre de tua imagem
Baila em forma de lembrança
E tatua em meu corpo a esperança
De que ainda hei de tê-lo
Para te amar com desvelo

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

DESEJO DA SAUDADE

JOGO DA VIDA

 jogo da vida

JOGO DA VIDA (Autoria: Sônia Moura)

Reli suas cartas
Embaralhei sentidos e sentimentos
Vi meu rei abandonar a mim, sua rainha,
Aí, veio o valete e me cortejou
E em mangas de camisa
Entre ases e curingas me guardou

Deitou-me em um leito
Debaixo das copas das árvores
Amou-me como se eu fosse, acredite
A belíssima deusa Afrodite
Amou-me como uma dama,
Fez-me sua mulher-rainha
Chamou-me de tesouro
Depois, bebemos o vinho dos deuses
Em belíssimas taças de ouro

Apavorado com a notícia
O rei rapidamente voltou
Levantaram-se as espadas
Trocaram-se afiadas farpas
Mais parecia um jogo de cartas
Se bateram de duas às dez
Cortaram uma antiga canastra
Em muitos pedaços de pau
Já não se sabia mais
Quem dava as cartas

A plateia já estava farta
Ninguém queria ser o morto
Os dois queriam bater primeiro
Os dois queriam dar o bote certeiro
Os dois procuravam um atalho
Melhor é vencer este jogo
Nem um dos dois queria
Ser carta fora do baralho
A certa altura da luta
Depois de muita labuta
O cansaço de ambos
Quadruplicava tudo
Num escudo de ouro
Eram 04 reis, 04 rainhas,
04 valetes, 04 curingas…

E continuava a briga… Por fim…

O Valete de ouros venceu a luta
Foi uma peleja honesta
Por isto, o povo fez a festa
Embora o clero
Aliado à monarquia
Tentasse convencer a peãozada
Que aquele foi um jogo
De cartas muito bem marcadas

O Valete venceu
Não só porque
Tivesse mais sorte
Ele era mais forte
Ele tinha mais porte
Então, como previra
A cigana Esmeralda,
Ficou com a dama de ouros
Ganhou o melhor tesouro

Os miolos do rei se embaralharam
Ele passou de rei a curinga
Seu coração sofreu um golpe de espada
Endureceu como pedra
Não era mais de ouro
Era madeira, era pedaço de pau
Quem mandou ele ser mau
Para a rainha
Quem trata uma Dama
Com pedras e paus
Quem a deixa sozinha
Esquecida nas cozinhas
Ou nas copas
Quem não tem palavras doces
E a trata na base da espada
Como diz o povo
Esta é a regra do jogo:
“Quem não dá assistência,
Abre as portas à concorrência”

Assim é que o Rei de paus
Perdeu a luta, perdeu o jogo
Quem não trata bem à mulher
Seja nobre ou plebeu
Decide a sua sorte
Não joga mais com a vida
Decreta a própria morte

(Do livro: POEMAS EM TRÂNSITO de SÔNIA MOURA)

jogo da vida

MISTURA LOUCA

 MISTURA LOUCA

Mistura Louca (Autoria: Sônia Moura)

A magnitude desse encontro
É ser irracional
E, sem permissão,
Colocar a supremacia do afeto
Numa incoerente prensa
E, conservar este evento
Em situação autônoma
E imprudente

(Da obra: POEMAS EM TRÂNSITO de Sônia Moura)

MISTURA LOUCA