{"id":1239,"date":"2010-05-18T20:22:48","date_gmt":"2010-05-19T00:22:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.soniamoura.com.br\/?p=1239"},"modified":"2010-05-24T15:12:04","modified_gmt":"2010-05-24T19:12:04","slug":"curvas-na-seara-de-vento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.soniamoura.com.br\/?p=1239","title":{"rendered":"CURVAS NA SEARA DE VENTO"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">\u00a0<a title=\"CURVAS NA SEARA DE VENTO\" href=\"http:\/\/www.soniamoura.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/seara.jpg\"><img alt=\"CURVAS NA SEARA DE VENTO\" src=\"http:\/\/www.soniamoura.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/seara.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">CURVAS NA SEARA DE VENTO<span>\u00a0 <\/span>(Autoria: <strong>S\u00f4nia Moura<\/strong>)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\"><strong>(UFF \u2013 Semin\u00e1rio \u2013 2008)<\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Em <em><span style=\"font-family: 'Comic Sans MS'\">Seara de Vento<\/span><\/em> de  Manuel da Fonseca, o verbo <strong>curvar-se<\/strong> e seus sin\u00f4nimos se apresentam como  <strong>met\u00e1foras- s\u00edntese<\/strong> do romance, dando  a estas palavras mobilidades significativas capazes de mostrar os m\u00faltiplos  aspectos de uma realidade que o texto ir\u00e1 ficcionar. Assim, as den\u00fancias  reveladoras do estado s\u00f3cio- pol\u00edtico em Portugal, entrega ao leitor a forma  vis\u00edvel deste momento hist\u00f3rico que tenta tornar o homem invis\u00edvel pois, como  dizem <em>George Lakoff e Mark Johnson em <\/em><u>Methaphors  we live by<\/u>: <span>\u201c&#8230; <em>na maioria dos casos, o que est\u00e1 em  evid\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 a verdade ou falsidade de uma met\u00e1fora, mas as percep\u00e7\u00f5es e  infer\u00eancias tiradas dela e as a\u00e7\u00f5es sancionadas por ela.\u201d.<\/em><\/span>.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\"><span>Na base do sistema conceitual da express\u00e3o <\/span><strong>curvar-se<\/strong><span>, encontramos  diversas refer\u00eancias metaf\u00f3ricas: <u>gesto de humildade <\/u>\u2013 <em>pr\u00e1ticas orientais<\/em>, <u>humildade,  adora\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o<\/u> &#8211; religi\u00f5es (judeus, crist\u00e3os, mu\u00e7ulmanos, esp\u00edritas),  curvar-se <u>ante a beleza<\/u>\/ <u>admira\u00e7\u00e3o<\/u> e outros. Metaforicamente,  tamb\u00e9m encontramos, a express\u00e3o <\/span><strong>curvar-se<\/strong><span> dilu\u00edda pela presen\u00e7a do verbo <\/span><strong>cair: <em>\u201ccair  de quatro<\/em>\u201d; <em>\u201ccair de amor\u201d. <\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\"><span>Nesta obra de Manuel da Fonseca<\/span>, a express\u00e3o em destaque  desdobra-se em muitas possibilidades significativas, como met\u00e1fora recorrente,  cuja base est\u00e1 voltada para a id\u00e9ia de <em>sujeitar-se  a; ser obrigado a ou<span>\u00a0 <\/span>estar sujeito a &#8211;<\/em>,  neste contexto, esta met\u00e1fora e suas diversifica\u00e7\u00f5es referem-se \u00e0 sujei\u00e7\u00e3o  pol\u00edtica a que estavam expostos os personagens da est\u00f3ria e da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Assim, pela presen\u00e7a e mobilidade  da for\u00e7a metaf\u00f3rica, alguns aspectos: tristeza, infelicidade, submiss\u00e3o, \u00f3dio,  impot\u00eancia, indiferen\u00e7a, descaso, pactua\u00e7\u00f5es, sofrimentos e viol\u00eancias  evidenciam-se na narrativa e explodem aos olhos do leitor, dando ao texto uma  for\u00e7a subjetiva, pelas transposi\u00e7\u00f5es de sentidos de representa\u00e7\u00e3o da realidade  discursiva, ratificando, deste modo,<span>\u00a0 <\/span>o  que afirma Paul Ricouer, <em><span>\u201cn\u00e3o h\u00e1 met\u00e1fora viva no dicion\u00e1rio e sim no  discurso\u201d.<\/span><strong> <\/strong><\/em><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">O voc\u00e1bulo curvar-se e seus  sin\u00f4nimos s\u00e3o empregados como <em>met\u00e1foras<\/em> <em>in absentia<\/em><span>\u00a0\u00a0<\/span><em>&#8211; nas quais o ve\u00edculo est\u00e1 presente e o  teor, ausente- <\/em>deixando<em> <\/em>ao leitor o dever e o prazer de descobrir o  teor e o que constitui a similaridade entre elas e o ve\u00edculo, e, por meio de  conceitos (in)distintos a sociedade e seus pilares \u2013 p\u00fablico ou privado, s\u00e3o  apresentados ao leitor pela for\u00e7a da representa\u00e7\u00e3o da linguagem e de suas  rela\u00e7\u00f5es contextuais.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">Arist\u00f3teles considerava que as imagens po\u00e9ticas, ao  criarem transposi\u00e7\u00e3o de sentido, como acontece com as met\u00e1foras, introduzem um  elemento imprevisto e estranho, deste modo, eclipsado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Nesta obra, o teor metaf\u00f3rico  reprisa o momento vivenciado pelos personagens oprimidos e tamb\u00e9m eclipsados  por uma sociedade na qual, v\u00e1rias formas de viol\u00eancia destroem e destronam o  indiv\u00edduo e a fam\u00edlia, limitando espa\u00e7os f\u00edsicos, psicol\u00f3gicos e sociais,  fazendo com que as fronteiras do p\u00fablico e do privado se curvem ao momento  hist\u00f3rico, provocando no leitor o<span>\u00a0  <\/span>desejo de decifra\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es textuais e sociais.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Na maior parte da narrativa, as  express\u00f5es metaf\u00f3ricas do verbo <strong>curvar-se<\/strong> apontam personagens submersos  no caos social, impossibilitados de comunicar-se, de lutar, de sentir alegria;  colocando-os na condi\u00e7\u00e3o de isolamento social e familiar. \u00c9 por meio do teor  metaf\u00f3rico que suas vozes explodir\u00e3o, elas vir\u00e3o nas asas do vento e ser\u00e3o  espalhadas pela seara e pelas sendas narrativas, pois o autor animiza o vento e  a este \u00e9 dado o poder de chorar, gritar e sussurrar pelos personagens.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">O compromisso ideol\u00f3gico do neo-  realismo parece curvar-se para captar (ou ser captado?) por estas met\u00e1foras que  guardam em si uma acumula\u00e7\u00e3o imag\u00edstica atenta a uma realidade subjetiva que se  apresenta despojada de ornamentos e submetida \u00e0 for\u00e7a metaf\u00f3rica da palavra  curvar(-se) e de suas m\u00faltiplas associa\u00e7\u00f5es e seus v\u00e1rios significados, para  incorporar-se \u00e0 pr\u00f3pria realidade capturada pela fic\u00e7\u00e3o e permitir ao leitor um  perfeito encontro com esta.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">\u00a0 <span><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: 'Tahoma'\">FONSECA, Manuel da. <u>Seara de Vento<\/u>. Lisboa: Editorial  Caminho, 1988.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10.0pt\">LAKOFF,George e JOHNSON, Mark. <\/span><u><span lang=\"EN-US\" style=\"font-size: 10.0pt\">Metaphors We Live By<\/span><\/u><span lang=\"EN-US\" style=\"font-size: 10.0pt\">. Chicago, The University of  Chicago Press, 1980.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"text-align: justify\">RICOUER, Paul<strong>. <\/strong><u>La Met\u00e1fora Viva<\/u>. <span lang=\"ES-TRAD\">Buenos Aires, Ed. La Aurora,  1977.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"text-align: justify\">PONTES, Eunice (org.).<span>\u00a0 <\/span><u>A Met\u00e1fora<\/u>. Campinas: Editora da UNICAMP,  1990.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 CURVAS NA SEARA DE VENTO\u00a0 (Autoria: S\u00f4nia Moura) (UFF \u2013 Semin\u00e1rio \u2013 2008) Em Seara de Vento de Manuel da Fonseca, o verbo curvar-se e seus sin\u00f4nimos se apresentam como met\u00e1foras- s\u00edntese do romance, dando a estas palavras mobilidades significativas capazes de mostrar os m\u00faltiplos aspectos de uma realidade que o texto ir\u00e1 ficcionar. 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